Poemas, frases e mensagens de imelo10

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de imelo10

INSTINTO METAFÍSICO

 
Vejo-me seduzido por pensamentos acrobáticos
Que contracenam amiúde com sonhos malabaristas,
Em vértices perpendiculares sinto-os idealistas
Consumidos pela vertente do consciente alopático.

Meu raciocínio faz piruetas num céu de fantasia
E a inconsciência se vê rachada por uma ideologia tosca,
As estrelas luzem alegorias pálidas no céu da boca
Consorciando-se à memória na confecção da nostalgia.

Percebo-me verdugo de uma imaginação quadrangular
Em que perímetros tímidos se unem para sonhar
Num trapézio onde sutis devaneios são os artistas...

Noto-me exausto... meu campo cefálico pede socorro,
Então encaro a realidade e em minúcias discorro
Sobre o que é aventurar-se no onírico sem ser cientista!
 
INSTINTO METAFÍSICO

TUDO EM TI...

 
Teu nome está inscrito nas asas do vaga-lume,
Pisca-pisca que é convite para um colóquio particular...
Eu e tu... nós dois, singrando o espaço, buscando voar
Sobre o manto da terra: livres, audazes, impunes...

Teu sorriso parece asas de borboleta: beija tímida flor
E o colibri que amamenta as pétalas suga o pólen, demente...
A essas alturas, eu e tu... tu e eu... juntamos docemente
Nossos lábios para divinizar o mel: essência de amor!

Teu corpo é catedral onde preces sensuais são átomos
Que, em sua indivisibilidade, energizam dois bálsamos
Fundidos numa só carne temperada à exaustão das delícias...

Teus olhos são êxtase que inundam meu índigo incolor
Seduzido pelo orvalho que brota sereno do teu ardor
E me regaça entre os lírios cristalinos das carícias!

De: Ivan de Oliveira Melo
 
TUDO EM TI...

Tempero Linfático

 
Conflitos abastecem o mercado da hipocrisia
E a mentira se alastra onde a verdade repousa,
Debaixo do tapete joga-se o lixo com a velha vassoura
Enquanto o mundo apodrece eivado de fantasias.

Ambientes ilusórios camuflam o odor da realidade
Que se acumula diante de um tela que é fachada,
Microorganismos se multiplicam e acessam a porta de entrada
Envenenando o pseudo requinte da sustentabilidade.

Tudo com macrobiótica, em doses homeopáticas,
Assim a vida mergulha numa nebulosidade linfática
Em que a cura é transcendental, quase um sonho...

Sobe-se em ladeiras e segue-se em retas de precipícios,
A queda é livre e muitos se amontoam em hospícios
À espera do inconcebível milagre do viver que fica enfadonho!
 
Tempero Linfático

Exéquias

 
Balbúrdia! Sentimentos que vagueiam aturdidos,
Ofendidos diante de catres que semeiam ilusões
Numa fisiologia promíscua onde se fabricam tesões
E torna o sexo sucata... mercadoria de teor bandido!

Socorro! Venéreas são as identidades deste vaticínio
Que edificam um futuro lúgubre associado à morte...
A centelha da vida chora e não há quem se conforme
Perante uma insensatez que deixa vesgo o raciocínio...

É ululante a destruição da etnia que apenas sobrevive
Sobre pinceis opacos que pintam a existência em declive
E já não se alimentam do sol que é energia fã da saúde...

Silêncio! Eis o velório que ameaça o respirar do mundo,
Palco inóspito donde o amor foi expulso pelo vagabundo
Prazer que tiraniza a relíquia ventura do belo, amiúde...
 
Exéquias

TROCADILHOS

 
Hei de passar minha vida em revista
Porque nas revistas do mundo
Meus poemas são entrevistas...

Hei de pintar meus cabelos grisalhos
Porque brancos me deixam coroa...
Meu espírito é jovem, quero ser rei
E adornar-me com uma coroa
Sem precisar de tomar de uma moeda
E jogá-la de cima até embaixo e ver
No que deu: cara ou coroa?

Hei de aguar as plantas do jardim
Porque na planta de minha casa
Edifiquei um jardim da infância
A fim de curtir o sorriso das crianças...

Minha casa é um imenso tesouro
Onde guardo meu cansaço
E ofereço hospedagem a um amigo
Que casa e, em lua de mel,
Abre a casa dos seus botões...

Hei de ofertar uma rosa da roseira
Que há em meu quintal e dar à
Rosa o vestido cor-de-rosa
Para que ela não vá colher flores
Dentre as urtigas do matagal...

Hei de barbear minha cara
Com aquela loção cara
Que um cara me ensinou...

Hei de estudar Física
Para entender certos movimentos
Porque na Educação Física
Muito me machuco e sofro tormentos...

Hei de ir ao zoológico ver os macacos,
Mas antes necessito de vistoriar o carro,
Pois tenho dois macacos para alevantar
O veículo e sou alto o suficiente
Para botar macaco no regulador de energia...

Por hoje é o bastante... É que estou só
E só eu para entender
Que dois mais dois são cinco...oh, são quatro!
 
