Poemas, frases e mensagens de atizviegas68

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de atizviegas68

vulva

 
rosa ardente oculta
no nu vaso enfeitado de ninho

rosa alcova
o desejo chama
o namoro primaveril da mão

secreta rosa, flor da noite
a mão cadente o eco das pétalas toca

rosa rubra, flor d`amor
tua seiva talha o instante do gozo
que a mão a jusante doba
 
vulva

beijos

 
são calmos mares
nas vagas da manhã
o rubor das praias
sabe a sede

são canoas de seiva
que se abrem
em águas fundas

são barcas
entreabertas entre cristais
trazem conchas em febre
que saciam

são soluços de vaivém
entre marés
melodia

são vagas em renque
de mel e gula
em espuma

são velas na maresia
que dançam tango
em ondas rubi

são ilhas
pedaços de chegadas
e partidas

lugares que na boca
se aninham

são andorinhas
em acrobacia

são beijos
 
beijos

a planície

 
a planície abre-se em manso estar
no deambular das horas das papoilas
na vagarosa brandura do trigo o restolhar

em grande plano o sol a pique
tinge de amarelo os dias inocentes
e a paisagem pintada no recato do olhar
ergue-se em raízes no meio do vento

abre-se na planície recortada pela noite
o desabrochar da flor em mel
e sob as folhas da azinheira
acordam as cigarras do sono fiel

em contemplo da terra perfumada
de segredos e mistérios enluarados
embala-se a cal que escuta a parede
onde amor brasio desp`amados

nas rodas dos vestidos nascem
seduções no fôlego de um cantar
monotonamente inebriado de saber
ecoa entre louros favos um brilhar

vagarosas as horas aram a paisagem
adubando com candura da existência
de silêncio prenhe a terra d'ourada
semeia na alma o solo da essência

a planície em floração de alfazema
desprende roxas pétalas de saudade
para no pôr de sol alaranjado oferecer
a ternura do amanhecer à bela amada

com a profundeza da planície na palavra
a paisagem n`olhar em companhia risonha
avança o sonho nas asas d`uma cegonha
 
a planície

mulher, mãe e musa

 
no regaço
abrigas a felina
que aquieta a caça do enlace
em sangue e em gemido
entregas manso
o inteiro cio

nos teus braços
berços ergues
para infante ninar
e nos montes mansos
tua seiva nutre
tenra boca em prantos

com íntimos matizes
e passos de veludo
inspiras bodas e poesias
és meretriz e secreta deusa
mulher, mãe e musa
 
mulher, mãe e musa

em silêncio

 
O silêncio liberta-nos de quase tudo
menos de nós.
Por dentro permanecem ecos
de amor.
Falo-te de amor para ressoar por dentro de ti.

Amor é uma palavra. O desejo um corpo.
Leva-a o vento. Ao corpo, o tempo o levará.

Vem
troquemos as vestes pela nudez.
Quero despertar-te por dentro.
Quero ouvir-te amar, de olhos fechados.
Sentir as arestas das tuas veias
pulsantes.
Serpentear sobre o teu ventre.
Entrar no ardor dos teus rasgos.

Tu sorris como uma harpa. Lenta.
Quase em pausa.
Assomas aos meus olhos
para veres o eco de ti, em mim.

Falei-te em silêncio para permanecer com o eco do teu amar.
 
em silêncio

não te vejo há dias

 
Não te vejo há dias.
Esperava-te sobre a mesa a jarra com flores.
O chá de jasmim.
O fim de dia no pátio.O canto do melro.

Escrevo-te, enquanto a luz vigia a mão.
Entre o rebuçar das lágrimas no vestido e
o gemido traçado a ópio.
Assomo as tuas fotografias.

Dançávamos sob o esboço da magnólia
com as bocas coladas entre a sua sombra,
no enlace das mãos e sobre o colo espreitante.

Lembraste?
Partilhávamos as cicatrizes dos dias.
As errâncias do percurso.
As trovadas afloradas no peito.
A intimidade da pele.

Se não chegares pela lua
clara, o branco das magnólias
iluminará a prece da mão solitária
entre os sulcos íntimos sob as rendas

e tomarei a tua imagem como incêndio
para recortar o meu desejo nos dias
em que te não vejo.
 
não te vejo há dias

cais da ilha

 
O nevoeiro sorve montes e contornos. Sob o chumbo desfraldado tranças os teus sonhos.

Ilusões de ser pasmado. Sombras. Entre brumas, vem veloz a nostalgia.

Tu partes. Partes em dia cinzento mar. De coração vazio a chorar

a ilha. O lugar da minha tristeza.

Partes incerto e de olhar disperso. Melancólico.

Adensado nas coisas mínimas. No silêncio da chuva.

No pó do sonho. No rugir velado dos dias.

Na mudez dos grilos.

Partes no Inverno.

O Inverno que rumoreja no peito. A estação talhada

na fímbria do mar, onde a indolência

dos céus enfeitiça o coração

submerso em solidão.

Emudeço na rocha fendida.

No cais. Nós de vento compõem ondas

cortadas pela quilha.

