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Poemas, frases e mensagens de Mr.Sergius

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Mr.Sergius

Honestidade

 
Tudo que se pode chamar de ternura, ficou no passado
Sob um céu de vinho tinto cor de veludo na noite turva
Ah, é tudo tão longe! É uma estrada só de acumular pó
Sobre minha história de ave de arribação mal explicada
Pela insônia tresnoitada dos pedaços de vida não vivida

A aurora rescende a rostos cheirando água de colônia
Lembrança de tantas ausências, de minutos esquecidos
A taça com um resto de vinho permanece no aparador
Simbolizando tudo aquilo que poderia ser e se esqueceu
Ou que a dor antiga confundiu fazendo não mais desejar

Onde foram os sonhos em que deitamos nossa esperança
Quais desvios que aceitamos no caminho sem o perceber
Sob quantas camadas secretas que se oculta a felicidade
Haverá alguma promessa que um dia se fará para cumprir
Um dia deixaremos de dizer coisas que podem machucar?

Saiba que depositei minha franca confiança no que dizias
Mas foram só mentiras que usaste apenas para me afastar
Porém nós sabemos que mentir trará um preço a ser pago
E eu devo te contar que esse preço é sempre alto demais
Queria te fazer feliz, mas fostes escravizada pela solidão

Sou poeta e todo poeta pode ter algo de triste, mas nunca infeliz
Morre-se à noite, se renasce na intransferível dimensão da manhã
 
Honestidade

Perfeição

 
Neste teu dia, queria escrever um poema que te descrevesse
Mas, temo não atinar palavras tão belas que te façam justiça
Para que estes versos não pareçam desertos diante do que és
Pois és a semente de tudo que germina, és a fonte que inspira
Porque tens os olhos profundos que versam mesmo que cales
Mas se não calas, tua voz é o alento que já gravei nos ouvidos
E se te faço sorrir, sinto-me como Deus na sua melhor criação
Pois teu sorriso ilumina as trevas da angústia e restaura a vida
Hoje sei que quando as flores foram criadas, pensaram em ti
Mas não sei fazer flores e tão menos descrever a flor que és
Contudo, posso reconhecer teu perfume em qualquer jardim
Se eu pudesse te escrever um poema, poderia recriar o mundo
O ouro imitaria a cor de teus cabelos que eu quero acariciar
Eu inventaria a brisa nas tardes de verão para vê-los esvoaçar
Inventaria também o céu e colocaria estrelas pra te ver sorrir
A lua não, pois viveria escondida nas nuvens, com inveja de ti
Deitaria ao teu lado para contar as estrelas e histórias da vida
Porém não sei escrever um poema que te seja justo, bem o sei
Mas, sei que te amo e que te desejo tão feliz qual sonho bom
Quero estar ao teu lado e cada ano constatar que vales mais
E dizer apenas teu nome, quando quiser explicar a perfeição
 
