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Poemas, frases e mensagens de Mr.Sergius

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Mr.Sergius

Da dor de ser poeta

 
Se existe algo de justo na vida, todo poema deve ser lido
Vagarosamente, saboreando as palavras repetidas vezes
Cada verso pede um suspiro, que se guarde um certo ar
Para o verso seguinte. Cada verso pode ser um universo
Mas pode doer como dói o mundo certos dias cinzentos
Um poema pode ser profundo ou raso, banal ou efêmero
Pode ser efusivo e transbordante, qual um abraço amigo
Podemos erguer uns muros para nos escondermos da dor
Podemos construir nossa própria história de um paraíso
E os paraísos são tão fugazes, às vezes, tal qual um que li
O poema pode ser árido como há dias sinto dentro de mim
Correndo entre areias sem, desastrosamente, algum oásis
Como tentar uma inútil fuga, pois não se pode fugir de si
O poema pode ser um drama ou pode fazer pessoas rirem
Já nem sei qual destes amanheço para escrever e eu gosto
Sim escrever pode doer, quando fala das perdas e feridas
Mas temos que escrever, dar vida à poesia e só assim, viver
 
Da dor de ser poeta

A todos luso-poetas

 
Poucas vezes estive em lugares onde pude ser 'eu' de verdade. Não que eu seja uma pessoa fácil de lidar, um primor de atitudes. Mas ao sentar-me e escrever, parece que incomodei as pessoas um tanto mais. Fui criticado e minha pretensão de escrever um livro adjetivada de absurda (hoje já caminho para completar o terceiro).
Também me senti incômodo por pintar e porque para pintar tinha que deixar meu cavalete montado no meu escritório de casa por vários dias. Não sou um pintor proficiente, estudado, formado... sou um autodidata que se arrisca às formas.
Aqui tenho podido ser eu, deitar às linhas versos que brincam com a minha querida língua portuguesa, ler versos formidáveis de poetas maravilhosos, sentir-me entre pares.
Com a aproximação do Dia Mundial da Poesia [21 de março] quero antecipadamente deixar aqui minha homenagem a todos os escritores e poetas que fazem deste lugar, um ótimo lugar para se estar. Grato a todos pela sua leitura de meus escritos e por permitirem que eu cresça lendo o que você escrevem.
Salve Luso Poetas, lusitanos ou brasileiros, pouco importa. Salve a todos!
 
A todos luso-poetas

Janelas

 
O falso brilho das promessas é o perfeito retrato do que é ilusão
Nossos sentidos se lançam a acreditar que tudo será como dito
Os corredores e cômodos silenciosos e vazios são a prova disso
A janela aberta da casa, ao vento, imita asas, mas não há o voar
E o que restou para sonhar do desejo de viver novos horizontes
É cais varrido pelo aferro das águas de tantas e tantas partidas

O sol inclemente cresta o chão à margem do rio de fato distante
Mas não há o porto a ancorar nestes tempos tão ermos e áridos
Olhar afora dos batentes da janela pode trazer uma ideia fugaz
Um pensamento, por certo irreal, de que haver-se-ia a liberdade
De se lançar noutro voo às cegas e afastar o que não contenta
Na quimera de que o horizonte tão ansiado poderia ser logo ali

Mas é tudo tão remoto e já não se sente a textura das estações
E não há o conhecimento que te dê à mente os milhões de asas
Que são hábeis a reafirmar que o amor existe e é quanto basta
Nem a esperança que insiste ficar pela crença que deve resistir
Tal esperança nada mais é além de um tecido puído pelo tempo
Estendido no caminho de tanto tropeço nas dores da revelação

A vida cobre-se de equações mal resolvidas, de flores efêmeras
A vida é uma primavera de pétalas caídas, de adeuses precoces
Por isso sigo em meu desterro, sem sorrisos, atrás desta muralha
Mas aguardo o milagre que um som de violino trazido pelo vento
dissolva o silêncio e permita que a minha mão toque a tua e que
À sombra dos girassóis nos mostre o caminho de volta ao amanhã
 
Janelas

Honestidade

 
Tudo que se pode chamar de ternura, ficou no passado
Sob um céu de vinho tinto cor de veludo na noite turva
Ah, é tudo tão longe! É uma estrada só de acumular pó
Sobre minha história de ave de arribação mal explicada
Pela insônia tresnoitada dos pedaços de vida não vivida

A aurora rescende a rostos cheirando água de colônia
Lembrança de tantas ausências, de minutos esquecidos
A taça com um resto de vinho permanece no aparador
Simbolizando tudo aquilo que poderia ser e se esqueceu
Ou que a dor antiga confundiu fazendo não mais desejar

Onde foram os sonhos em que deitamos nossa esperança
Quais desvios que aceitamos no caminho sem o perceber
Sob quantas camadas secretas que se oculta a felicidade
Haverá alguma promessa que um dia se fará para cumprir
Um dia deixaremos de dizer coisas que podem machucar?

