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Poemas : 

Prosaico

 
Num campo de milho no Minho
pouco maior que um hectare,
em mangas de camisa
vive um espantalho.
Preso ao seu trabalho,
avisa,
sem hesitar,
o voar do estorninho.

O tom claro ao vento,
a posição do chapéu de palha,
a leve inclinação das espigas
traz, às arrecuas, o bando
que, voando,
começa em cantigas
e pelo campo se espalha
com a fome em talento.

Às aves que hesitam, com medo,
diz o espantalho contente:
nem sabem da vossa sorte
(entre outras que se poisam nos braços)!
Pergunta-se a seara a espaços
se bico, se boca, é a morte
presente,
apenas ignoto, não há segredo.

Roda a terra em mais um Sol, rei
posto e nado;
e agosto parece enganado, treme…
De fio a pavio o espantalho sem nome,
sem fome
ao leme
dum navio encalhado num prado
respeita o seu fado, a sua lei…


Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.

Eugénio de Andrade

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Autor
Rogério Beça
 
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 14/09/2019 21:43  Atualizado: 14/09/2019 22:00
 Re: Prosaico
.
Muito bom, amigo, parabéns por mais um poema de grande maturidade.

Apreciei especialmente o desfecho.

Assistimos ao fim de um dia, que seguramente será o fim de um tempo.
Um tempo em que o sol -- signo de poder ou da divindade -- desvanece para dar lugar às sombras.
Um tempo em que a exultação do verão também pressente o seu ocaso e treme (de frio? de medo?), surpreendida pela finitude que persistimos em esquecer, apesar de todas as evidências.

Mas é com o espantalho que nos comovemos: assumidamente nulo ("nomina nuda tenemus") e ridículo aos comandos de uma seara devastada pelos invasores que o ignoram, encontra um resto de dignidade na aceitação do destino -- com uma dúvida: será simplesmente o seu ou de todo o universo que finge dominar?

E o leitor, condoído perante a cena pungente a que acabou de assistir, compõe a camisa desalinhada, indireita o chapéu de palha, dá meia volta e caminha em direção à noite.