Perfeição

Tarde demais para mudar

 
Podia-se dizer que todos os seus dias eram iguais: levantava à mesma hora ao som de um despertador tão eficiente quanto incômodo que ficava sobre o criado mudo. Parecia uma serpente - não em forma, mas em atitude - que estava pronta para o bote quando a melhor hora de sono se aproximava. Picado pela campainha estridente, abria os olhos e sentava na cama.
Permanecia sentado longos instantes antes de se levantar, pois lera em algum lugar que a maioria dos acidentes no quarto se dava justamente ao acordar. Diziam que a ocorrência de vertigens era bastante usual para aqueles que se levantavam rapidamente e dai para o acidente não haveria distância.
Depois desses minutos, vestia os chinelos e punha-se em pé olhando à sua volta e reconhecendo os traços de sua já conhecida mobília. Traçava mentalmente seu caminho até o banheiro, embora a mais crua verdade poderia afirmar que isso não seria necessário por todas as repetições cotidianas que ele fazia.
Mas ele acreditava que tudo deveria seguir um método, uma repetição de fases inalterada pelos anos a fio.
O sanitário, a pia, a escova de dentes e o pente a repor alguma ordem nos cabelos em desalinho, que estavam mais compridos que o normal.
Daí à cozinha para fazer o café da manhã. Café forte sem açúcar, bolachas, manteiga com sal. Eventualmente um pão passado na chapa com uma rica camada untada ou uma modesta fatia de algum tipo de bolo.
E assim a vida se desenrolava monotonamente repetida, na presumida segurança de seus métodos assinalados pelas regras que ele criou ao longo dos dias de sua vida.
Mas não hoje.
O despertador - aquele com duas campainhas e um martelete entre elas - mal iniciou seu tilintar e foi projetado na maior distância diagonal que o tamanho do quarto permitiu.
Ele ergueu os braços contra a cabeceira da cama para esticar-se que rangeu um rangido de surpresa com aquela inusitada posição. O móvel mal teria tempo de se recompor e num salto único, elegante como uma gazela, mas másculo como um touro, ele quedou-se em pé, ignorando os chinelos que receberam mesmo um olhar de desprezo antes do primeiro passo descalço.
Apontou o nariz ao horizonte e, sem cogitar a diagramação das coisas à sua volta, partiu em direção ao banheiro. Lá apenas borrifou poucas gotas de água com as mãos no rosto que mal sentiu o frio líquido; esfregou displicente, sem se observar, as pontas dos dedos no couro cabeludo, como se isso fosse o bastante para acreditar que fazia um penteado jovial.
Pensou num copo d'água como sendo o bastante para aquela manhã. Não às gorduras, aos farináceos e os megatons de cafeína absorvida (ou não) logo nos primeiros minutos de cada dia.
Sentiu-se feliz com a decisão e ao passar pela cômoda com o espelho antigo que pertencera à sua avó, não viu sua usual imagem refletir-se alí.
Antes de chegar na sala, ouviu vozes familiares, mas tão lamentosas que o fizeram recuar e assim pode ver o papel sobre a cômoda do espelho. Seu ímpeto já ia arrefecendo e murchou quando leu seu nome escrito à máquina no papel com um brasão cabeçalho e, logo abaixo, nem conseguiu terminar de soletrar C - e - r - t - i - d - ã - o d - e - Ó - b - i ...
 
