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Poemas, frases e mensagens de atizviegas68

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de atizviegas68

passo a passo

 
passos, em passos vão
e em vão passam.
com os primeiros,
o que é longe, a perto chegarão.

se lentos, apressam-se.
em roda
enganam o tempo.
inquieta a alma
vai em passos perdidos.

nas areias, em passos se tropeça.
passos,
não sepultam pedras.
o caminho,
com passos se faz
a cada um, um passo jaz.

passo a passo,
entre passos, caminha-se na vida.
com passos seguros, se vai
sem temor ao dia.

em passos largos,
na noite
vem o comprimento do medo,
no eco da rua ou entre paredes.

do passo atrás, ao
passo em frente,
passos sem fim.
passo a passo
para o passo da liberdade.
 
passo a passo

Noites são casas onde as mulheres se demoram

 
Noites são casas onde as mulheres se demoram.
Há paredes e fustes sitiados de rostos. Silêncios aplainados às portas e janelas que guardam os segredos da carne.

Noites são casas que têm mulheres dentro, como escadas que os homens sobem, degrau a degrau.

Noites são casas cheias de estrelas áridas,
paradas nos olhos das mulheres. Têm luzes rachadas, abertas nas faces tingidas de solidão e amargo pudor.

Casas são femininos nocturnos, onde entram noctívagos com olhares selváticos, em agonizante êxtase.

Casas com mulheres que adornam a carne quebrada, o regaço batido e o sono da fadiga.

Noites são casas vestidas de pele que se
cobre de pérolas frias e de correntes
adormecidas no peito.

Casas são noites com mulheres que guardam espadas de amores bárbaros
e na ilharga penduram países, terras
inimigas e cidades longínquas.

Noites são casas onde as mulheres se
demoram para ouvir o tambor que ecoa no
sangue e a ferida que fala com a fome da cura.

Noites são casas onde as mulheres
se demoram como espelhos
contra o tempo da carne.

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Noites são casas onde as mulheres se demoram

vulva

 
rosa ardente oculta
no nu vaso enfeitado de ninho

rosa alcova
o desejo chama
o namoro primaveril da mão

secreta rosa, flor da noite
a mão cadente o eco das pétalas toca

rosa rubra, flor d`amor
tua seiva talha o instante do gozo
que a mão a jusante doba
 
vulva

modo de amar

 
há contornos
do peito
na palma da tua mão
quando me assaltas a cintura,
sobes
em gomos, talhas a noite
procuras
os lábios com sabor
ao teu nome

estremeces
num sismo
que vem da alma
para rasgar o corpo,
ardes
como lava
e desaguas
num gemido

soltas
lume nas pétalas
no regaço
despido,
cresces
rumo ao pulsar
do silêncio
da seda

galopas
na raiz da vida,
talhas
a seiva,
gota a gota,
a pele
polvilha-a com bagas
d`afago

ofereces
avulso nus beijos
no ventre,
na pele, os dedos
teclam
a ode do corpos,
repousamos
de cúbito, em concha
 
modo de amar

o beijo

 
o dedo ajusta o lábio
em vício ígneo de nascer do sol
para dilatar a ardência do beijo

entre céus
mãos rútilas e boca de dragão
guarnecem de escarlate o gemido
os lábios que deslizam
nas dunas com o sismo da mão

entre lábios
crepita o ardor, desce como um dardo,
em ti.
em desejo,
tomo-te o corpo em serpente
com o ateia do beijo
 
o beijo

flores de bem-me-quer

 
No malmequer a chuva continua miudinha.

Para apanhar a fragância debruço-me na lufada do vento.

Ao vento que desfolha pétalas. Pétalas que adivinham buscas de amor.

Meadas de suspiros. Choros de mansinho.


Ao desnascer o dia, o orvalho rompe as palavras. A voz

mansa dos teus desejos. O lento soprar dos versos com que

ateias o meu ventre. Com que pintas à mão o brilho do meu olhar.

Com que soltas a Primavera na minha boca.


Como a voz que asperges em canto, decompondo-o

no nácar do meu íntimo, também desfolham da sépala

as pétalas com que adornas os meus seios na inclinação

dos lábios cedidos.


Abre-se e fecha-se o malmequer estilhaçando gotas

d`orvalho. Também em nós abre-se e fecha-se o corpo

entumecido no suor do amplexo. A nudez

abre-se e fecha-se. Abre-se...solta o

deleite. Solta o pólen.


