Poemas, frases e mensagens de atizviegas68

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de atizviegas68

poema de consagração

 
dentro de mim, tu és o poema
que nasce na brevidade
do verso
e anuncias a glorificação
numa oração de grafite
em lume.

no meu corpo, gizas o ritmo
com labaredas cerzidas
à rima das palavras
incitadas pela licitação
da libido.

nos meus lábios, a cada pausa
recitas coplas
com cada palavra do meu corpo,
sem abuso de prosa,
upamos em sinestesia
como cavalos à solta
num poema de consagração.
 
poema de consagração

a planície

 
a planície abre-se em manso estar
no deambular das horas das papoilas
na vagarosa brandura do trigo o restolhar

em grande plano o sol a pique
tinge de amarelo os dias inocentes
e a paisagem pintada no recato do olhar
ergue-se em raízes no meio do vento

abre-se na planície recortada pela noite
o desabrochar da flor em mel
e sob as folhas da azinheira
acordam as cigarras do sono fiel

em contemplo da terra perfumada
de segredos e mistérios enluarados
embala-se a cal que escuta a parede
onde amor brasio desp`amados

nas rodas dos vestidos nascem
seduções no fôlego de um cantar
monotonamente inebriado de saber
ecoa entre louros favos um brilhar

vagarosas as horas aram a paisagem
adubando com candura da existência
de silêncio prenhe a terra d'ourada
semeia na alma o solo da essência

a planície em floração de alfazema
desprende roxas pétalas de saudade
para no pôr de sol alaranjado oferecer
a ternura do amanhecer à bela amada

com a profundeza da planície na palavra
a paisagem n`olhar em companhia risonha
avança em sonho nas asas d`uma cegonha
 
a planície

em silêncio

 
O silêncio liberta-nos de quase tudo
menos de nós.
Por dentro permanecem ecos
de amor.
Falo-te de amor para ressoar por dentro de ti.

Amor é uma palavra. O desejo um corpo.
Leva-a o vento. Ao corpo, o tempo o levará.

Vem
troquemos as vestes pela nudez.
Quero despertar-te por dentro.
Quero ouvir-te amar, de olhos fechados.
Sentir as arestas das tuas veias
pulsantes.
Serpentear sobre o teu ventre.
Entrar no ardor dos teus rasgos.

Tu sorris como uma harpa. Lenta.
Quase em pausa.
Assomas aos meus olhos
para veres o eco de ti, em mim.

Falei-te em silêncio para permanecer com o eco do teu amar.
 
em silêncio

não te vejo há dias

 
Não te vejo há dias.
Esperava-te sobre a mesa a jarra com flores.
O chá de jasmim.
O fim de dia no pátio.O canto do melro.

Escrevo-te, enquanto a luz vigia a mão.
Entre o rebuçar das lágrimas no vestido e
o gemido traçado a ópio.
Assomo as tuas fotografias.

Dançávamos sob o esboço da magnólia
com as bocas coladas entre a sua sombra,
no enlace das mãos e sobre o colo espreitante.

Lembraste?
Partilhávamos as cicatrizes dos dias.
As errâncias do percurso.
As trovadas afloradas no peito.
A intimidade da pele.

Se não chegares pela lua
clara, o branco das magnólias
iluminará a prece da mão solitária
entre os sulcos íntimos sob as rendas

e tomarei a tua imagem como incêndio
para recortar o meu desejo nos dias
em que te não vejo.
 
não te vejo há dias

cais da ilha

 
O nevoeiro sorve montes e contornos. Sob o chumbo desfraldado tranças os teus sonhos.

Ilusões de ser pasmado. Sombras. Entre brumas, vem veloz a nostalgia.

Tu partes. Partes em dia cinzento mar. De coração vazio a chorar

a ilha. O lugar da minha tristeza.

Partes incerto e de olhar disperso. Melancólico.

Adensado nas coisas mínimas. No silêncio da chuva.

No pó do sonho. No rugir velado dos dias.

Na mudez dos grilos.

Partes no Inverno.

O Inverno que rumoreja no peito. A estação talhada

na fímbria do mar, onde a indolência

dos céus enfeitiça o coração

submerso em solidão.

Emudeço na rocha fendida.

No cais. Nós de vento compõem ondas

cortadas pela quilha.

No cais a matar saudades é o fim.

Quanto doí amar? É sempre?

Segredo de mãos ausentes nos confins do

mar.