Tarde demais para mudar

Encontro

 
Encontro
 
Ele caminhava pela rua em meio ao movimento vespertino no retorno das pessoas de seus trabalhos. Mãos nos bolsos para afugentar o frio úmido que se refletia na calçada, ainda molhada pelas ultimas gotas de chuva, caída meia hora atrás. Seguia em frente, olhando à sua volta os rostos apressados, olhares distraídos e narizes apontados para o horizonte.
Seus pensamentos vagam, pois ele não tem destino naquele momento. Apenas caminha para se distrair, tomar um ar e mudar a rotina dos dias que passou fechado em casa.
Ela voltava pela última vez daquele trabalho, estava cansada de sua rotina e desejava mudar. Caminhando na direção do metrô, olhava as pequenas poças d'água que ainda resistiam pelo caminho e pensava agradecida pela chuva ter parado - não levara o guarda-chuvas quando foi, pois tinha algumas coisas para trazer. Tinha a cabeça cheia de planos e dúvidas, já que as coisas estão bastante diferentes.
O destino sempre move as peças sobre o tabuleiro, nos seus intrincados desígnios como num campeonato de ases do xadrez que admiramos sem entender. É assim na maioria das vezes quando tudo vai se sucedendo e parece agir contra as impossibilidades.
O moleque que vendia balas em meio à multidão correu para atender o cliente habitual que o chamava diante da Casa de Sucos da Esquina. O chão escorregadio contribuiu para que o garoto esbarrasse nela, fazendo com que a caixa que carregava as balas caísse no chão. Destino igual tiveram os envelopes que ela carregava.
Ele se abaixou de pronto para recolher os envelopes caídos e os pacotes de balas. Como agiu por impulso e estava ainda distraído, ameaçou entregar um e outro trocados, mas rapidamente corrigiu o movimento, tirando sorrisos dos presentes.
Ambos trocaram sorrisos com uma leveza inusitada para o momento que cada um deles estava passando. Nenhum deles estava em uma situação emocional confortável e, para dizer a verdade, não tinham muitos motivos sinceros para sorrir com desprendimento nos últimos meses. - "Obrigado tio" ressoava a voz infantil enquanto o garoto ia se afastando para enfim vender um pacote de balas. Quase eles não ouviram, pois seus olhares - além dos sorrisos - também acabavam de se cruzar.
- "Obrigada" - ela disse a ele.
Ela não precisou erguer muito o rosto para olhá-lo nos olhos, eles eram quase da mesma altura.
- "Não necessita agradecer" - respondeu ele. "Não fiz nada".
- "Oh, sim. Foi gentil, ajudou-me e ao garoto".
- "Você não sabe como fazer algo útil, afinal, me fez bem, depois de tantos dias com tão pouco a fazer" - acrescentou ele.
E continuando, ainda juntou: - "Talvez, eu que deva agradecer, foi providencial parar aqui porque estou querendo tomar um suco, aceita"?
- "Sim". Ela aceitou sem demorar muito para responder. Estava estressada e tomar um suco seria uma boa sugestão para desanuviar. Conversar um pouco sem compromisso, falar do tempo e de coisas amenas antes de voltar para casa e para as conjecturas indispensáveis ao novo projeto.
Não foi coincidência ambos pedirem um mesmo suco.
Ele que costumava ter os cabelos cortados curtos, os tinha bem mais longos, pois não tinha ido cortá-los por causa das restrições de movimentação. Tinha os olhos de uma cor enigmática que oscilava entre o castanho claro e o verde dependendo da iluminação do ambiente.
Os olhos dela eram castanhos e vivos, embora não fossem grandes. Seus cabelos dourados emolduravam uma face harmoniosa e simpática que mesmo nesse momento de preocupação não se fazia transparecer.
Poucos minutos de conversa bastaram para suas afinidades se apresentarem e agigantarem. Gostavam, faziam e tinham expectativas semelhantes. Tinham alguns objetos idênticos e estiveram muitas vezes nos mesmos lugares e horas. Passaram por situações onde certamente era impossível que não tinham se visto. Mas não era o momento, não ficariam juntos, pois cada um tinha seu compromisso.
Agora era diferente, nenhum dos dois tinha compromissos pessoais e é aí que a maestria da jogada do destino se faz mostrar: Se não se viram em todas as vezes anteriores, e certamente já estiveram na mesma sala, foi porque não era a hora de se encontrarem.
Percebo que a esta altura, todos já devem ter compreendido o alcance dos atos do senhor destino.
Foram feitos um para o outro e cruzaram seus caminhos por diversas vezes, mas por motivos outros não adiantaria se encontrarem. Então seus olhares foram desviados, mas não hoje, não agora, não desta vez.
Bastou-lhes um olhar para se reconhecerem como almas gêmeas e terem a certeza que suas vidas, de fato, começariam a mudar.
Não viram o tempo passar, mas ao sair, seguiram juntos, de mãos dadas, bem depois que o movimento de pessoas já tinha acabado. Para selar seu encontro, decidiram dançar um tango, mesmo na rua, agora deserta, enquanto deixavam suas sombras, felizes, deslizarem refletidas no chão.
 
Encontro

Pérolas à porca

 
De que adiantaram as considerações
Se fugistes às tuas próprias conclusões
De que serviram tantas explicações
Se de fato não querias compreender
Para que tanta escolha das palavras
Se sequer ao menos pretendias ouvir
De que serviu que eu fosse compreensivo
Se não considerastes tuas próprias ações
De que valeu a busca pela verdade
Se só prevaleceu o que mais convinha
Porque tanto pedistes para nunca te deixar
Se abrir a porta e sair foi tão fácil para ti
Porque tentei manter aquilo que prometi
Se para ti promessas não valiam nada

Abri mão de uma possível paixão, te fui fiel
Pouco tempo depois, tu decidistes partir
Foram pérolas devoradas meio ao farelo.
 
Pérolas à porca

Setembro à espera da Primavera...