Docemente, no outeiro das tuas mãos desabrocham flores…

…flores de bem-me-quer.
 
flores de bem-me-quer

mulher, mãe e musa

 
no regaço
abrigas a felina
que aquieta a caça do enlace
em sangue e em gemido
entregas manso
o inteiro cio

nos teus braços
berços ergues
para infante ninar
e nos montes mansos
tua seiva nutre
tenra boca em prantos

com íntimos matizes
e passos de veludo
inspiras bodas e poesias
és meretriz e secreta deusa
mulher, mãe e musa
 
mulher, mãe e musa

intimidade

 
a paixão
na altura do peito
molda a flor
tecida
no leito

da boca
com rosada cor,
brota a seiva
no primeiro suspiro
da leiva

do ventre
frondoso e macio,
brota o rebento
da funda raiz
silente

do corpo
desperto na manhã,
rasga-se o botão,
a pétala
abre-se em defloração
 
intimidade

Último poema

 
Mingua a medula do tempo.
Inclinando o sonho no recorte do ensejo.
Despe o sangue da
cor e o verbo da voz.
Silêncios embriagam o olhar. Colando a
respiração à jura.
Coração arrefecido de perdão
gizando no rosto arribas.
De olhos cerrados do esplendor.
Pelo último eterno salto.
O mistério ajoelha-se na terra nua
onde jazem flores amarelas.
 
Último poema

não te vejo há dias

 
Não te vejo há dias.
Esperava-te sobre a mesa a jarra com flores.
O chá de jasmim.
O fim de dia no pátio.O canto do melro.

Escrevo-te, enquanto a luz vigia a mão.
Entre o rebuçar das lágrimas no vestido e
o gemido traçado a ópio.
Assomo as tuas fotografias.

Dançávamos sob o esboço da magnólia
com as bocas coladas entre a sua sombra,
no enlace das mãos e sob o colo espreitante.

Lembraste?
Partilhávamos as cicatrizes dos dias.
As errâncias do percurso.
As trovoadas afloradas no peito.
A intimidade da pele.

Se não chegares pela lua
claro, o branco das magnólias
iluminará a prece da mão solitária
entre os sulcos íntimos sob as rendas

tomarei a tua imagem como incêndio
para recortar o meu desejo nos dias
em que te não vejo.
 
não te vejo há dias

beijos

 
são calmos mares
nas vagas da manhã
o rubor das praias
sabe a sede

são canoas de seiva
que se abrem
em águas fundas

são barcas
entreabertas entre cristais
trazem conchas em febre
que saciam

são soluços de vaivém
entre marés
melodia

são vagas em renque
de mel e gula
em espuma

são velas na maresia
que dançam tango
em ondas rubi

são ilhas
pedaços de chegadas
e partidas

lugares que na boca
se aninham

são andorinhas
em acrobacia

são beijos
 
beijos

poema de consagração

 
dentro de mim, tu és o poema
que nasce na brevidade
do verso
e anuncias a glorificação
numa oração de foice
em lume.

no meu corpo, gizas o ritmo
com labaredas cerzidas
à rima das palavras
incitadas pela licitação
da libido.

nos meus lábios, a cada pausa
recitas coplas
com cada palavra do meu corpo,
sem abuso de prosa,
upamos em sinestesia
como cavalos à solta
num poema de consagração.
 
poema de consagração

da terra para o mar

 
cantas da terra para o mar
em ondas e vagas de erudição
ouço as tuas palavras bradar
o ímpeto da terra da mineração

no chorão do mar e nas conchas
deixas o sonho e o sol corar
deixas abraços nas ondas
à donzela, à amiga e à interpar

entre versos e improvisos
com rima solta e finura
amizade, lealdade e sorrisos
tens poeta a verdade pura

amigo, amas a palavra
e o amor muito t'apraz
no poema deixas a lavra
em cada verso a voz salaz

em quadra, em curto alinho
deixo versos em forma de laço
ao cantor mineiro eximio
ao poeta, um grande abraço
 
da terra para o mar

a planície

 
a planície abre-se em manso estar
no deambular das horas das papoilas
na vagarosa brandura do trigo o restolhar

em grande plano o sol a pique
tinge de amarelo os dias inocentes
e a paisagem pintada no recato do olhar
ergue-se em raízes no meio do vento

abre-se na planície recortada pela noite
o desabrochar da flor em mel
e sob as folhas da azinheira
acordam as cigarras do sono fiel

em contemplo da terra perfumada
de segredos e mistérios enluarados
embala-se a cal que escuta a parede
onde amor brasio desp`amados

nas rodas dos vestidos nascem
seduções no fôlego de um cantar
monotonamente inebriado de saber
ecoa entre louros favos um brilhar

vagarosas as horas aram a paisagem
adubando com candura da existência
de silêncio prenhe a terra d'ourada
semeia na alma o solo da essência

a planície em floração de alfazema
desprende roxas pétalas de saudade
para no pôr de sol alaranjado oferecer
a ternura do amanhecer à bela amada