No cais a matar saudades é o fim.

Quanto doí amar? É sempre?

Segredo de mãos ausentes nos confins do

mar.

Na ilha.
 
cais da ilha

sobre a inocência

 
A chuva perfuma de trevo a tua face e da boca nua destilas seiva carmesim.

onde aplaino o meio do silêncio e nasce ardente o astro com cheiro a terra.

Com cheiro do pudor do teu ventre prenhe de linho âmbar plantado na tua inocência.

A inocência que se desfaz no cálice do tempo e no sulco do espasmo
para entoar no fruto descerrado pelo criptar das veias, enchendo de mosto o cravo cantante.

Procuro enxertar as mãos na tua dança. Na terra do fogo.
os teus lábios. Na raíz do suspiro. No ardor da carne inebriada.
No pedaço extasiado pela delicadeza.

Na varanda da tua mocidade debruço beijos, fios de prata, pétalas embebidas pela lua. Soluço. Amor.

Anjo. Diadema. Permaneço ao cimo do caule do teu abraço.

Leves e sôfregos, os teus olhos fiam esperança.

Asas abrem-se do teu peito, rasgando nos meus dedos

grinaldas de flores. Mansamente adentrando-me na madrugada em seda.

Adentro-me na tua inocência.
 
 sobre a inocência

tudo por dentro de nós pede orvalho

 
como lagos mansos, orvalho
pela nossa pele passa de leve.

o orvalho que cai em nós
no desejo do olhar corre
e em nós cresce
a sede do nosso amar

oculto nas mãos solta
a nudez dos peitos líquidos,
em vagas calmas
mergulhamos em nós

por dentro de nós
existe um lago.

em profundo silêncio,
o apogeu nasce nos corpos
num lago cintado por montanhas
erguidas no espasmo

tudo por dentro de nós pede orvalho
 
tudo por dentro de nós pede orvalho

meus gomos de toranja

 
abres-me o corpo com o olhar,
por entre os sulcos
do frondoso pomar
e saboreias os meus gomos de toranja

no intimo pomo agri-doce,
fruto vivo rosáceo, exaltas
a fome inadiável dos teus lábios

carnudos
nacos talhados pelo perfume da pele
sedenta
da polpuda seiva
do corpo

onde a foz dos dedos
encontra o afago ígneo
em torno da flor trémula
 
meus gomos de toranja

poema de consagração

 
dentro de mim, tu és o poema
que nasce na brevidade
do verso
e anuncias a glorificação
numa oração de foice
em lume.

no meu corpo, gizas o ritmo
com labaredas cerzidas
à rima das palavras
incitadas pela licitação
da libido.

nos meus lábios, a cada pausa
recitas coplas
com cada palavra do meu corpo,
sem abuso de prosa,
upamos em sinestesia
como cavalos à solta
num poema de consagração.
 
poema de consagração

modo de amar

 
há contornos
do peito
na palma da tua mão
quando me assaltas a cintura,
sobes
em gomos, talhas a noite
procuras
os lábios com sabor
ao teu nome

estremeces
num sismo
que vem da alma
para rasgar o corpo,
ardes
como lava
e desaguas
num gemido

soltas
lume nas pétalas
do regaço
despido,
cresces
rumo ao pulsar
do silêncio
da seda

galopas
na raiz da vida,
talhas
a seiva,
gota a gota,
a pele
polvilha-a com bagas
d`afago

ofereces
avulso nus beijos
no ventre,
na pele, os dedos
teclam
a ode do corpos,
repousamos
de cúbito, em concha
 
modo de amar

escultor

 
a voz da pedra para a mão
diz: toma a essência
em curvas de criação

em intima confidência
usa o cinzel
e em vicio, finca no veio
no hábil e ágil magma

na pedra
de fora para dentro
concebe, vastos pomos
seios e ventre cheios
olhos em existir silente
rosa dos ventos
no cabelo

na pedra virgem
esculpe, em assaz desvelo

crava o escopro
em lento amaciar
ama pouco a pouco
a lava, fogo de donzela

abre-a, em espasmo, na pedra
o peito, súbito sangue
fervente, alteia e sonha
a tez inundada

do cru laço da vida
na pedra
armada pela mão, um corpo
uma salaz concubina
adornada a vulcão

Dedicado ao amigo Francisco Cogumbreiro, escultor açoreano.
 
escultor

mar azul cobalto

 
Fundo de levantes. Abismo em sono

profundo de águas.

De longe, chegam ao cais nas marés

desfeitas em versos.

Poemas calmos como o fundo do mar.