 
Quero de tudo para este setembro, do que seja encanto floral
Quero alucinar-me nas mãos juvenis dessa mulher e declarar
Meu amor, na presença matutina, como nunca tivesse amado
Quero amar nesta primavera, mais que em todos os invernos
Quero ouvir vozes e cantos dos pássaros pelos amanheceres
Pois essa é como a voz da paixão, que é delicada e complexa
Quero o teu corpo e braços, onde guardarei todos os abraços
Quero as ruas da cidade à beira mar iluminada ao sol poente
O vermelho tomar conta do azul, riscando uma linha no mar
Quero tudo invulgar para setembro, toda forma de ser gentil
Quero estar à luz da tarde ao lado da namorada perfumada
Pois o amor é a luz e a rosa, a rima que meus versos não têm
 
Setembro à espera da Primavera...

Gris

 
As vertentes antes altivas da serra já não se impõem na paisagem
Tomadas de nuvens gris. Meu pensamento, por isso, paira perdido
Orbitando em vão sobre o eco dos passos, sempre mais distantes
Criei em torno de mim paredes fermentadas de desejo reprimido
Sou ser à espreita. Como o mosto que um dia será maduro vinho
Reconstruir todo silêncio à minha volta e nele me fazer invisível
Como os sinos que dobram, indiferentes, a cada quarto de hora
Tudo é distante e intemporal, meras imagens inglórias no espelho
O que permanece é vazio, cinza, tal um dia que não amanheceu
Nesse abandono gratuito já se fez muitos mortos. Será destino?
Em meu ser um sonho azul desnudo se reergue em meio à chuva
Na busca de mínimos mitos, de uma coleção infinda de abraços
A vida em sua concepção é fumaça ambígua diante das pupilas
Porém a lua é intacta, minha herança, doce farol no teu caminho
Resiste em mim o aroma dos campos, as crinas soltas dos cavalos
Céleres qual vento nas tardes de maio, nos poemas vivos do olvido

Uma lembrança ao poeta Luciano Spagnol, um dos poemas escritos pelas minhas viagens por sua Minas Gerais. (maio/2001)
 
Gris

O Poço

 
O vento soprou os dias, as folhas da ilusão, as flores da paixão
Com elas, a alegria da juventude, a esperança e tantos desejos
Tantos sonhos bordados de carinho, quantos sorrisos também
Fruto de incompreensões onde deter a razão precede ser feliz
Onde terá ido a verdade que se mostrava tão singela nos olhos
Terá ido com as marés, trocada pelos meandros de tecnologias
O vento trouxe alterações na personalidade, trouxe o desamor
Vieram meias palavras e inverdades, vimos repetir apenas o não
A dor que não vejo em seus olhos ecoa bruta em meus ouvidos
Não entendes o que digo ou não queres, entender é compromisso
A luz se dissipa entre as grades desta prisão que cala e cerceia
Onde é a alma que se queda prisioneira, no silêncio devastador
A solidão é uma fera a rugir na noite que chega e seus temores
Quando ficares à beira do poço sentirás falta desta dedicação
Recordarás minha pele em tua pele a te acariciar infinitamente
A distância entre elas te doerá, no entanto não te autoflageles
Pois foi tua imperícia em deixar-se ser amada que assim decidiu
Somos mesmo um quebra-cabeças de sombras e peças nebulosas
Tantas vezes definimos conduzir nosso trem firme numa estrada
Que esquecemos que a viagem só importa quando há passageiro
O qual continuou solitário, entre lagrimas, na penúltima estação
O mais evidente é que, mesmo assim, te amo e peço que ignores
Toda a dor que cabe nestes versos à sombra destes hemisférios
Pousa tuas mãos mim, mas saiba que também não sei o percurso
Apenas sei, enfim, que nosso caminho segue pela mesma estrada
 
O Poço

Rastros

 
A história do existir tinge a vida sob o céu antes do amor
A vida tem nos segredos, pedaços de história não vividos
Tudo passa, as eclusas do tempo trazem o esquecimento
No brando oblívio das paixões que vão ficando para trás
O que se julgava a eternidade se tornará parcos minutos
Na esperança fugidia de sentir o sopro do verão no rosto
O perfume do jasmim, rastros de noites de brilho antigo
Bebemos o destino intransferível em seus cálices eternos
Na noite tal pátria luminosa do poeta no exílio do existir
Não há horizontes à vista apenas áridas estradas insones
Aqui restamos, coração abandonado, poemas indormidos
Pela madrugada adentro ao território de mais um amanhã
O passado é uma mancha de vinho sobre a toalha branca
 
