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Poemas : 

Natureza morta

 
Tinha em tempos
Maçãs, pêras e laranjas numa cesta sobre a mesa
E sempre que tinha fome comia delas e eram frescas.
Lembro-me que tinha em tempos
Fruta fresca sobre a mesa e que tinha fome.

Deveria eu ir contra a minha inércia e ser diferente
Ou apenas ser e os outros que me aceitem como sou.
Esta apatia ditatorial que me controla a iniciativa dos braços e das pernas
E que me mantém refém à cadeira a escrever estas merdas
É a imposição forçada pela rendição incondicional da vontade
Anulando quem sou, numa imensa prepotência de ser assim.

Sempre que interajo com o mundo
Na minha insensibilidade de natureza morta
Tudo se torna conveniente e inanimado pela minha acção.
Sou mais um Midas contemporâneo numa sociedade P.V.C.
Sou artificial, inconsequente e expansivo com as minhas qualidades
E nunca me retraio na tarefa de realizar o superficial.

Lembro-me que tinha em tempos
Fruta fresca sobre a mesa e que tinha fome
Hoje tenho plásticos a servir de enfeite aos olhos e gosto
Faço dietas e não me parece mal, nem diferente de ninguém.
Porque seria eu diferente?


Viver é sair para a rua de manhã, aprender a amar e à noite voltar para casa.

 
Autor
silva.d.c
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 07/07/2017 19:09  Atualizado: 07/07/2017 19:10
Colaborador
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 1608
 Re: Natureza morta
Indiferente
ao sabor do plástico,
trinquei uma maça Starking,
descasquei a banana da Madeira,
mais a mais, já troquei a volta
aos materiais.
Nenhum Homem é uma ilha,
está na sua natureza,
que
de tão selvagem,
mais merecia a morte!
Essa estúpida forma de vida...

Gosto muito de merdas destas.
Dá-me para excretar também...

Abraço


Enviado por Tópico
Gyl
Publicado: 07/07/2017 21:49  Atualizado: 07/07/2017 21:49
Membro de honra
Usuário desde: 08/08/2009
Localidade: Brasil
Mensagens: 15186
 Re: Natureza morta
Texto para refletir...


Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 08/07/2017 12:42  Atualizado: 08/07/2017 12:52
Subscritor
Usuário desde: 24/02/2017
Localidade: Azeitão/Setúbal, Portugal
Mensagens: 2087
 Natureza minha vossa
Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro


Enviado por Tópico
martisns
Publicado: 11/07/2017 12:57  Atualizado: 11/07/2017 12:57
Colaborador
Usuário desde: 13/07/2010
Localidade:
Mensagens: 29356
 Re: Natureza morta
Aos poucos tudo vai se acabando, isso é porque a ambição do poder, aos pouco vais tudo se destruindo todo o plantar.

um lindo poema de uma reflexãoOpen in new window, que esta