Na ilha.
 
cais da ilha

Gozo

 
As tuas mãos exalam perfume
segregam desejo.
Germina fogo da tua pele.
De braços estendidos ao encontro da noite
trazes a arte do lume.
Fagulhas altas em forma de suspiro
içam os seios intumescidos.
Em corpo alado, lavras a terra molhada
pelos poços secretos onde
florescem rosas e néctar de romã.
No regaço recortado a pétalas
e no ventre tingido a mel
o hálito cose-se
ao bordado do prazer.
Imponente, embainho
a espada na ferida
soltando o grito latejante
sem misericórdia.

Atiz Viegas
 
Gozo

meus gomos de toranja

 
abres-me o corpo com o olhar,
por entre os sulcos
do frondoso pomar
e saboreias os meus gomos de toranja

no intimo pomo agri-doce,
fruto vivo rosáceo, exaltas
a fome inadiável dos teus lábios

carnudos
nacos talhados pelo perfume da pele
sedenta
da polpuda seiva
do corpo

onde a foz dos dedos
encontra o afago ígneo
em torno da flor trémula
 
meus gomos de toranja

Último poema

 
Mingua a medula do tempo.
Inclinando o sonho no recorte do ensejo.
Despe o sangue da
cor e o verbo da voz.
Silêncios embriagam o olhar. Colando a
respiração à jura.
Coração arrefecido de perdão
gizando no rosto arribas.
De olhos cerrados do esplendor.
Pelo último eterno salto.
O mistério ajoelha-se na terra nua
onde jazem flores amarelas.
 
Último poema

beijos

 
são calmos mares
nas vagas da manhã
o rubor das praias
sabe a sede

são canoas de seiva
que se abrem
em águas fundas

são barcas
entreabertas entre cristais
trazem conchas em febre
que saciam

são soluços de vaivém
entre marés
melodia

são vagas em renque
de mel e gula
em espuma

são velas na maresia
que dançam tango
em ondas rubi

são ilhas
pedaços de chegadas
e partidas

lugares que na boca
se aninham

são andorinhas
em acrobacia

são beijos
 
beijos

Puro anil embala a meninice das musas

 
Chegam nas barcas da palma da mão
turquesas e safiras.
À terra que uiva e traja funduras
chegam (en) cantos.
Erguem-se nos braços das noites.
Erguem-se nas luas estivais.

Nas madrugadas. Ventos siderais.
Sonhos nus em ondas de cristais.

Mãos aladas na noite, não esfriam.
Na voz grave de mel, amores lunares.
Entre velas azuladas.
Entre fios celestais.
Harmoniosas odes esmaltam lugares.

Do fundo do traço nascem ebúrneos cantares.
Murmúrios cristalinos.
Cantos venusinos.
Um cantar de ledos sonhos, clarões risonhos.
Puro anil embala a meninice das musas.
 
Puro anil embala a meninice das musas

modo de amar

 
há contornos
do peito
na palma da tua mão
quando me assaltas a cintura,
sobes
em gomos, talhas a noite
procuras
os lábios com sabor
ao teu nome

estremeces
num sismo
que vem da alma
para rasgar o corpo,
ardes
como lava
e desaguas
num gemido

soltas
lume nas pétalas
do regaço
despido,
cresces
rumo ao pulsar
do silêncio
da seda

galopas
na raiz da vida,
talhas
a seiva,
gota a gota,
a pele
polvilha-a com bagas
d`afago

ofereces
avulso nus beijos
no ventre,
na pele, os dedos
teclam
a ode do corpos,
repousamos
de cúbito, em concha
 
modo de amar

mar azul cobalto

 
Fundo de levantes. Abismo em sono

profundo de águas.

De longe, chegam ao cais nas marés

desfeitas em versos.

Poemas calmos como o fundo do mar.

Em mistério, as margens rompem-se e as

águas unem-se como a poesia une olhares

coalhados pelo azul cobalto das palavras

profundas. Sem se cansarem, ondas

inscrevem o belo e o sábio no avesso do

mar, onde aves ébrias pelo silêncio

anunciam maresias de inspiração,

enquanto no pulsar do oceano cintilam

torrentes de sílabas que se aconchegam

em pátios de sílica. Em visita, a

ondulação foragida das cristas

terrestres constrói rotas para as barcas

carregadas de estórias e segredos

temperados. No mar azul cobalto cresce a

imensidão do prado azul e no poema

cresce a pulsão profunda da palavra.
 
mar azul cobalto

amor enleva-me

 
amor

acordados os desejos

pinta-me a boca de amor-perfeito

amor

em oração enleva-me a fagulha da intimidade

ao eco do silêncio do corpo

ao suspiro trémulo

para em cada momento descer à senda

que me leva à tua morada:

ao gosto de ti
 
amor enleva-me

as tuas mãos

 
Justas à noite as tuas mãos aplainam o

sobrado para desfazerem afagos

na minha ilharga.