Saiba que depositei minha franca confiança no que dizias
Foram só mentiras que usaste apenas para me afastar
Porém nós sabemos que mentir trará um preço a ser pago
E eu devo te contar que esse preço é sempre alto demais
Queria te fazer feliz e fostes escravizada pela solidão

Sou poeta e todo poeta pode ter algo de triste, mas nunca infeliz
Morre-se à noite, se renasce na intransferível dimensão da manhã
 
Honestidade

Ode a meu pai.

 
Ele tinha o rosto em silêncio como pedra viva
A boca fina e esquiva não trazia sorrisos fáceis
O cabelo era fino e claro, cheirava a gomalina
Com a navalha tinha a barba sempre bem-feita
Eu o achava tão alto quanto eu gostaria de ser
Quando sentava no sofá, cachimbo e chinelos
O cachorro deitava-lhe sobre os pés em ritual
O rádio de ondas curtas chiava e dava assobios
O locutor falava espanhol e ele compenetrado
Ia decodificando o mundo, sorrindo enigmático
Vez ou outra olhava para o vazio, onde estaria?
Não tive tempo de compreendê-lo mais a fundo
Muitos anos passaram desde quando ele se foi
Quando eu descobri o porquê de ouvir noticias
Também descobri que o tempo não volta nunca
Tinha tanta coisa que eu queria poder lhe dizer
Eu queria mostrar-lhe estes traços tão sumários
Cuja inspiração o teve como emblema silencioso
Queria ter dito que o compreendo, mas é tarde
Só sobraram memórias a me assaltar o raciocínio
Que a vida é tão curta para tanto que há a saber
Não dos livros, das línguas ou das enciclopédias
Mas da própria vida, misteriosa a cada esquina
A cada volta, parecendo nos ensinar, a vida dá
Meu velho, deixo o que te devia desde sempre
O reconhecimento que a minha rebeldia inata
Nasceu foi de ti. As respostas um dia as terei.
 
Ode a meu pai.

Tempo (***)

 
 
O dia corre feito de momentos que fazem o dia sem graça
Nós esbanjamos tempo e desperdiçamos horas inutilmente
Indo de um lado para outro no que chamam de terra natal
Não sabemos aonde ir e esperamos que alguém nos ilumine
Achamos que há muito tempo para ser gasto dessa maneira
Seja debaixo do sol, ou em casa assistindo a chuva que cai
Afinal somos jovens e achamos que a vida e bem mais longa
E, um dia olhamos no espelho e vemos nosso cabelo branco
Então achamos que temos, de repente, iniciar algo na vida
Assim saímos a buscar o que julgamos, mas o dia terminou
Antes que nos dêmos conta o novo dia já iniciou sem aviso
O novo dia é justamente igual só que nós somos mais velhos
A cada ano que passa, nós estamos mais próximos de morrer
E cada um deles parece passar mais depressa, mais efêmero
Ao olhar à volta, nosso maior poema é só meia página escrita

Bem longe, do outro lado da vida, ouço o badalar dos sinos
Chama os fiéis para se ajoelharem e ouvir seus sutis feitiços

*** Poema escrito inspirado na música Time do Pink Floyd, sensibilizado pela mensagem que convida a pensar sobre a passagem do tempo. Letra traduzida e Adaptada.
 
Tempo (***)

Inexplicadamente (*)

 
Os ácidos versos da vida seguem opacos quando
pelas águas tépidas e transparentes dos dias
Por mares de esquecimento o cristal clama novos
cantares sem o que a palavra cala as ideias
Onde estará o alento do sopro cálido que comunica
em verso a aproximação um novo tempo
Mas a resposta ao enigma ainda dista um tanto
dos segredos confessos ao papel pelas penas

As linhas do poema não trazem a revelação
e nem vão precipitar as respostas à sina do existir
Tudo é feito de ciclos, uma sucessão de momentos,
a soma de instantes de cada início ao fim
Em sua gênese de fragmentos o tempo se revela
indivisível, a um único ato íntegro e disperso
Remanesce a certeza que somos muito mais que
a imagem que nos revela o aço dos espelhos.

Não será a mera certeza de alguma sublime
definição que afluirá para a libertação do espírito
Tampouco o silêncio que submete as palavras,
mas a limitante mesmice tardia que aceitamos
Conceitos talhados em duro mármore ocultam
inverdades recônditas e fugazes a reger a vida
Urge os sonhos reinventar intangíveis e etéreos
que a tudo descrevam, mas a nada expliquem

Face ao milagre da vida nos cumpre reescrever
o destino tal artesão que faz do barro o cântaro
Saiba-se que são iguais os gritos, os sussurros e as
confissões feitas na quase mudez à meia luz
Importa a percepção silenciosa do que diz o coração,
abdicando às frias explicações aritméticas
A pena e a voz do poeta mergulham no arco íris para
dizer inexplicadamente frases nunca ditas.