TROCADILHOS

GERAÇÕES - PARTE III - CAP. III ( FINAL )

 
GERAÇÕES
PARTE III
CAPÍTULO III ( FINAL )
Foi Maurício T. Ferraz, atual Vice-Presidente da Fundação Mercantil Dagoberto Antunes que, utilizando a mídia do Grupo, fez um pronunciamento em rede nacional no mesmo dia em que Demetrius Antunes fechou a transação que envolvia a transferência do controle acionário para o Governo Americano. O pronunciamento foi ao ar à noite, em horário nobre. Maurício utililizou-se de gráficos, dados contábeis e uma ampla retórica em que mostrava e provava por a+b a razão que levou Demetrius Antunes a concretizar o negócio. A Nação bebia as informações e, em muitos lares, houve derramamento de lágrimas. Não obstante, estavam comprovadas as intensas e urgentes necessidades da transferência do controle acionário. Que Deus abençoasse
as atitudes tomadas. Através do ilustre Vice-Presidente, Demetrius pedia desculpas ao povo e prometia iniciar-se, com o numerário da venda, novos negócios e quem sabe, num longo prazo, investir na abertura de uma nova Fundação.
A notícia pegou a todos de surpresa. Ninguém de sã consciência poderia imaginar as dificuldades que Demetrius vinha enfrentando ultimamente. Para muitos, foi até um ato de heroísmo e inteligência, especialmente para os entendidos em negócios, porque percebiam, pelo que foi
mostrado, que as dificuldades poderiam ter consequências graves, como a total perda do patrimônio sem que houvesse qualquer ressarcimento em troca. O povo chorou, lamentou, porém compreendeu que não havia outra saída.
Na manhã seguinte, Demetrius chegou acompanhado da mulher, dos filhos e dos assessores mais diretos ao cartório, onde assinaria a transferência e receberia os valores que concretizavam a transação. Foi assediado pela imprensa, porém em nenhum momento se
disponibilizou para qualquer esclarecimento a mais. Tudo ali naquele cartório se resolveu e o numerário depositado em sua conta foi instantâneo.
Logo estava em casa, rodeado da mulher e dos filhos.
- Vamos arrumar nossas malas. Iremos fazer uma longa viagem e, no retorno, pensar como serão nossos novos dias. – Informou Demetrius.
Em companhia da família viajou. Visitou muitos países europeus, foi ao Oriente Médio, à Oceania, menos aos Estados Unidos. Levou dois meses só passeando e conhecendo lugares e pessoas. No início de fevereiro do ano seguinte estavam de volta e recomeçariam a existência. Tivera tempo mais do que suficiente para refletir, dialogar com a esposa e os filhos e decidir como investir. Buscou inteirar-se dos negócios, das bolsas de valores e da situação das empresas.
Tomou conhecimento através de suas buscas, que famosa rede de organização bancária estava em sérias dificuldades pecuniárias. A rede tinha agências espalhadas por todo o território nacio- nal e algumas filiais no exterior. Tomou banho, vestiu-se impecavelmente e se despediu dos familiares.
- Aonde você está indo, Demetrius? – Perguntou Fábia, sua esposa.
- A São Paulo. Daqui a uns dias estarei de volta. Leia isto aqui e você entenderá o motivo de minha jornada. – Afiançou Demerius.
De fato. Passou apenas seis dias fora e voltou como Presidente do Conselho de Administração da referida rede bancária. Seu tiro dera sorte, pois, com a sequência dos messes, a organização começou a dar lucros impressionantes, a ponto de, no mesmo ano, Demetrius investir na aquisição de importante rede de hotéis, com matriz no Rio de Janeiro e filiais espalhadas pelas mais badaladas cidades do mundo, incluindo New York, Londres, Paris, Madrid, Lisboa, etc.
Os bons tempos estavam a fazer parte dos Antunes. Os gêmeos cresceram, ambos se dedicaram a estudar e se formaram em Administração de Empresas, isto porque Demetrius necessitava de
maneira urgentíssima dos serviços e abnegação dos mesmos. Esqueceram-se daquelas relações íntimas que haviam em si em relação a Ricardo Leitwig. Na cabeça deles, aquilo fora coisa de adolescência, em que, muitas vezes, de tudo se quer conhecer e decidir-se por qual caminho da vida trilhar. Ambos se formaram aos 20 anos e, aos 22, conheceram um par de gêmeas em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde se casaram e estabeleceram residência, devido aos interesses
das empresas da família. Tiveram muitos filhos, dois casais, cada casal. O futuro e a descendência estavam garantidos para darem prosseguimento aos negócios que passavam, de geração a geração.
Demetrius abriu uma nova fundação para controlar os
empreendimentos: Fundação Antunes Pais & Filhos. Um conglomerado de vinte empresas já estavam agregadas ao novo patrimônio.
Demetrius Antunes viria a falecer aos 89 anos e, Fábia, sua mulher, aos 85. Os gêmeos conseguiram ultrapassar a barreira dos 100 anos.
Hum... Mas é importante frisar que, coincidência ou não, com a venda da Fundação Mercantil Dagoberto Antunes algo não mais aconteceu: repentinamente, cessou, de vez, a terrível herança biológica que se alastrou dentre os jovens Antunes. Da descendência de Miguel e Cláudio não se teve mais notícia de fatos concernentes à referida problemática.
FIM

C O M E N T Á R I O
Um dia começou-se do nada. Aos poucos e, progressivamente, o nada se transformou em tudo.
Às vezes se fica a pensar como determinadas pessoas, as quais, nada aparentam ter, de repente se mostram possuidoras de talentos que as fazem buscar a vitória e a conquistarem todos os ideias. Nada é questão de sorte... sorte tem quem luta, quem desbrava os caminhos e trilha as veredas do sucesso que são imantadas pelo amor ao próximo, pelo respeito, pelo desprendimento e pelo senso de justiça. Quem nada consegue, não é porque tenha sido invadido pela azar...
Azar simplesmente não existe... O que há é a falta de interesse pela vida, o que há é o “olho gordo”, que se compraz em desejar o que é alheio e não vai em busca da realização de objetivos próprios, conquistados mediante a faina limpa, justa e cristalina.
Hum... há também determinados aspectos no ser humano que carecem de uma explanação mais evidente... Como se explicar a hereditariedade? Os genes de Beto Antunes foram passados a todas as gerações de sua família e todos os jovens, exceto Otávio, provaram do sexo com o mes-
mo sexo, todavia mais tarde retrocederam e levaram vidas bipartidas até determinados pontos de suas existências, quando, repentinamente, romperam e seguiram pelas vias do que é considerado normal... Mas o que é normal? O que é anormal? Pode o amor existir em relações que não sejam as tradicionais? Ou o que ocorre é enfermidade biológica que, em alguns casos como na história, consertam-se com o passar do tempo?
Que fiquem estas reflexões, amadurecidas pela observação do que é a vida, mas que ainda estão imaturas, precoces e carentes de uma análise mais profunda e consistente e que dê ao ser humano a possibilidade do conhecimento total de si mesmo e do cotidiano que o rodeia.
Obrigado!
Ivan de Oliveira Melo
 