Em mistério, as margens rompem-se e as

águas unem-se como a poesia une olhares

coalhados pelo azul cobalto das palavras

profundas. Sem se cansarem, ondas

inscrevem o belo e o sábio no avesso do

mar, onde aves ébrias pelo silêncio

anunciam maresias de inspiração,

enquanto no pulsar do oceano cintilam

torrentes de sílabas que se aconchegam

em pátios de sílica. Em visita, a

ondulação foragida das cristas

terrestres constrói rotas para as barcas

carregadas de estórias e segredos

temperados. No mar azul cobalto cresce a

imensidão do prado azul e no poema

cresce a pulsão profunda da palavra.
 
mar azul cobalto

amor enleva-me

 
amor

acordados os desejos

pinta-me a boca de amor-perfeito

amor

em oração enleva-me a fagulha da intimidade

ao eco do silêncio do corpo

ao suspiro trémulo

para em cada momento descer à senda

que me leva à tua morada:

ao gosto de ti
 
amor enleva-me

as tuas mãos

 
Justas à noite as tuas mãos aplainam o

sobrado para desfazerem afagos

na minha ilharga.

Mãos que avançam para o altar

de madre-pérola sobre joelhos

entontecidos e diante do círio alto

crescem preces em espasmos fundos.

Mãos de anjo que rasgam o clarão da

minha boca e me ungem a carne, erguendo

hastes de paixão.

Fazem-me subir ao céu em salto alto e

absinto nas palavras.

Como um voo de pétala, flutuo na noite

pelas tuas mãos.
 
as tuas mãos

flores de bem-me-quer

 
No malmequer a chuva continua miudinha.

Para apanhar a fragância debruço-me na lufada do vento.

Ao vento que desfolha pétalas. Pétalas que adivinham buscas de amor.

Meadas de suspiros. Choros de mansinho.


Ao desnascer o dia, o orvalho rompe as palavras. A voz

mansa dos teus desejos. O lento soprar dos versos com que

ateias o meu ventre. Com que pintas à mão o brilho do meu olhar.

Com que soltas a Primavera na minha boca.


Como a voz que asperges em canto, decompondo-o

no nácar do meu íntimo, também desfolham da sépala

as pétalas com que adornas os meus seios na inclinação

dos lábios cedidos.


Abre-se e fecha-se o malmequer estilhaçando gotas

d`orvalho. Também em nós abre-se e fecha-se o corpo

entumecido no suor do amplexo. A nudez

abre-se e fecha-se. Abre-se...solta o

deleite. Solta o pólen.


Docemente, no outeiro das tuas mãos desabrocham flores…

…flores de bem-me-quer.
 
flores de bem-me-quer

Gozo

 
As tuas mãos exalam perfume
segregam desejo.
Germina fogo da tua pele.
De braços estendidos ao encontro da noite
trazes a arte do lume.
Fagulhas altas em forma de suspiro
içam os seios intumescidos.
Em corpo alado, lavras a terra molhada
pelos poços secretos onde
florescem rosas e néctar de romã.
No regaço recortado a pétalas
e no ventre tingido a mel
o hálito cose-se
ao bordado do prazer.
Imponente, embainho
a espada na ferida
soltando o grito latejante
sem misericórdia.

Atiz Viegas
 
Gozo

se um dia for poeta

 
um dia se for poeta
rogarei à Primavera para viçar o verbo
e para na planície lavrar a oração

aos dias pedirei a solenidade das noites brancas
e ao mar suplicarei o infinito em ondas d`alacridade

irei a pé à lua
e lançarei sonho e esperança ao mundo
pelo brilho das estrelas
aos Homens que buscam fé

um dia se for poeta
doarei o adeus ao vento
nas manhãs quando o céu irrompe
e na areia fundarei as lágrimas
com a cadência dos barcos no horizonte

um dia se for poeta
tactearei a inquietude
com a voz que rasga por dentro
a alma solitária de profeta
saciarei um e outro lado do que sou
com a palavra sábia
se um dia for poeta
 
se um dia for poeta

Poseidon e Anfitrite

 
Deslumbre para olhos mecânicos
Que varrem toda costa do litoral
Donde emergem os seres titânicos
Pais dos deuses do Bem e do Mal.

De extenso manto cobalto oceânico
Anfitrite sopra feroz na estação hiemal
arqueia seu dorso em furor tirânico
avança feroz à tona d`água do areal

A brisa marítima carregada de sal
As ondas num vai e vem incomum
Netuno tendo o mar como quintal
Reina soberano sem temor algum

Deusa do mar profundo em voz virtual
traz ao alto da onda divinos cânticos
do profundo leito d`azul abissal
epopeias, odes e hinos românticos

Causando inveja a Tupã e a Oxum
Com os cabelos e as barbas azuis
Com seu precioso cargo ad nutum
Com seus olhos radiantes de luz

Traz beleza anídrica e olhos coelum
na pele a espuma, no coração corais
chega à terra de braços em debrum
para contento de todos os seres mortais

À voz de trovão obedece o oceano
Calam-se os seres das profundezas
No mundo marítimo, ano após ano,
Poseidon, supremo, de exímias belezas.

Nereida, ninfa do mar colhe o plano
de Poseidon para casar em grandezas
na maresia é deusa do mar com afano
vive com sete marés nas profundezas

Poema confeccionado a quatro mãos entre Gyl e Zita num momento de descontracção. Obrigada pelo prazer da composição, estimado amigo poeta Gyl!
 
Poseidon e Anfitrite

Zita Viegas