(*) Antes que algum perfeccionista o diga, eu sei que o correto é inexplicavelmente.
 
Inexplicadamente (*)

Ciclos

 
A tarde se cobre de tonalidades cinza de um novo abril
A névoa densa a beira mar a anunciar um tempo sombrio
Está já distante da primavera, mais próximo dos soluços
O vento frio a mostrar suas asas sobre toda a terra crua
Na planície de brancos reflexos do dia, um grito partido
O sol se deita dolorosamente nesses horizontes infinitos
Deixando sua esteira rubra sobre o azul límpido do mar
Dos barcos, as velas distantes, se assemelham a adeuses
Meus olhos as contemplam como a indagar por onde irão
Serão esperadas em outras terras ou apenas vão a passar
Toda a paisagem se apropria dessa melancolia do outono
Uma saudade que aperta a garganta sem se saber porque
A tarde se despede quase moribunda, a noite já espreita
As gaivotas, tristes, cantam pelos barcos que já se foram
Minha voz também se foi e a chuva vem para se anunciar
Com ela também o meu cansaço e meu coração mendigo
Treme, como uma criança perdida, ao fragor dos trovões
 
Ciclos

Angústia

 
No dia quase iniciado há uma nostalgia profunda exibindo os sulcos na alma dele e uma angústia enorme ansiou-lhe pela face no escuro do pré-amanhecer. Vagas memórias dos caminhos fugidios pelos quais andou lhe trouxeram uma grande sensação de solidão. Que se ampliaram, pois, as ruas inda vazias não mostravam nenhuma presença de quaisquer seres, visíveis ou não. Nas calçadas úmidas do sereno dos dias frios se refletiam as luzes dos postes.

A poesia lavrada em dores é projetada ainda em sombras e manifesta sua origem nos versos sentidos. As recordações vêm em turbilhão e aquecem a mente ao atrito na vibração de tantas memórias. Ainda há pouco a noite lhe agasalhava o sono e sua cabeça repousada sonhava com dias distantes.
Esse mesmo sonhar que ora se condensa e seu espectro corporifica-se em matéria acendendo um clamor vívido e doando uma claridade interior tênue e furtiva.

Isso gerou um corpo animado, quase real, daquela doce imagem de um passado remoto e, assim, ele percorre com a mão a distância que bastaria a tocá-la, mas é em vão... ela não está lá, mas vive em seu sonho e é a presença recriada pela saudade. Que no exíguo espaço dessa clausura quer vencer o espaço na esperança de poder sentir-lhe a pele clara e macia como uma seda de textura inigual, de correr os dedos entre seus cabelos dourados, ondulados como os trigais ao vento.

Relembra de um perfume suave, mas marcante, próprio das fadas, ah... ele jamais o esqueceria. Um dia por medo ele fugira e, assim afastados, sua vida se fez uma solidão insólita, que ora parece se multiplicar diante de seus olhos invariavelmente enevoados. Não têm mais o brilho do fogo que ardia em seu interior, só restaram parcas cinzas. Seu rosto, agora inexpressivo, é apenas vestígio da visão de beleza que já teve.

Pois é que nessa manhã, como a página reaberta de uma antiga história, a ansiedade veio lhe percorrer a alma e aquele sentimento indomável, até então aprisionado em seu coração clama pelo retorno à luz. Foi assim que os ecos de um canto novo e lírico surge, recomeçando a tecer uma teia de perspectivas que, no mesmo peito em que se fabricavam as sombras, começam a germinar sementes. Ele não quer mais apenas memórias daqueles gestos, tão dela e que preenchiam o vazio, ele confessa a si mesmo que os quer presentes.

Ele sempre teve a certeza que eles, homem e mulher, eram parte d’um único ser e o amor deles era o maior dos amores e sempre foi capaz de nutrir-se mesmo à distância e capazes de não sentirem a ausência um do outro, nem a distância física de um oceano que os separa. É o sentimento vencendo o espaço ligando duas almas em terras distantes. É a claridade a celebrar o rito, para recriar uma vida ávida de eternos reencontros.

A cor do desejo libertou as asas do pássaro para voar em direção do amanhã, para alcança-la como um dia alcançou, tocá-la como só ele a tocou. O pássaro, assim, cantou a canção que só a ela um dia ele cantaria e num pôr de sol à beira mar, juntos no mesmo lado do oceano, seus lábios em silêncio trocaram os segredos de toda uma vida. O dia amanheceu, ele abriu os olhos em seu quarto repleto de ausências, mas sorriu e deixou-a a dormir.