GERAÇÕES - PARTE III - CAP. III ( FINAL )

Expiação

 
Caiu a máscara que encobria tua face,
Dissipou-se a essência do teu disfarce
E teu pranto afogou-te na hipocrisia.

Despencaste do alto da plataforma,
Teu perfil incinerado ficou sem forma
E mergulhaste no mares da utopia...

Diante dos anos aparentaste fortuna,
Jogaste charme e construíste tua casta,
Mas o destino tirou o véu de tua farsa
E agora navegas perdida sobre as dunas.

Expiação é o reformatório das ilusões,
Cárcere que metamorfoseia o engodo,
Pena salutar dada pelo próprio povo
No equilíbrio do psique e das emoções!
 
Expiação

Longa Metragem

 
ESTE POEMA FOI ESCRITO POR POR TRÊS POETAS SIMULTANEAMENTE: IVAN MELO, DALVA DE OLIVEIRA E GREED TAYLOR

Ventos vindos do Sul
Acariciam um cinzel de inspirações
Entrecortados por três sensíveis corações
Que apreciam a magnificência de um céu azul.

Na avenida das temáticas o amor é escolhido
Como divagação alfa de um ponto extremo,
Põe-se de lado a tangente ômega de inúmeros cossenos
Para que o amor seja veiculado em diversos sentidos.

Ouve-se sublime sinfonia de pássaros viajantes
E o patamar erótico navega em ondas eruditas,
Despem-se sensações em emoções infinitas
E o amor mergulha no bucolismo sensorial dos amantes.

Águas azuis anunciam um manso oceano
De palavras cuja semântica é pintada de aquarela,
Versos e estrofes surgem das mãos da cinderela
Soterrando miasmas, diluindo mazelas, trancafiando desenganos...

A versatilidade perambula por nitratos de oxigênio
E traz variados conteúdos de todas as estações,
Do social ao cosmos caminha por distintas direções
E consuma o tear poético com átomos de nitrogênio...

Três espíritos que se confraternizam em tom de louvor
Para fazer da poesia dom de engenho e arte,
Talentos que exercitam uma poética sem disparate
E trazem no invólucro da palavra a essência do amor!
 
Longa Metragem

VOTO: CONSCIÊNCIA

 
Eu não minto... também não falo a verdade,
Assim me liberto de todos os compromissos...
Tamanha covardia é o homem manter-se omisso
Quando o mundo arde labaredas de adversidades!

Cretino é aquele que pulula em cima do muro
E traça oportunidades do que possa ser a vida,
Fazem do canhestro espírito pedante arte destemida
E não se envergonham de ver o mundo caótico e de luto!

Os templos vivem cheios de malabarismos e hipocrisia,
Politiqueiros abrem a boca para dizer o que não deviam
Em fundos falsos em que as palavras engordam, doentes...

O voto é a consciência que grita atributos da razão,
Arma poderosa que bem atirada transforma uma nação
E faz do povo lavrador que fomenta com orgulho esta semente!
 
VOTO: CONSCIÊNCIA

Último Sonho

 
Intenso abismo me põe entre dois mundos:
O de uma realidade onde tudo se vê imundo
E o da fantasia em que o sonho é divina magia...

Revolta-me um cotidiano hipócrita e doentio,
Mas edifico sonhos em que mentira vira estio
E numa realidade apócrifa faço da vida alegoria...

O sol não é o mesmo, então bronzeio a inspiração
Sob a lua que brilha sobre o teclado das palavras,
Cultivo em cada letra o ensaio que meu eu lavra
Para dar feitiço de verdade às estradas do coração.

Não mensuro o tempo, em meu mundo mando eu,
Chorar e sorrir são antíteses presentes aqui e acolá...
Caminhar... cair... levantar, posto que isso é sonhar
Com a realidade que virou utopia, mas não se perdeu!
 
Último Sonho

Por debaixo dos panos...

 
Há em minha alma um sonho insepulto
Sequioso de amar pelas entrelinhas da poesia
Já que o mundo arde labaredas, ama de covardia
E faz da criatura fantoche de pseudo culto.

Meu senso de amor é ingênuo folgar de carícias
Que traz da sofreguidão o êxtase que enternece,
Mas a vida toma do infortúnio o estresse
Numa leva de hipocrisias adornadas de malícias.

Meu amor eclode em palavras vitaminando estrofes
Que saciam venturas sublimes, driblam entorses
E permitem que os poemas alimentem o vazio...

É a arte produzindo o amor do mundo crônico
Que ainda não pereceu, dorme, bebeu distônico
Para não mais assistir às barbáries sem estio!
 
Por debaixo dos panos...

Flor do Roçado

 
Intensa chuva intimida a desfrute do arrebol,
Frio cortante vara impiedoso a madrugada,
Os naipes da natureza edificam sutis emboscadas
E o silêncio é o perfume único pescado pelo anzol.