com a profundeza da planície na palavra
a paisagem n`olhar em companhia risonha
avança o sonho nas asas d`uma cegonha
 
a planície

caio de amor por ti

 
Caio de amor por ti
como a folha calma e calada cai
atraída pelo Outono,
eu de amor por ti caio.
Indomavelmente silente, louco e perdido
tão quedo vou
até onde o sol se divide
em raio e em luz
que dos meus olhos se solta
a alegria da terra e a vontade de Deus.
Caio de amor por ti
mudo como o vento que sente os vales
e eu que neles entro
sinto-os em delírio e neles me finco
com a força de um rio
para me abrigar nas margens curvas de ti.
Num silêncio cúmplice, dás-te a mim
e eu deixo partir o suspiro,
em beijos ágeis e leves
numa dança de libélula. Pouso,
pouso em ti, no teu profundo céu
sem me deter, busco as tuas rosadas grutas
onde caio de amor por ti.
 
caio de amor por ti

escultor

 
a voz da pedra para a mão
diz: toma a essência
em curvas de criação

em intima confidência
usa o cinzel
e em vicio, finca no veio
no hábil e ágil magma

na pedra
de fora para dentro
concebe, vastos pomos
seios e ventre cheios
olhos em existir silente
rosa dos ventos
no cabelo

na pedra virgem
esculpe, em assaz desvelo

crava o escopro
em lento amaciar
ama pouco a pouco
a lava, fogo de donzela

abre-a, em espasmo, na pedra
o peito, súbito sangue
fervente, alteia e sonha
a tez inundada

do cru laço da vida
na pedra
armada pela mão, um corpo
uma salaz concubina
adornada a vulcão

Dedicado ao amigo Francisco Cogumbreiro, escultor açoreano.
 
escultor

mar azul cobalto

 
Fundo de levantes. Abismo em sono

profundo de águas.

De longe, chegam ao cais nas marés

desfeitas em versos.

Poemas calmos como o fundo do mar.

Em mistério, as margens rompem-se e as

águas unem-se como a poesia une olhares

coalhados pelo azul cobalto das palavras

profundas. Sem se cansarem, ondas

inscrevem o belo e o sábio no avesso do

mar, onde aves ébrias pelo silêncio

anunciam maresias de inspiração,

enquanto no pulsar do oceano cintilam

torrentes de sílabas que se aconchegam

em pátios de sílica. Em visita, a

ondulação foragida das cristas

terrestres constrói rotas para as barcas

carregadas de estórias e segredos

temperados. No mar azul cobalto cresce a

imensidão do prado azul e no poema

cresce a pulsão profunda da palavra.
 
mar azul cobalto

em silêncio

 
O silêncio liberta-nos de quase tudo
menos de nós.
Por dentro permanecem ecos
de amor.
Falo-te de amor para ressoar por dentro de ti.

Amor é uma palavra. O desejo um corpo.
Leva-a o vento. Ao corpo, o tempo o levará.

Vem
troquemos as vestes pela nudez.
Quero despertar-te por dentro.
Quero ouvir-te amar, de olhos fechados.
Sentir as arestas das tuas veias
pulsantes.
Serpentear sobre o teu ventre.
Entrar no ardor dos teus rasgos.

Tu sorris como uma harpa. Lenta.
Quase em pausa.
Assomas aos meus olhos
para veres o eco de ti, em mim.

Falei-te em silêncio para permanecer com o eco do teu amar.
 
em silêncio

amor enleva-me

 
amor

acordados os desejos

pinta-me a boca de amor-perfeito

amor

em oração enleva-me a fagulha da intimidade

ao eco do silêncio do corpo

ao suspiro trémulo

para em cada momento descer à senda

que me leva à tua morada:

ao gosto de ti
 
amor enleva-me

no horizonte vejo o invisível

 
No horizonte em seda
vejo a existência do teu amor
e na linha curva, o sonho que nasce
vem com a cor do oriente
aos meus olhos se prender.
Perante a lonjura incriada, cerro os olhos
e guardo a cor do momento.

No horizonte
o tempo nasce dentro de mim,
coisas belas talham-se
com a leveza das nuvens
e com o afago da palavra inteira.
É no horizonte que vejo
as raízes da alma verdadeira.

Perdoa-me!
Perdoa-me, se não nascem em mim
palavras de anjo,
nem o vício perpétuo do desejo
das noites contigo,
aquelas que unem os corpos em mistério
e em prazer que dura no beijo.

Confesso que é no horizonte
que vejo a ilusão do sonho
e que do amor vem a paixão.
 
no horizonte vejo o invisível

Zita Viegas