Rastros

Devaneio

 
Nesta primavera com ares de outono
cheia de dias de arrependimentos febris
Minhas palavras despencam cruas sobre
o papel como as folhas enferrujadas
Que desprendem-se ao som dos sinos,
toscas, de seus galhos ao entardecer
Forrando o chão da praça onde restam
apenas meus mais secretos devaneios
Os confins do real vão esmaecendo e se
misturam aos sons da missa das seis
Ah que sina recordar destas memórias
em mares coléricos na noite sem lua
Compor trôpego debruçado sobre estes
versos ermos, feitos de frios rabiscos
Onde estarias tu minha musa para lhes
dar cor e perfume de flores do campo
Onde estarão as crianças das tardes de
domingo com seus sorrisos e fantasias
Saudade incessante de ouvir o som da
chuva na janela com olhos de esperança
Saudade da goiabeira à beira da estrada,
dos abraços, dos gestos, do canto do sabiá.
 
Devaneio

Transformação

 
Vive dentro de mim um poeta enlouquecido pelas tragédias
Em luta com demônios, creia-me estão aí, a destruir o amor
Entre amores não vividos, sofrimentos, e sua própria tolice
Não lhe pode avaliar o cotidiano ordinário dos transeuntes
Que passam abstratos à sua vida real, feita de amor pujante
Todavia invisível aos olhos que escrevem na lousa do normal
Há dias ocos de palavras, de vozes mortas, em coro desigual
Há desejos reprimidos que me ferem tão na carne e na alma
Aceno com meus gestos inglórios de aflições mal ordenadas
Sem jamais perder a ética por um qualquer encontro fugaz
Semeio violetas, mesmo a temer não as farei colher, amiúde
Sinto ter encontrado em ti o sonho que a vida fez concreto
Que afinal vai começando a amanhecer num enredo surreal
Tua silhueta nua, a me sussurrar no ouvido tudo o que calas
Não é hora para arrependimentos tardios, nunca amei tanto
Se fosse chorar até sumir o coração, ainda teria tanto amor
Mesmo que o amanhã, entre suspiros, anuncie a tempestade
Não haverá mais enganos, sombras ou dúvidas a conjecturar
Eu te amarei por mil vidas, pois te amar recompôs o infinito
 
Transformação

Longe

 
Longe
 
De cabeça baixa estavas e parecia que me fitavas
Teus seios afloravam da renda do vestido de festa
Na parte entreaberta sobre o teu ombro esquerdo
Nessa última imagem que vi de ti já não tinhas vida
A dor me trespassa o peito, já nem consigo chorar
Estendo a mão com tremor, alcanço teu braço nu
Tento te imaginar como há horas atrás e te cobrir

Palavras tínhamos dito, decisões seguras e rápidas
Decidimos com leveza as direções de nossas vidas
Pois sabíamos toda luta que teríamos a enfrentar
Para reunir nossas vidas e esperanças num futuro
Volto a nossa noite passada. Foi algo inesquecível
Cada uma era sempre como se fora a primeira vez
Mas esta não. É a última vez, jamais vais retornar

Sinto-me em um deserto de areias negras sob o sol
Elevo os olhos aos céus para buscar por respostas
Mas não vejo nada, não há uma luz, não há nem ar
Privado de ti me quedo vencido em meio a sangue
Porque queria te seguir, te rever dizendo que sim
Mas não tenho essa graça. É só silêncio e angústia
Não há um mínimo alívio para aplacar essas dores
Já nem vejo mais, escurece, ouço sirenes ao longe

Sabes quanto eu quis te tirar dali, trocar de lugar
Nas profundas chagas que eu mesmo abri em mim
Pensei que assim iria te seguir, te amar pelos céus
Estaríamos num espaço azul e anjos nos sorririam
Trazendo a ti de volta para meus braços refeitos
Mas tudo que encontrei foram somente sombras
De tanta tristeza esse meu coração quase morto
Vai revivendo solitário o ar quente daquela manhã

Este o retrato do mais triste episódio da minha vida. Éramos jovens, belos, invejados... Mas um lampejo do destino e ela se foi para sempre, num estúpido acidente de trânsito, causado por alguém que queria tomar meu lugar...
 