Debaixo das cobertas meu corpo nu sente arrepios
E sobre tua nudez deposita ósculos e carinho...
Como é bom sentir em mim o hálito de teu corpo nuzinho
E, agarradinhos, possamos extravasar juntos nosso cio...

O contato é a alfazema que inunda meu olfato,
Nosso pelos se misturam inebriados e insensatos
A curtirem o córtex que enlameia o tom do orgasmo...

Sentimos, ambos, o doce coagular de frenética orgia,
No abraço melado a sensação de que nada é fantasia,
É o amor que se desprende audacioso da flor do roçado!
 
Flor do Roçado

Você se foi... Tu chegaste!

 
Esperei tanto por ti,
Tantas vezes disse: “te amo”,
Chorei tua ausência, desfiz planos
E ainda hoje zombas de mim...

Meus olhos atônitos ficavam quando te viam
E meu coração disparava alucinado,
Um arrepio era o sinal desesperado
Dos desejos sequiosos de ter-te que me consumiam...

Naveguei pelos braços de uma esperança sem retorno
E me senti só a enxugar-me as lágrimas da madrugada,
Outra vez o sol brilhava anunciando uma alvorada
Que me trazia o desdém de ver-me abandonado de novo...

Durante meses aguardei eclodir tua paixão,
Pois de tua boca escutei que me amavas,
O tempo voou e pela brisa insólita que me enganavas
Destruíste o flúor que fecundava de amor meu coração.

Quantas vezes ansiei por teu abraço...
Quantas vezes sonhei dormir em teu peito...
Agora choro a amargura do devaneio desfeito
E no único beijo não te beijei, beijei o espaço...

A vida é linear e tudo segue em frente,
O mundo gira ao redor de nós e vêm outras etapas,
Na face do passado arquivam-se as velhas capas
Para que no futuro tudo possa vivificar diferente...

Donde menos esperava um novo amor surgiu,
Entregou à paciência o momento certo de vir à tona,
Perspicaz foi se aproximando demarcando zona
E no instante oportuno deu o bote e me seduziu...

Disse o clichê: a pressa é inimiga da perfeição,
Aventurar-se no escuro é perder de vista o objetivo,
Na agonia em que estavas poderia ser vão meu tiro,
Então decidi chegares ao desfecho de tua aflição.

Quando me viu acabrunhado a sofrer pelos cantos,
Teve a certeza de que a solidão me maltratava,
Assim chegou de mansinho, confessou que me amava
E me presenteou com o beijo que ofuscou meus desenganos...

Levou-se à velha casa onde vivera com seus avós
E se pôs a acariciar-me o corpo com ternura,
Desnudou-se e me vi perante uma nudez tão pura
Que de agora em diante sei que jamais estarei só...

Não posso ainda dizer que amo esta criatura profundamente,
Contudo estou consciente de que a felicidade bateu à minha porta,
Entrego-me ao recente sentimento e nada mais importa
A não ser usufruir de uma existência que não me é indiferente...

Sobre uma cama macia permito-me consumar o ardor
Que busquei sem resposta na pessoa errada,
Viajo no êxtase das carícias e não penso mais nada,
Já que desnudos e sem fantasias, saboreamos do amor!
 
Você se foi... Tu chegaste!

Lauda Poética

 
Posso despir as palavras e rasgar suas vestes,
Deixar que o conteúdo semântico cause taquicardia,
Fantasia é universo deveras indispensável à poesia...
Sem ela, quem escreve não é poeta, é herege!

Versejar é criatividade, a imaginação alimenta o texto,
Na tessitura do vocábulo amplia-se o tear linguístico,
A sensibilidade atua como matriz do senso estilístico
Que roga ao campo ideológico ineditismo sem incesto!

Intimidade com a linguagem é recurso que o artista
Deve dar prioridade sem que se torne preciosista,
Pois, os vícios do idioma podem triturar sua obra...

Elegância e concisão... atributos do escrever bem,
Ilusionismos são fragrâncias que a arte não contém
E o contexto necessita do primor que a beleza implora!
 