Esta é uma história real e feita de personagens reais, qualquer semelhança com a ficção é mera coincidência.
 
Angústia

Perfeição

 
Neste teu dia, queria escrever um poema que te descrevesse
Mas, temo não atinar palavras tão belas que te façam justiça
Para que estes versos não pareçam desertos diante do que és
Pois és a semente de tudo que germina, és a fonte que inspira
Porque tens os olhos profundos que versam mesmo que cales
Mas se não calas, tua voz é o alento que já gravei nos ouvidos
E se te faço sorrir, sinto-me como Deus na sua melhor criação
Pois teu sorriso ilumina as trevas da angústia e restaura a vida
Hoje sei que quando as flores foram criadas, pensaram em ti
Mas não sei fazer flores e tão menos descrever a flor que és
Contudo, posso reconhecer teu perfume em qualquer jardim
Se eu pudesse te escrever um poema, poderia recriar o mundo
O ouro imitaria a cor de teus cabelos que eu quero acariciar
Eu inventaria a brisa nas tardes de verão para vê-los esvoaçar
Inventaria também o céu e colocaria estrelas pra te ver sorrir
A lua não, pois viveria escondida nas nuvens, com inveja de ti
Deitaria ao teu lado para contar as estrelas e histórias da vida
Porém não sei escrever um poema que te seja justo, bem o sei
Mas, sei que te amo e que te desejo tão feliz qual sonho bom
Quero estar ao teu lado e cada ano constatar que vales mais
E dizer apenas teu nome, quando quiser explicar a perfeição
 
Perfeição

Jardins

 
Agora que o inverno derrubará as folhas
avermelhadas pelo outono que se retira,
Agora que o verde das colinas é apenas
uma lembrança qual o trilar dos pássaros,
Já ouço o chamar cinzento das nuvens
à chuva fina que esmaece todas cores.
Caminho à beira das casas, despercebido,
enquanto meus lobos correm nas planuras.
Livres pelos campos onde certamente estás
Ainda sinto em mim o toque de tuas mãos
vívidas a ansiar pelo encontro das minhas
Sigo andando e meu pensamento é distante
Como os jardins floridos da adolescência.
Recordações assíduas de cada dia sem sol
Na distância de teus olhos, doces e vivos
De tua voz mansa e quente a me chamar.
Cada detalhe de tua existência vive em mim
Prossigo, em silêncio com a voz embargada
Meus versos partidos numa poesia inacabada
Na tua ausência o inverno jamais me deixará.
 
Jardins

Estranha Alma

 
Sou uma alma desnuda quando escrevo meus versos
Minhas mãos cheiram a alfazema e assim vão morrer
Quando o inverno chegar, usarei minhas meias de lã
Irei recordar o cheiro perfumado destas flores lilás

Sou uma alma que desconhece limite, sangue quente
‘Oriundi’, corre em minhas veias mescla com tropical
Mas nem por isso, se possível, vir perder a elegância
Tenho apenas um coração para tanta dor que sinto

Sou uma alma que gosta do verão, outono demora-te
Quisera fosse um lírio ou uma violeta, alma inquieta
Não gosto de dormir, mas durmo facilmente também
Adaptei-me ao mar, sou da terra, campo ou montanha

Sou uma alma que nada sabe, não tosca, porém, singela
Gosto de carícias e afagos, gosto dos ventos do campo
Penso um tanto nos sabores, nos suspiros e fragrâncias
Há vezes sou sequioso comigo e minha pena não calará

O corpo morrerá, a alma seguirá a escrever seus versos.
 
Estranha Alma

Vida Provisória

 
Nasço todas as noites nas luzes naufragadas em águas límpidas
Nesta terra amarga de lamentos, dezembro não é mais tão vivo
A noite avança e a lua se perde lenta em seu reflexo nos canais
Escondi meu velho coração detrás de muros que eu fiz erguer
Para ter a certeza que já estás demasiadamente longe de tudo
Que não mais te verei nas planuras onde soprou o nosso vento
Que balançava os cachos de teus cabelos e as flores do campo
Afastei-me de todos amigos para ficar só, somente recordar-te
Afinal, estás mais longe que a lua que nasce, mas te sinto aqui
No ar o cheiro verde do musgo e sobre as pedras ecoa o trotar
Dos cavalos selvagens, com longas crinas oblíquas tremulantes
O vento esmaece os vestígios de seus cascos deixadas no areal
Sou uma alma antiga, eivada de rancores cinzentos mal digestos
Deito as sílabas por folhas despenhadas sobre a relva do prado
Onde germinam os poemas desenraizados das sombras lúgubres
Nesta minha vida provisória, sou sobrevivente, sou eco da terra
 