Longe

Ode a Augusto dos Anjos

 
Dos Anjos o dizia que era como hospital
Em que o triunfo não assistia aos doentes
Ah, Augusto ouso te dizer que não é assim
Coração de poeta é o esteio de quem sofre
E te posso afirmar que já foi tanto que sofri
Nele transborda o poema, seu fruto nativo
Que não cabe no peito e derrama no papel
É antes o nascedouro de toda esperança
Porto seguro onde o mal não nos alcança
Vê em quase tudo um brilho e luz própria
O coração do poeta não é o vilão da dor
Antes, sabe que sofrer de amor não mata
Portanto faz amigas as cicatrizes que o ferem
Faz de cada uma, a linha onde deita o verso
 
Ode a Augusto dos Anjos

Antes que seja tarde

 
As palavras tardias são como as palavras ausentes
São o grito de liberdade que se franqueou não vir
Essa fala cogente que restou retirada da garganta
Estrelas que apagam, arrastam a luz da esperança
Folhas a cair secas alquebradas ao chão de poeira
O silêncio assim exercita sua tirania e arrogância
E todas alvoradas restam vilmente tintas de cinza

Acontece quando se ama mas não revela esse amor
Por isso que hoje quero dizer do meu amor por ti
Sentimento que por vezes faz que tudo se ilumine
Por vezes canta e outras sangra, mas sempre vive
E vivo não se cala, se eterniza para além do tempo
Como o arrepio que percorre o corpo sem porquê
Assim faz com que eu queira escrever que te amo

Sim eu te amo, ainda que isso não descreva o todo
Nem o farão todas frases perdidas no baú da mente
Quais eu já tenha pronunciado nesta ou outra vida
Sim, eu te amo e por isso não se cala o meu pensar
Em te dar e querer de ti o que for o melhor de nós
Para celebrar na chama que acalmou o frio inverno
E que nos trouxe o perfume de uma nova primavera
 
Antes que seja tarde

Indiferença

 
Para alguns são pássaros, uns enormes
Que passeiam desprendidos de instintos
Entre pessoas cotidianamente distraídas
No turbilhão de uma segunda feira qualquer
Nutrem-se dessas distrações assombradas
E lá se vai um atropelado no branco da manhã
Nem causa pânico, tornou costumeiro assim
É apenas mais uma ausência logo esquecida
Vagando insciente quando a rua ficar vazia
E sua alma que nem saberá o que a atingiu

Para mim, e meus olhos bastante atentos,
São vampiros de asas por demais negras
Revoando a serviço do mal na multidão
Os demais seguem indiferentes ao perigo
Que os sobrevoa em círculos estreitos
Para despertar o que há de pior por dentro
Que é a indiferença à dor que toca o outro
Nesse teatro moderno de virar o rosto
E nem querer ver, algo tão inocultável
De fazer-se solitário quase por ofício

Aos poucos distanciar-se vai sendo normal
Não só ao físico, mas abandonar a empatia
Os olhos riscam a irmandade do léxico
Pois importa o que vem atrás do umbigo
E na cidade fria, cada qual tem seu umbigo
Invulneráveis ao drama que não sentem
Espectadores sem expressão frente à vida
Que salvar-se apenas a si, é seu ideal
Se querem que me acostume ao novo normal
Deviam me resetar, recriando sem o coração

Na maior crise vivida pela humanidade nestes tempos modernos, vemos pessoas se aproveitando da dor alheia, das necessidades alheias para lucrar: dinheiro, prestígio, poder não importando os corpos que ficam pelo caminho. Muitos aprenderão e outros irão ignorar o que o Criador, com isso, tenta nos ensinar...
 