Lauda Poética

GERAÇÕES - PARTE III - CAP. II

 
GERAÇÕES
PARTE III
CAPÍTULO II
Demetrius Antunes pediu com urgência ao setor de contabilidade a posição de todas as empresas ligadas ao sistema da Fundação Mercantil Dagoberto Antunes. Era necessário percorrer com os olhos todas as contas, detalhe por detalhe. Os referidos pedidos chegaram à sua mesa de trabalho. Demetrius coçava o queixo... não era crível o que estava a contemplar. Nunca, durante todos esses anos de funcionamento, as contas apresentaram sinais vermelhos... Pelo menos metade dos afiliados se encontravam neste nível. Marcou, então, uma reunião urgente com os dirigentes que respondiam pelas respectivas empresas, pois, era mais do que urgente combater o mal pela raiz. O encontro foi acirrado e culminou com o afastamento imediato de alguns diretores, suspeitos que estavam de envolvimentos em fraudes e em negócios ilícitos em nome da Fundação. Era deveras preocupante a situação. Marcou uma reunião especial com o departamento jurídico, tinha em mente a reformulação dos Estatutos e desejava estudar com os advogados todos os pontos e ver onde poderia mexer e quais as linhas imexíveis. Ou fazia algumas mudanças, ou poderia levar ao colapso total um empreendimento histórico e que era orgulho da família e do povo.
Foi exatamente durante este espaço de tempo que, mais uma vez, os americanos voltaram a insistir pela compra do controle acionário do Grupo. Não havia com quem dialogar, seus assessores pareciam incompetentes, porque não eram capazes de opinar corretamente, sempre falavam que falavam e nada diziam que se aproveitasse. Justiça seja feita, a bem da verdade o próprio Demetrius não carregava em seu bojo de competência o sangue dos seus antepassados em relação a atos administrativos. Era esforçado, porém carente de uma inteligência que a muitos enganou... Demonstrou possuir em sua adolescência um perfil capaz de administrar com o tino dos antecessores que brilharam na cadeira da Presidência...Ledo engano, fogo de palha...Agora corria contra o tempo, os traços vermelhos que encontrou nas contas tinham de desaparecer e lucros saudáveis voltarem a ser a religião da Fundação.
Recebeu os americanos em seus escritórios. Para não ser um anfitrião solitário, convocou o chefe do jurídico para recepcionar os gringos junto consigo.
- Senhores, estamos abertos a negociações. No momento, passamos por um amplo estudo de reforma dos Estatutos e verei em que pontos dos mesmos poderemos mexer. Afianço-lhes, antecipadamente, que passar o controle acionário da Fundação ainda é coisa precoce, contudo pode-
mos conversar e abrir espaço para uma injeção de recursos...
- Estamos dispostos a investir 8 bilhões de dólares pela compra definitiva do conglomerado. Não vamos injetar recursos parciais, isto está fora de cogitações. – Explicou Gregory Tommy, o chefe da delegação que ali se encontrava.
- Com certeza é baita proposta... Todavia, peço mais alguns dias, até que tenhamos uma posição consolidada do quadro em que nos encontramos.- Pediu Demetrius.
- Trinta dias e nem uma hora a mais. – Concluiu Gregory.
Os americanos se retiraram. Demetrius e o chefe do departamento jurídico prosseguiram reunidos, haveriam de encontrar, dentro dos próprios Estatutos, uma mágica que os livrasse de negociar com os americanos da maneira como eles propunham.
Alguns dias depois, a Polícia Federal conseguiu desarticular uma quadrilha especializada em lavagem de dinheiro. Entre os envolvidos se encontravam 10 ex-diretores de empresas conglemeradas à Fundação e ficou provado um grande escândalo: tais diretores receberam altíssimas propinas para fraudarem as empresas as quais dirigiam... Um negócio sujo e ilícito. Não se pôde colher maiores detalhes: os referidos envolvidos foram misteriosa e sumariamente eliminados em pleno cárcere. A coisa parecia mais grave do que aparentava ser.
Enquanto isso, totalmente alheios aos problemas em que estava envolvido o grande orgulho da família Antunes, Cláudio e Miguel se fartavam na troca de carícias com Ricardo Leitwig. Formou-se, entre eles, um triângulo amoroso. Ambos os gêmeos estavam caídos de amores pelo garoto e, Leitwig, como não sabia diferenciar quem era quem, ora estava com Miguel, ora estava com Cláudio. Assim viveram muitos dos seus dias e, quanto mais o tempo avançava, mais apaixonados ficavam.
Demetrius conseguiu mexer em alguns pontos dos Estatutos e fez bruscas mudanças onde foi possível. Por exemplo, estavam abertas as possibilidades para qualquer funcionário ou pessoa indicada pelos Antunes para a ocupação da Presidência do sistema. Conseguiu, igualmente, mudar uma norma, que proibia injeção de capital estranho aos interesses da Fundação. Com a mudança, tanto capital nacional como estrangeiro eram bem-vindos desde que comprovadamente
necessários à saúde financeira e sobrevivência dos negócios.
Estava satisfeito. Os trinta dias estipulados por Gregory Tommy se esgotaram e, mais uma vez, Demetrius recebe a delegação em seus escritórios. Explicou aos gringos as mudanças realizadas e abriu imenso espaço para que os interessados na aquisição do controle acionário da Fundação pudessem investir livremente.
- Temos em nome do nosso Governo a última de todas as propostas que podemos fazer. Não nos interessa investimentos parciais, queremos o bruto do negócio – disse Gregory – pela última vez fazemos uma proposta: dez bilhões de dólares em espécie nas contas particulares daqueles que detêm o controle acionário. Mais nada faremos. Se nos der uma resposta negativa, tenha certeza, mais nunca receberá aqui em seus escritórios qualquer delegação americana interessada no mesmo assunto.
- E vocês farão este depósito de imediato? – Quis saber Demetrius.
- Sim. Sou o responsável pela transação. Sou secretário do Tesouro do meu país e, no mesmo instante em que assinar a venda do controle acionário, farei a transferência do numerário para sua conta particular.
Demetrius pediu uma hora para decidir. Teria uma conversa privada com seu chefe do departamento jurídico e no tempo previsto daria uma resposta definitiva.
- Veja, Dr. Agnaldo, sabemos que a saúde da Fundação está em derrocada. Mesmo com as mudanças que providenciamos, os efeitos são a longo prazo. Eu estou em cima do muro. - Falou Demetrius.
- Eu não pensaria duas vezes, Demetrius Antunes. Não importa quais sejam os verdadeiros interesses destes gringos, importa ser consciente e saber que, caso jogue fora, mais uma vez, a oportunidade, muito brevemente poderá estar amargando uma falência total... aí, nem Fundação, nem dez bilhões de dólares... – Emitiu Dr. Agnaldo seu parecer.
Mesmo diante de tantas evidências, Demetrius Antunes não tinha em seu íntimo uma decisão formalizada. Sabia que, com dez bilhões de dólares, poderia iniciar tudo outra vez e edificar um novo império, contudo vinha à sua lembranças a luta dos antepassados em preservar algo que fora construído com tanto sacrifício e amor. Estava desesperado... Mordia os lábios, roía as unhas... Pensou também: Dr. Agnaldo tinha plena razão: ou vendia e pegava na “grana preta” ou num espaço de tempo estaria sem nada... sem o dinheiro, sem a Fundação...
Pediu que os gringos retornassem. Havia, finalmente, chegado a um consenso consigo mesmo e que Deus abençoasse sua decisão, pois, dependia apenas de si decidir e assinar...
- Amanhã, às dez horas da manhã, no cartório de ofícios responsável, estaremos concluindo esta negociação., - Disse Demetrius.
- Meus parabéns, sr. Demetrius, sua decisão é inteligente... – Aplaudiu e o abraçou, Gregory.
AMANHÃ - CAPÍTULO III DESTA PARTE III - CAPÍTULO FINAL
 
GERAÇÕES - PARTE III - CAP. II

Espionagem

 
O poeta é um mensageiro do além,
Retratista das coisas do mundo,
Usa a palavra em seu teor fecundo
Numa fotografia sofisticada do que a vida tem.