Vida Provisória

Vejam-me assim

 
Caros poetas vejam-me assim:
Sou uma pessoa apaixonada
Que vive essa paixão e é fiel
Que apesar de ser feliz assim
Tive um passado de muita dor
De procuras inúteis e vãs
De erros por medo e coragem
Mas nunca escolhi ser falso
Nem escolhi mentir ou enganar
Escrevo para quem sente dor
Como quem lhe estenda a mão
Ou ofereça o ombro de amigo
Acredito ser parte do divino
E que em tudo há uma razão
Que por vezes, não sabemos ver
Sou pequenino naquilo que sei
Grande para aceitar todo saber
Se vires assim, serás meu amigo
E eu serei amigo teu e te ouvirei
Não me fales mal de outra pessoa
Pois, sei que não saberei entender
Mas, escrevas um poema sentido
Que chorarei ou rirei ao teu lado
Por fim, dos meus defeitos o maior
Foi fazê-los pensar que também sou poeta.
 
Vejam-me assim

Quase noturno 6.5.1

 
O poema perdido na tarde eterniza o verso na palavra jamais escrita
O que os lábios feridos pronunciam ao vento triste não mais voltará
Nessa calma angustiada o que era murmúrio fez-se um duro silêncio
Como as pedras sobre as quais o sol bate, intenso, sob o fogo do dia
As recordações dos gestos de teu corpo despertam grandes lágrimas
Então, ouço os trinidos das flautas e inspiro o perfume dos gerânios
Que ficou esquecido nos rumores de um tempo lá detrás na estrada

Na ordem das coisas, breve, a luz diminuirá para a chegada da noite
É na noite que germina o poema e assim incendeia sombrios segredos
Que não se podem confessar na luz do dia, quase branca, tua nudez
Que em si é um poema, que navega graciosa em meu sonho mais vivo
O poema me sussurra ao ouvido tantos nomes, anônimos esquecidos
Ah estes versos que me contam histórias de uma infância longínqua
Mas tão interminável que ainda agora chego a duvidar chegue ao fim

Há momentos que chego a chorar por saber que a luz da aurora virá
Com sua luminosidade que devolverá o coração à sua dura realidade
Que renasce a cada amanhecer não importa se o céu é cinza ou azul
Porém, vou te esconder ao longo deste março de águas e de lágrimas
Para te rever radiante em minh’alma com a chegada de um novo abril
Devo te contar que juntos, somos uma espécie de eternidade juvenil
Sem espaço para a tristeza nas palavras no grato balanço das sílabas

Há 6 anos atrás, em 11 de março poderia ter sido meu ultimo dia na terra, mas Deus quis que não e assim comemoro meu sexto ano da nova vida,
 
Quase noturno 6.5.1

Transformação

 
Vive dentro de mim um poeta enlouquecido pelas tragédias
Em luta com demônios, creia-me estão aí, a destruir o amor
Entre amores não vividos, sofrimentos, e sua própria tolice
Não lhe pode avaliar o cotidiano ordinário dos transeuntes
Que passam abstratos à sua vida real, feita de amor pujante
Todavia invisível aos olhos que escrevem na lousa do normal
Há dias ocos de palavras, de vozes mortas, em coro desigual
Há desejos reprimidos que me ferem tão na carne e na alma
Aceno com meus gestos inglórios de aflições mal ordenadas
Sem jamais perder a ética por um qualquer encontro fugaz
Semeio violetas, mesmo a temer não as farei colher, amiúde
Sinto ter encontrado em ti o sonho que a vida fez concreto
Que afinal vai começando a amanhecer num enredo surreal
Tua silhueta nua, a me sussurrar no ouvido tudo o que calas
Não é hora para arrependimentos tardios, nunca amei tanto
Se fosse chorar até sumir o coração, ainda teria tanto amor
Mesmo que o amanhã, entre suspiros, anuncie a tempestade
Não haverá mais enganos, sombras ou dúvidas a conjecturar
Eu te amarei por mil vidas, pois te amar recompôs o infinito
 
Transformação

Quando o destino decide que somos apenas peças de um jogo de xadrez.