Mãos que avançam para o altar

de madre-pérola sobre joelhos

entontecidos e diante do círio alto

crescem preces em espasmos fundos.

Mãos de anjo que rasgam o clarão da

minha boca e me ungem a carne, erguendo

hastes de paixão.

Fazem-me subir ao céu em salto alto e

absinto nas palavras.

Como um voo de pétala, flutuo na noite

pelas tuas mãos.
 
as tuas mãos

sobre a inocência

 
A chuva perfuma de trevo a tua face e da boca nua destilas seiva carmesim.

onde aplaino o meio do silêncio e nasce ardente o astro com cheiro a terra.

Com cheiro do pudor do teu ventre prenhe de linho âmbar plantado na tua inocência.

A inocência que se desfaz no cálice do tempo e no sulco do espasmo
para entoar no fruto descerrado pelo criptar das veias, enchendo de mosto o cravo cantante.

Procuro enxertar as mãos na tua dança. Na terra do fogo.
os teus lábios. Na raíz do suspiro. No ardor da carne inebriada.
No pedaço extasiado pela delicadeza.

Na varanda da tua mocidade debruço beijos, fios de prata, pétalas embebidas pela lua. Soluço. Amor.

Anjo. Diadema. Permaneço ao cimo do caule do teu abraço.

Leves e sôfregos, os teus olhos fiam esperança.

Asas abrem-se do teu peito, rasgando nos meus dedos

grinaldas de flores. Mansamente adentrando-me na madrugada em seda.

Adentro-me na tua inocência.
 
 sobre a inocência

escultor

 
a voz da pedra para a mão
diz: toma a essência
em curvas de criação

em intima confidência
usa o cinzel
e em vicio, finca no veio
no hábil e ágil magma

na pedra
de fora para dentro
concebe, vastos pomos
seios e ventre cheios
olhos em existir silente
rosa dos ventos
no cabelo

na pedra virgem
esculpe, em assaz desvelo

crava o escopro
em lento amaciar
ama pouco a pouco
a lava, fogo de donzela

abre-a, em espasmo, na pedra
o peito, súbito sangue
fervente, alteia e sonha
a tez inundada

do cru laço da vida
na pedra
armada pela mão, um corpo
uma salaz concubina
adornada a vulcão

Dedicado ao amigo Francisco Cogumbreiro, escultor de "pedra de lava".
 
escultor

Na lua nova

 
vagueio no profundo istmo
dos olhos claros dos teus poemas,

tranco no peito migrante candura
no alto véu de esmalte,

quebrando no lábio desfolhado
o breu tangido do quente sagrado
do meu pranto.

Na lua nova a bússola do teu bailado
giza estrelas cheias.
 
 Na lua nova

pé ante pé

 
pé ante pé
vens
tomar-me o arrepio da pele

tomar beijos
à flor da boca

tomar-me
pelo vicio das
palavras
pelo tacto
que borda arrepios

e me ateiam
o queixume

pouco a pouco

quero-te
a amar
por dentro de mim

afundar-me
no enleio do
fervor

no contorno do
espasmo
no verso
saciar

vem
na madrugada
pé ante pé
acordar-me
 
pé ante pé

Beijos de dióspiro

 
Teus beijos são
ternos nascer do sol.
Esferas luminosas.
Quimeras de solstício.
Monções de sabor.


Seda frutada
gotejando mel ardente
no limite do instante absoluto
Dobrando as madrugadas
pousadas nas pálpebras altas.

Beijo-seduçao.
Beijo-paixão.
Beijo-sabor.


Teus beijos são pedaços
doces
roubados
ao dióspiro.
 
Beijos de dióspiro

desejo cego

 
pela claridade dos teus olhos

ceguei
os caprichos

em lágrimas
de lava
feita rocha

para me erguer

alto nos montes
do teu amor

e nos ecos
do teu desejo

que povoam
de fogueiras

os desejos
licorados pelo pôr-do-sol
 
desejo cego

Zita Viegas