Em seu faro artístico o poeta fantasia
As verdades aveludadas no cromo do tempo,
Encaixar-se na interpretação é ficar atento
Aos moldes estilísticos que configuram suas alegorias.

Não há escolho nas veredas da poesia,
A liberdade tinge as palavras de utopia,
Mas o poeta sabe que tudo é camuflagem...

Na linguagem poética o veredito está nas entrelinhas,
Com maestria pintam-se sentimentos e fatos em ladainhas
E o poeta é o artesão máximo dessa espionagem!

MEUS BLOGS:

http://imelo10.blog.comunidades.net
http://ioliveiramelo.blogspot.com
 
Espionagem

Batei, Coração!

 
Batei coração,
Não sejais o vilão que atormenta,
Sede a aurora energética que alimenta
No brilho da luz, uma paixão voraz...

Batei coração,
Não sejais o crepúsculo que acaricia a dor,
Sede o arrebol em que se manifesta o amor
E, no eclipsar das emoções, vida que se faz...

Batei coração, batei forte
E nos ventos vindos de sul e norte
Sede a brisa que fecunda a primavera...

Batei coração, não batais descompassado,
Sede a viço de dois extremos apaixonados
E, na volúpia das afeições, manancial que não dilacera!
 
Batei, Coração!

Entre e Cruz e a Espada

 
NOVELA - ROMANCE
Publicarei a partir de hoje e em capítulos diários, meu romance ENTRE A CRUZ E A ESPADA. Espero que gostem!
I
Nasceu de Novo...
Fazia duas horas e meia que o avião decolara. O piloto havia perdido contato com a torre de controle. A aeronave perdia altura cada vez mais e foi caindo... caindo... afinal engolido pelas águas do largo oceano. Duzentos e trinta e seis passageiros. Aparentemente sem sobreviven-
tes. A notícia tomara conta da mídia. Parentes, conhecidos e amigos dos passageiros buscavam, aflitos, informações sobre a possibilidade de sobreviventes, mas... nada! A tragédia fora dada como perda total, ninguém houvera conseguido escapar. Difícil fora a remoção dos corpos,
muitos haviam desaparecidos, embora os destroços, quase intactos, pois não houve explosão, mostrassem ter sido quase impossível que alguém haja logrado sair ileso da catástrofe. Constatou-se, posteriormente, que a pressão do mar abrira uma das portas, por onde, talvez, alguns corpos hajam sido sugados pela correnteza. O fato foi que a empresa aérea divulgou uma lista com os nomes dos 236 passageiros, todos considerados mortos.
Alguns dias se passaram após o acidente. O mar permanecera agitado e uma leve chuva trazia do horizonte um friozinho que causava leves arrepios. Mesmo com o tempo incerto, Fernando Cintra saíra para seu costumeiro “cooper” da manhã. Eram 5 e meia, o dia ainda nascia, o sol
permanecia meio escondido. Fernando Cintra agora caminhava pela areia, tudo estava deserto. Já perto de casa, divisou um corpo jogado sobre as pedras. Percebeu tratar-se de um jovem que, se muito tivesse, haveria 15 anos. Chegou perto. À primeira vista parecia morto, porém Fernando observou uma tênue respiração. Estava vivo! Colocou-o nos braços e o levou para sua casa, era evidente que necessitava urgentemente de um socorro. As roupas do jovem estavam ensopadas e, nos pés, apenas um sapato. Deitou-o no sofá, tirou-lhe aquelas vestes
molhadas, trouxe uma toalha e o enxugou. Era preciso banhá-lo com água quente, a pele parecia engelhada pelo frio cortante. Foi à cozinha e colocou água numa chaleira para esquentar, depois dirigiu-se ao banheiro, onde juntou água numa bacia. Preparou sabonete, xampu
e os demais acessórios. Ao notar que o banho estava pronto, voltou à sala terminou de despir o jovem e o carregou até o local em que pusera a bacia. Lavou-o com carinho em todas as partes daquele corpo magro, contudo bonito e bem dividido. Concluído o banho, enxugou-o
com uma toalha e o depositou em sua própria cama. Penteou os cabelos e o deixou desnudo, porque suas roupas estavam molhadas e Fernando não havia em casa roupas adequadas para ele. O jovem parecia estar melhor da respiração e Fernando percebeu que mexia com os dedos
das mãos. Aos poucos foi despertando daquele torpor e, finalmente, abriu os olhos. Tentou reconhecer onde estava, que ambiente era aquele. Tudo era-lhe desconhecido, inclusive a voz que lhe deu boas-vindas ao lar.
- Não sei quem é você, nem o que ocorreu, só sei que o encontrei desfalecido sobre as pedras e o trouxe para minha casa. Meu nome é Fernando Cintra...Prazer em conhecê-lo! Qual é mesmo seu nome?
O garoto o olhou desconfiado e em seus olhos percebia-se um nuvem de lágrimas.
- Diga-me seu nome – insistiu Fernando – e o que aconteceu com você...
- Tenho fome! – Foi o que conseguiu balbuciar.
Imediatamente Fernando foi à cozinha e lhe preparou um alimento pastoso de aveia, pois, julgou que, com a fraqueza em que se encontrava, ele não conseguiria mastigar sólidos. Arrumou-o na cama, subiu o travesseiro a fim de que houvesse uma posição confortável para o desconhecido se alimentar. Fernando sabia-o faminto, porém não viu qualquer movimento em direção à comida, então sentou ao seu lado, à beira da cama e com uma colher alimentou-o, delicadamente. Com certeza o menino estava com fome visto que nada sobrou do que Fernando trouxera.
Mais uma vez falou, mas de modo quase ininteligível.
- Tenho sede!
Fernando lhe trouxe água gelada num copo e já pensando que ele não teria acesso por si só ao conteúdo, trouxe também canudos. O rapaz sugou a água num segundo e, depois, repentinamente, adormeceu de forma profunda. Ainda bem que Fernando Cintra se encontrava em gozo de férias por conta própria. Era autônomo, trabalhava com vendas de peças para carros, motos, caminhões, tratores, bicicletas... Era viúvo, perdera a esposa fazia 4 anos e não tinha filhos. Morava só, contava 30 anos. Precisou sair para comprar alguns mantimentos e o fez apressadamente. Em sua mente havia algumas interrogações: quem seria aquele menino? O que positivamente houvera ocorrido a ele? Deveria entregá-lo às autoridades competentes? Tomou a seguinte resolução: até que o menino pudesse falar e esclarecer tudo o que desejava saber, mantê-lo-ia em sua casa e no mais absoluto silêncio, não havia motivos para comentar o fato com quem quer que fosse. Dedicou-se inteiramente à recuperação daquele jovem a ponto de, no quinto dia, sentir-se
afeiçoado a ele como se o mesmo fosse seu filho. Enquanto não voltava à realidade, o menino era tratado com dedicação e bastante carinho. Fernando fazia a higiene quando de suas necessidades fisiológicas, dava-lhe banho, alimentava-o. Somente no quinto dia Fernando perce-
beu-o bem melhor, o olhar mais vivo e um maior interesse em saber onde estava.
- Onde eu estou? Quem é você? – Indagou a Fernando.
- Eu sou Fernando Cintra. E você, quem é? Qual é seu nome?
- Meu nome é Alan. Alan Pinheiro. Onde estão meus pais e minha irmã? – Perguntou.
- Eu não sei – respondeu Fernando – preciso saber de você o que aconteceu. Tem alguma lembranca do que possa ter ocorrido?