 
Ele tinha suor nas mãos ao chegar na festa onde era, por assim dizer, o convidado de honra, pelo que estava um pouco mais ansioso do que poderia admitir.
Era novato e já havia vencido uma dura prova.
Nos lugares que frequentava, sempre fôra o que passava mais despercebido de seu grupo de amigos, dada sua timidez, que foi criada e exacerbada pelo rigor das exigências de sua mãe.
Rigorosa e castradora, ela nunca permitiu que ele brilhasse, ainda que fosse o melhor de sua sala de aula. Com medo de ser repreendido sempre com veemência, tornara-se um tanto introspectivo.
Assim, nunca sonhou em participar de uma corrida de carros, mas sabemos que todos os garotos em algum momento, nas brincadeiras com carrinhos imagina-se o vencedor.
Agora, um jovem adulto, de uma brincadeira num autódromo, as coisas foram se sucedendo sem que na verdade ele as impulsionasse ou que as impedisse de acontecer, até o momento que a adrenalina inundou suas veias e o contaminou pelo desejo de vencer.
Ele frequentara uma escola de pilotagem onde os alunos foram gentilmente desafiados pelos organizadores a participarem de uma prova entre eles.
Na solidão do cockpit ele se sentiu, afinal, livre do jugo de sua mãe, à espera dos intermináveis segundos que separavam da largada, pela primeira vez decidiu que não precisaria se anular e quando a bandeira desceu, acelerou.
Acelerou tanto que quando a corrida terminou foi convidado a correr de novo, desta vez não como brincadeira no final de um curso de direção. Ia correr entre os leões. Isso fôra há duas corridas atrás e agora venceu, sem deixar margem para dizerem que foi sorte ou comentários negativos.
Ao passar pela entrada da festa, foi imediatamente levado ao organizador, entre acenos e tapinhas nas costas. Ele nunca se sentira assim, mas sabia que era isso o que sempre quis.
O patrocinador falava de seus planos para o futuro e dava instruções às pessoas para a homenagem, dizendo que algo breve, o que para ele seria significativo em seus primeiros dias de ‘alforria’.
O lugar era elegante e o salão ficava um nível abaixo da entrada que se dava por uma escadaria de uns poucos degraus. Ele observava o local e quando olhou para o alto da escada, um tanto distraído pois ainda não estava acostumado a isso, notou que lá vinha ela descendo os degraus com seu porte único.
Seus cabelos loiros, ligeiramente ondulados balançavam como o pêndulo do hipnotizador prendendo o olhar dele. Ele estava dois passos adiante do grupo dos patrocinadores em relação a ela. Ela caminhava firmemente em sua direção e um nó se fazia na garganta dele: ela vinha resoluta na sua direção.
Olhos verdes, traços delicados, um quê de inocência e outro de serpente no rosto. Um sorriso semi-oculto completava o quadro. Ela esboçou esse sorriso ao passar direto por ele, deixando apenas seu perfume envolvente no ar.
Despertado do sonho de acreditar que ela vinha na sua direção ele olhou para trás e a viu abraçar seu patrocinador: “Tolo – disse como se fosse a voz da consciência em 3a pessoa, advertindo a si mesmo - acreditou mesmo que ela vinha falar contigo?”
Mas antes de prosseguir em sua autocrítica, ouviu o chefe dizer: “Filha, que bom você veio, sua mãe está onde?"
Entre o alívio de um vexame interior e a certeza que ela seria alguém distante de seu alcance, seu patrocinador o chamou e a apresentou: - "Esta é minha filha"; a ela disse - "Este é nosso novo campeão" Ele estendeu-lhe a mão – um tanto indeciso, como sempre fora obrigado a se comportar pelas regras de sua mãe – mas ela ofereceu-lhe o rosto para cumprimentar com um beijo.
Ao se aproximar sentiu mais o perfume envolvente que ela usava e ao tocar rosto a rosto foi uma vibração que não se pode explicar com palavras.
Seu chefe e patrocinador puxou-o pelo braço para irem falar com algum figurão do esporte e disse à sua filha que já voltaria. Ele foi mecanicamente levado, enquanto ela se afastava na direção de uma das mesas.
Ele voltou a pensar em termos de tornar-se um corredor, devia conectar-se a outros possíveis patrocinadores e por isso não a viu mais naquele dia.
Os dias se passaram, ele estava em uma aula de anatomia na faculdade, onde os alunos – todos em pé – observam os professores darem os nomes dos ossos de um esqueleto de algum doador, montado com arames.