Indiferença

O Livro dos Poemas (Ode ao poeta que reluta imprimir suas poesias)

 
Vai, ignora as dificuldades e dá algum passo
Longas jornadas iniciam-se com um passo
Os poemas não foram escritos para esconder
O livro é como filho, aguarda a gestação
Não importa se vão compra-lo ou não
Sabes que teus escritos tocam muitas almas
Tocarão muitas mais, folha após folha.
Escrever é teu ofício e o lume de teus dias
Reparte-o pois, há corações no aguardo
Quando teu filho o tomar entre as mãos
Apresentando-o aos amigos com orgulho
“Este livro foi meu pai que escreveu”
Nenhum outro valor terá importância
Dá teu passo e ignora tudo o mais
Tira os escritos das gavetas e os traga à luz

As folhas um dia amarelecidas, serão o testemunho de tua passagem nesta terra.
 
O Livro dos Poemas (Ode ao poeta que reluta imprimir suas poesias)

Devaneio

 
Devaneio
 
Ó vinho ergo-te na taça calorosamente em brinde
Meu coração, este fardo aflito, me dói, mas feliz
Nem um minuto faz de tua partida, já és saudade
Trama melodiosa de meus sentidos, sombras nuas
Tua cor rubi que preenche os espaços até a borda
O aroma de incenso que flutua pelo ar e o perfuma
Minha porção alada nas espirais do desconhecido
As violetas e outras flores anunciando a primavera
E tu diz-me tão radiante: hoje quero voar contigo
Manchar a tua boca com a cor púrpura da minha
E te digo musa minha cantarei as estações para ti
Perfumarei o teu corpo com exóticos almíscares
Nosso amor não nasceu para morrer sob este céu
A noite se aproxima e já ouço essa voz conhecida
Que antecipa tua chegada como se fosse melodia
Janelas abertas por onde se esvai a minha solidão
Para além da campina, dos riachos, meu devaneio
 
Devaneio

Lágrimas Gramaticais

 
Lá estava ela embarcando no trem
Eu e meus olhos mareados d'água
A mão estendida na beira da plataforma
Aceno como pudesse apagar a dor
Com meu desejo, correr na direção dela
Confessar não vá, meu coração implora
Dar-lhe outro abraço, não um adeus
Dizer tudo irá, em breve, melhorar...
O apito do trem, se perde na distância
Tivesse ido, certamente, não estaria eu
A derramar estas lágrimas gramaticais
 
Lágrimas Gramaticais

Ocaso

 
Sigo cabisbaixo por entre lugares aos quais não pertenço
Este mundo de suspiros que calam na minh’alma inquieta
O vento de outono que sopra da serra quando o sol se põe
Assobia uma triste melodia para a beleza do cair da tarde
Meus pensamentos viajam como uma revoada de pássaros
Que vão se recolher piando queixumes em meio às árvores
Com o olhar penetro as camadas de neblina vesperal a cair
A dança da chegada da noite se repete efêmera a cada dia
Na minha solitude sigo os últimos laivos rubros do ocaso
No vazio desta jornada inglória de memórias tormentosas
Não há consolo aos heróis vencidos só um silêncio infinito
Que se quebra somente com o estalar de passos na calçada
Enterro minhas ações em meio às folhas caídas no caminho
Meu espírito desarticulado já não reconhece o que é amor
Sacudo os sonhos, toco as flores ando pelos quatro cantos
Queria tanto situar-me onde mereço, mas só há escuridão.
 
Ocaso

Não a teu amor, não a teu sexo.

 
Não te declares de forma que eu imagine que me amas
Sei que não, sei que és abandono, que és como o vento
Que escorre sem deixar marcas, sob o azul destes céus
Não me prometas nada, pois sei que nunca vais cumprir
Sei quem tu és, por mais que me jures que está mudada
As flores por onde tu passaste não têm perfume ou cor
O teu caminho é agreste e orlado de árvores sem fruto
Tuas distâncias são medidas por teus desejos da carne
E assim na estreiteza de teu sexo tudo mais é só drama
Segue, pois, em teu silêncio de deserdada estrela caída
Adeus, de ti nada quero, nada quero do que tens a dar
 
Não a teu amor, não a teu sexo.

Dor e angústia protagonizam o show
Quando a noite vem, a mágica se faz
Nasce o poema das entranhas feridas
Então, abro as asas e voo ao infinito.