- Vaga lembrança... avião... água... gritos...
Foi quando Fernando Cintra entendeu o que mais ou menos acontecera. Estava diante de um sobrevivente do acidente aéreo ocorrido há poucos dias.
- Não se esforce muito agora, Alan. Descanse, posteriormente eu o ajudo a concatenar suas ideias. Diga-me apenas: que idade tem?
- 14 anos e... por que estou nu?
- Porque suas roupas não prestaram mais, no entanto vou comprar tudo novo para você...
- Eu tenho vergonha...
- Não necessita ter vergonha, aqui só há eu e você.
O menino nada mais disse. Voltou a adormecer. Fernando ficou a prestar atenção ao seu sono, agora mais leve e mais profundo. A verdade é que Alan melhorava e, logo, estaria de pé. Para não contrariá-lo, no dia seguinte saiu e comprou algumas roupas leves, como calções de algo-
dão e camisetas, somente por enquanto. Desta vez, Alan dormiu durante longas horas. Quando se acordou no dia seguinte, verificou-se vestido e estava mais disposto. A cama em que Fernando dormia era cama de casal, a única existente ali. Olhou e percebeu que Fernando ressonava ao seu lado, mas logo despertou.
- Bom dia, Fernando! – a voz estava bem mais legível – Posso tentar levantar-me?
- Calma – disse Fernando – deixe-me ajudá-lo.
Alan conseguiu ficar de pé, porém foi acometido por uma tontura, talvez pelo fato de tanto tempo deitado. Fernando o segurou, evitando que ele levasse uma queda.
- Devagar você vai tentando e eu o ajudando, logo estará bem – confortava Fernando.
- Tenho muito de agradecer a você por tudo o que está a fazer por mim.
- Nada faço esperando agradecimentos ou recompensas. Faço por ser cristão e o ensinamento bíblico é bem claro: “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.”
- Sim, é verdade. Você é um santo...
- Não diga isso, Alan. Sou uma pessoa igual a você, apenas mais velho um pouco.
- Estou com calor – disse Alan.
Fernando o despiu e o levou para o banheiro onde lhe deu um banho. Trouxe-o de volta à cama e o vestiu com roupas limpas.
- Está com fome? – Fernando perguntou.
- Sim.
Fernando providenciou seu desjejum. Agora ele já comia coisas sólidas. Aos poucos se restabelecia.
- Quero conversar. Você me escuta?
- Claro – respondeu Fernando – fale-me sobre o que quiser.
- Tenho agora lembrança de tudo o que me aconteceu. Posso dar-lhe em detalhes, se assim tiver interesse em conhecer minha história.
- Conte-me tudo – pediu Fernando – há muito desejo saber o que se passou com você.
- Éramos quatro: eu, minha mãe Olívia, meu pai Arthur e minha irmã Sulene. Vivíamos numa cidade do interior do Pará. Meu pai estava endividado, devia até os cabelos da cabeça. Como ele não tinha como pagar, tiraram-nos tudo o que puderam: casa, móveis, pertences pessoais... tudo! Meu pai havia guardado uma pequena quantia e, com esse dinheiro, comprou nossas passagens de avião, estávamos indo para São Paulo, onde pretendíamos recomeçar nossa vida. Fomos obrigados a sair de nossa cidade, pois, como já não possuíamos bens para resgatar as dívidas, estávamos ameaçados de morte. Foi aí que tudo ocorreu. Pegamos o avião, mas houve o desastre e eu acho que fui o único sobrevivente dessa tragédia.
- A empresa aérea informou que todos morreram, que não houve sobreviventes. Você se lembra de como conseguiu escapar?
- Tenho uma ligeira lembrança de que, quando o avião chocou-se com a água, uma das portas se abriu e consegui passar. Cheguei à tona e nadei o que pude, acho que a correnteza marinha levou-me e me deixou onde você me encontrou. É o que posso lembrar-me...
- Quando estiver recuperado, o que pretende fazer? – Quis saber Fernando.
- Eu não sei! Não tenho aonde ir. Também não desejo que saibam que sobrevivi, certamente os credores de meu pai procurarão por mim e tentarão matar-me...-Alan chorava.
- Ninguém vai saber que você sobreviveu. Ninguém sabe que você está aqui. – Falou Fernando.
- Com certeza você tem seus afazeres e sua família para dar atenção, não vai querer preocupar-se mais comigo. – Alan se lamentou.
- Que eu tenho meus afazeres, não há dúvidas, porém familiares, não. Vivo só. Sou viúvo há quase 5 anos e não tenho filhos. Você gostaria de recomeçar sua vida morando comigo definitivamente?
- Você faria isto? Por quê? No fundo, sou um desconhecido..
- De tanto cuidar de você nesses dias, de tanto dar-lhe banho, dar comida em sua boca e até fazer sua higiene pessoal, eu me afeiçoei a você. Estou disposto a aceitá-lo aqui ao meu lado para sempre, ou até quando desejar...
Alan era um garoto bastante emotivo, então se emocionou profundamente com o que estava a ouvir de Fernando Cintra.
- Eu quero ficar com você!
Disse isto e buscou o abraço de gratidão. Deixou-se cair sobre o ombro de Fernando e chorou, e chorou, e chorou...
- Tenho uma ideia. – Disse Fernando.
- Qual?
- Diante de tudo o que você me relatou e estando você oficialmente morto diante da lei, poderei dar a você um novo nome e sobrenome. Já que é uma vida nova, então que se faça tudo novo.
- E como você conseguiria isto?
- Tenho amigos importantes como donos de cartórios, advogados, donos de escolas... Todos há muito meus clientes. Sou autônomo, trabalho com vendas e representações de peças de carros, automotores e bicicletas. Eu falo com um tabelião amigo meu e ele registra você como se fosse filho meu e de minha esposa que faleceu... de posse da nova certidão de nascimento, eu falarei com uma dona de escola e ela me facilitaria já com seu novo nome, uma ficha 18, isto é, como se você houvesse concluído o fundamental e o restante, daqui em diante, seria por sua conta, porque eu o matricularei numa escola. Tiraremos sua identidade, seu CPF, tudo
regularizado para você ter uma existência normal.
- Na realidade eu tenho o fundamental completo... iria matricular-me em São Paulo no 1º. médio.
- Você quer que eu faça tudo isto para você? – Fernando inquiriu.
- Sim, eu quero. Serei oficialmente seu filho e isto me agrada.
- Isto me agrada também a mim.
- Como é seu nome completo?
- Fernando Cintra Oliveira de Souza.
-Posso escolher meu próprio batismo?
- Claro! Que nome pretende dar a você?
- Matheus. Passo a chamar-me Matheus Cintra Oliveira de Souza. Fica bem este nome?
- Perfeito!
Tudo ficou combinado entre ambos. Aguardavam, agora, que Alan se recuperasse totalmente para pôr em prática o que houveram combinado. Não foi difícil, em duas semanas Matheus já estava de posse de sua certidão de nascimento, da ficha 18 da escola e tinha identidade e CPF.
Uma nova vida estava a começar para ele e para Fernando Cintra e os ventos iriam soprar sobre eles, ora forte, ora leve e as folhas das árvores iriam sorrir perante aquela suntuosa harmonia que surgia, uma relação de amizade que prometia singrar as mais altas montanhas e trazia do infinito, as bênçãos dos céus.
FIM DO I CAPÍTULO
 