Deu um passo para trás para ver melhor e esbarrou em alguém, virando-se de imediato para pedir desculpas. Ficou frente a frente com ela, reconhecendo-a prontamente. Antes que pudesse imaginar se ela o reconheceria, ela disse: - “Olá, que surpresa, não sabia que você era desta classe”.
A conversa mal iniciada, encerrou-se pela advertência do professor: - "Vamos fazer silêncio?"
Ao final da aula voltaram a conversar e ele, de forma absolutamente não usual disse a ela: - “Puxa, parece que não querem que a gente converse, primeiro seu pai me arrasta a falar com os empresários, agora, mal abrimos a boca e já levamos uma bronca do professor...” – e continuou – “Vamos tomar algo no ‘Amarelo’ (Amarelo era o nome de uma lanchonete perto da faculdade) está muito calor..!?"
A noite já avançava pela madrugada quando a moça da lanchonete disse que eles estavam fechando. Haviam ficado lá por horas e nem notaram o tempo passar. Notaram muito menos, quando sentados no banco da praça o céu começou a dar ares do dia nascer.
Meio sem vontade e sem jeito, decidiram ir embora e ele a acompanhou até a porta da pensão onde ela morava. Ela novamente ofereceu-lhe o rosto para um beijo de despedida, mas quando ele se aproximou, ela virou-se de frente e beijaram-se calorosamente.
Não esqueçamos que isso acontecia em 1975.
A relação entre eles evoluiu rapidamente e com a mesma velocidade recebeu a desaprovação da mãe dela que sonhava em casá-la com um pretendente rico que orbitava a casa dela na Capital.
Ela repugnava a insistência do rapaz, a quem já declarara não haver a correspondência de sentimentos, mas ele não desistia com o apoio de quem desejava fosse sua futura sogra.
Indiferentes a tais pretensões, eles viviam uma vida de sonho: ele seguia vencendo provas e isso lhe rendia recursos, convites, viagens. Ela tinha os mesmos gostos dele: música, comida, lugares. Conversavam longamente por horas, estudavam juntos, riam juntos. Viajaram por toda a América do Sul. Mas, o que eles de melhor e tinham em comum, era terem decidido que iam ficar juntos, começar uma família e viver a vida que tivessem pela frente, juntos.
Já havia se passado quase 2 anos e naquele sábado ela tinha um casamento de alguém da família e ele foi convidado a acompanhá-la. Ele tinha um compromisso mais cedo e viria de onde estava para buscá-la e irem juntos. Mas o destino disse que o compromisso dele ia demorar uns minutos além do previsto.
Não era fácil comunicar um pequeno atraso na época, nada de celulares ou redes sociais, apenas o velho telefone fixo.
Ele ligou para avisar que se atrasaria, talvez quinze minutos, porém iria busca-la mesmo assim, mas quem atendeu foi a mãe dela. Essa recebeu o recado e “gentilmente” se propôs a avisar.
Era a oportunidade que uma mãe que queria interferir em um relacionamento esperava. Disse à filha que ele ligou para avisar que a encontraria na igreja, mas o ‘rapaz’ as levaria em seu carro. Ela relutou, mas não conseguiu falar com ele e acabou aceitando.
Ele havia acabado de passar na casa dela e a empregada contara o que se passou, estava nervoso, irritado com aquelas atitudes, esperava que ficassem juntos de vez e tudo aquilo acabasse.
O trânsito no cruzamento à frente estava totalmente congestionado e ele não teria a chance de desviar e tentar outro caminho. Passaram umas pessoas do lado do carro dele que vinham do cruzamento e ele as indagou o que estava acontecendo.
“Um acidente horrível” uma delas respondeu. E ele pensou que era só o que faltava. Iria se atrasar muito mesmo. Muitos minutos depois chegava próximo ao cruzamento. Havia um ônibus e um carro quase sob o coletivo.
Mais alguns metros e ele pôde ver o carro e seu sangue gelou.
Era o carro do pretendente. Ele abandonou o seu e correu lá, sendo tomado pelo desespero quando viu o corpo dela entre as ferragens. Ele atirou-se entre os vidros que lhe cortaram fundo, mas isso não importava, só queria tirá-la de lá ou nem precisava sair.
Os bombeiros só conseguiram contê-lo, pois já faltavam as forças de tanto sangue que ele perdera. Foi sedado e levado ao hospital. Quando acordou e teve alta do hospital ela já havia sido sepultada.
Durante muito tempo ele acreditou que a vida tinha acabado, não foi fácil chegar à aceitação que a vida, mesmo muito dura e triste, deve continuar. Depois de mais algum tempo, para ajudar a enfrentar a dor, ele resolveu escrever poemas.