Entre e Cruz e a Espada

Páscoa

 
O que devo me conversar?
Desejar a mim mesmo Feliz Páscoa?
Retirar da mente todas as anáguas
E simplesmente recomeçar?

Eis o propósito da Quaresma:
Abrem-se os porões e se desinfeta
Os lírios indicando em setas
Que o íntimo é novo e está em festa!

Renovam-se planos alimentando o perdão,
É uma nova estrada que liga o coração
A um sorriso puro isento de dor...

Transformação que se opera com raios de luz
Da inspiração única dos homens: Jesus
Que entregou à vida ensinamentos de amor!
 
Páscoa

INCENSO

 
Agora cai a água das nuvens,
O solo árido é o cálice que a recebe,
A terra seca então se depura
E sementes alimentam a verve.

Bebe-se da umidade um aroma em flor
E em taça de cristal o mel da redenção
Que mitiga a sede e a sacia a fome
Dum mundo que sofre estiagem no coração.

No chão fulvo surgem os primeiros brotos
E no augúrio das mentes varre-se o lodo
Da infertilidade que sentenciou os campos...

Tempos novos... Há nas árvores o incenso
Que faxina consciências, traz bom-senso
Para que nas noites haja a luz dos pirilampos!

De Ivan de Oliveira Melo
 
INCENSO