Este conto é baseado em uma história real.
 
Quando o destino decide que somos apenas peças de um jogo de xadrez.

Desalento

 
As noites vem e vão e eu permaneço semimorto em minha solidão
No céu de parcas estrelas incertas não antevê nenhuma chegada
O negrume vaticina que esta dor será a minha inefável companhia
A chuva exalta as ausências desta vida, qual uma tristeza líquida

Vejo o gris de falsas conjecturas se sobrepor às cores da realidade
Um oceano de impossibilidades que me separa de um outro destino
Invento um colo imaginário a me resgatar dos suplícios do degredo
Em qual silêncio meu coração dilacerado se fez pequeno e oprimido

Sob o jugo do carrasco que acorrentou min’alma antes indomada
Tornando o ruflar destas asas inquietas em negras raízes silentes
Ora roubando o verso que diz do meu amor em rimas tão tênues
Ora em brados enfurecidos onde só resta uma poesia cabisbaixa

A palavra cedeu ao amargo e o que outrora era árvore frondosa
Hoje é uma acha de lenha, cativa, atada a seus próprios enganos
Nesses gritos que rasgaram meu peito e não calam um só instante
Que resultam versos sem sentido, frases insanas, ferinas e cruéis

Nos porões do meu ser, minhas idiossincrasias definiram meus atos
De tantos desvarios e desencantos, de tantas lágrimas derramadas
Mais tantas outras omitidas, forjaram minha têmpera contra o mal
Mas cada resposta que recebo, é uma nova pergunta irrespondida

Sigo nesta alameda de tumbas onde jaz minha olvidada esperança
A qual, sonho eu, possa estar simplesmente adormecida e intocada
No crença que assim disperse os fragmentos de toda dor que vivi
Para se erguer em meio a um campo de trigo num outono a porvir

Queria acolher teu sorriso e te ofertar uma aurora que não tenho,
Mas que eu a esboço como se tivesse e não fosse apenas um sonho
 
Desalento

O dia em que morri

 
Em meio ao silêncio, eu ouvia os passos da enfermeira no corredor
Havia o som distante de uma conversa, quando os passos se foram
Noite alta, no meu quarto lá estava ela vestida de negro a me fitar
Não fosse a enviada da morte, diria que seu rosto era quase sereno
Ninguém ao redor, um mesmo nó na garganta que impedia de gritar
Antes me impedira de respirar e meu coração parou, então ela veio
Com suas longas unhas, seu sorriso de enigma, ela seguia a me fitar
Sempre soube que ela viria me buscar, mas não tão cedo, não agora
Na minha mente se passava um turbilhão de imagens preto e branco
Era a minha história passada como um filme que eu não podia parar
E ouvia todas as vozes do passado, os conselhos que nunca escutei
Ela ficou a me fitar, impassível, comecei a caminhar na sua direção
Todas as imagens que surgem dentro de mim estão tingidas de cinza
Minha alma e mais ninguém sabe ao certo o que de fato me conduz
Eu sabia o tempo todo que viria o dia que as sombras iam me rodear
Todo inferno que eu vi ainda me limita, toda dor ainda me completa
Um mundo passou por mim esse tempo e eu assistia do lado de fora
Mas, a luz de uma pequena estrela brilhou no fundo do meu coração
Assim, ela desviou o olhar e eu vi dentro de mim meu verdadeiro eu
E de alguma forma decidi claramente por deixar o passado para trás
E eu aceitei a nova vida e agora eu vejo no que me tornei de melhor
Toda raiva se foi, toda angústia. Enfim despertei para o que é viver

Nenhuma mágoa, nenhum ato sem perdão, nenhuma discórdia vale a
pena nesta vida. A morte não vem antes da hora, você saberá quando.

Esta é uma história real da noite de 15/03/2015.
 
O dia em que morri

Longe

 
Longe
 
De cabeça baixa estavas e parecia que me fitavas
Teus seios afloravam da renda do vestido de festa
Na parte entreaberta sobre o teu ombro esquerdo
Nessa última imagem que vi de ti já não tinhas vida
A dor me trespassa o peito, já nem consigo chorar
Estendo a mão com tremor, alcanço teu braço nu
Tento te imaginar como há horas atrás e te cobrir

Palavras tínhamos dito, decisões seguras e rápidas
Decidimos com leveza as direções de nossas vidas
Pois sabíamos toda luta que teríamos a enfrentar
Para reunir nossas vidas e esperanças num futuro
Volto a nossa noite passada. Foi algo inesquecível
Cada uma era sempre como se fora a primeira vez
Mas esta não. É a última vez, jamais vais retornar

Sinto-me em um deserto de areias negras sob o sol
Elevo os olhos aos céus para buscar por respostas
Mas não vejo nada, não há uma luz, não há nem ar
Privado de ti me quedo vencido em meio a sangue
Porque queria te seguir, te rever dizendo que sim
Mas não tenho essa graça. É só silêncio e angústia
Não há um mínimo alívio para aplacar essas dores
Já nem vejo mais, escurece, ouço sirenes ao longe

Sabes quanto eu quis te tirar dali, trocar de lugar
Nas profundas chagas que eu mesmo abri em mim
Pensei que assim iria te seguir, te amar pelos céus
Estaríamos num espaço azul e anjos nos sorririam
Trazendo a ti de volta para meus braços refeitos
Mas tudo que encontrei foram somente sombras
De tanta tristeza esse meu coração quase morto
Vai revivendo solitário o ar quente daquela manhã

Este o retrato do mais triste episódio da minha vida. Éramos jovens, belos, invejados... Mas um lampejo do destino e ela se foi para sempre, num estúpido acidente de trânsito, causado por alguém que queria tomar meu lugar...
 
Longe

Dor e angústia protagonizam o show
Quando a noite vem, a mágica se faz
Nasce o poema das entranhas feridas
Então, abro as asas e voo ao infinito.