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Poemas, frases e mensagens de Mr.Sergius

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Mr.Sergius

Da dor de ser poeta

 
Se existe algo de justo na vida, todo poema deve ser lido
Vagarosamente, saboreando as palavras repetidas vezes
Cada verso pede um suspiro, que se guarde um certo ar
Para o verso seguinte. Cada verso pode ser um universo
Mas pode doer como dói o mundo certos dias cinzentos
Um poema pode ser profundo ou raso, banal ou efêmero
Pode ser efusivo e transbordante, qual um abraço amigo
Podemos erguer uns muros para nos escondermos da dor
Podemos construir nossa própria história de um paraíso
E os paraísos são tão fugazes, às vezes, tal qual um que li
O poema pode ser árido como há dias sinto dentro de mim
Correndo entre areias sem, desastrosamente, algum oásis
Como tentar uma inútil fuga, pois não se pode fugir de si
O poema pode ser um drama ou pode fazer pessoas rirem
Já nem sei qual destes amanheço para escrever e eu gosto
Sim escrever pode doer, quando fala das perdas e feridas
Mas temos que escrever, dar vida à poesia e só assim, viver
 
Da dor de ser poeta

Lamento

 
Lamento muito que um bom lugar
Permita a um canalha vir estragar
Manterei a esta flor e fita de luto
Até expulsarem de vez esse puto

A foto decorre da inércia de permitirem um desgraçado sem caráter no nosso meio.
Sinto-me como se os donos do galinheiro fossem amigos da raposa.
 
Lamento

Pateta

 
Andando na vida, fui pateticamente romântico quase sem limites
Até onde fui e as asas destacadas de meu corpo pelas tormentas
Até olhar-me fruto de todo arcabouço desta semeadura humana
Percorri espaços após espaços e ouvi as perguntas sempre iguais
Passei portas que fecharam às minhas costas qual fossem atalhos
Uma brevidade entre um século de silêncio e me chamaram poeta
Um galardão que não me fez enaltecido, mas serviu para somente
Lavar as mãos da dor acumulada como se fora a poeira do tempo
Foi escrevendo que pude entender o que não entendi só ouvindo
Tantas crenças falsas no brilho das letras de grandes cabeçalhos
Se espalham como um verdadeiro e fatal vírus a repetir a história
Ninguém se volta ao espelho já baço para admitir verdades duras
Dando preferência às miragens, ao certo bem mais complacentes
Ninguém expõe as ideias à luz ou as submete às rédeas da justiça
Mas escolhe o eufemismo que atenua erros e assim chamar de fé
Sustentando toscas assertivas, qual alcandorados sopros divinais
Assim cheguei à conclusão que a verdade de fato pouco importa
Antes, aquilo que cada um se arvorou em verdade para ter razão
Razão essa qual, a alguns tolos ou insanos, vale mais que ser feliz
 
Pateta

Pretensão

 
Era uma hora densa e isenta da melancolia cotidiana
Desprendida de todas certezas que são pagas a ouro
O astro rei deita-se no horizonte e a aflição me toma
Pois te busco uma rosa tão supérflua e tão essencial
Que cresce no penhasco, soprada pelo vento agreste

Já são cinco da tarde, uma febre imaginária me ardia
Ainda lá resta uma porção de azul, mas já há estrelas
Onde estará a rubra flor, dádiva das grimpas sem fim
Tenho pressa de chegar a lugar algum, quiçá um café
Tomo nas mãos, tão suavemente, o livro que não lerei

Tudo é fantástico, tão impossível, ouves essa música?
Sigo pela rua. Paro. Continuo. Lá adiante é o mundo?
Sobre a mesa, resta um braço separado do seu corpo
Ingrata perspectiva eis o seu dono ali, mas não a rosa
A porta está fechada para esse tanto de humanidade

É noite, e além dela, nada é certeza. Ouço um sorriso
Sigo até a esquina e meus fantasmas me acompanham
Toca o despertador transtornado, são seis da manhã
A luz matutina sorrateira, veio me apunhalar o sonho
Raia novo dia nesta vida proletária. Queria ser poeta
 
Pretensão

Sublime

 
O que seria de mim sem o sublime existir dessa moça
Que tomou o lugar de onde viviam angústia e solidão
Como não admirar a plenitude da juventude madura
Que concilia serenidade e graça, que nela florescem
Como não imaginar que é seu riso que move estrelas
E que a lua só brilha no céu, por inveja de seu brilho
Minha musa me fez cantar e me sentir livre se canto
Como descrever o inefável que ne acorda a cada dia
Talvez seria imaginar que a rosa vivesse eternamente
Antes dela, por vezes, tudo foi só o papel em branco
Sua vinda fez um murmúrio tornar-se a voz dos anjos
Ontem quando o poema era só um desejo da infância
Hoje faz estas linhas indomáveis, o longe é justo aqui
E quando a conheci, foi então compreendi a verdade
A vida necessita bem mais que comer, beber e dormir
Impõe sofrer para ser homem, amar para ser um deus
Não obstante, ela me fez mais, me fez renascer poeta
 
Sublime

Cores

 
E o poeta achou que ela se chamava Liberdade
Seus cabelos morenos, longos até o meio das costas
Uma história para se sentar e lembrar cada dia
Mas era nada mais que solidão, desvario
Nem se dizia que era tão íntima do abismo

À ruiva de sardas o poeta chamava de Vitória
Era bom andar ao seu lado descalço
Ao lembrar dela vinha um cheiro de jasmim
Ver o por do sol ou contar estrelas, mas ela se foi
Ah, mas a vida é injusta, a vida é mesmo assim

A última, de cabelos cor de ouro, ele chamou de Vida
A cada despertar tinha a calma do andante
Era bom o sonho pois se sonhava em conjunto
Seu horizonte lhe pareceu um céu aberto
Mas as flores, fúnebres, eram de alguém que partiu

Na guerra da vida, o poeta vive a dar piruetas
Como se fosse um pássaro bêbado a rodopiar no ar
Lutar contra esse silêncio que lhe encardiu a alma
Descobriu que as flores morrem sem água ou sem sol
Por que quando tudo acontece, já chega o fim.
 
Cores

Viagem ao Sul

 
Quão líricas serão as palavras que se desprendem
De minha boca nestes horizontes e ocasos rubros
Inspiração altiva e precária que tocada em beleza
Que estive assistindo lá do céu, nas asas do avião
Vem me rodear e me envolve neste pássaro de aço

Quão rudes seriam tais vocábulos se improferidos
Se o arco-íris não viesse colorir a garoa vespertina
Se no mistério da lua, não haja signos em ascensão
Cavalgaria, solitário, no dorso da noite emudecida
A desfazer todo quê de secundário que me habite

Tanto mais resisto, mais se firmam razões a resistir
Trajo-me de um azul profundo para seguir adiante
Bem além de onde as lágrimas dominam silenciosas
Levo comigo um amuleto da sorte oriundo do mar
O que era silente na madrugada, o verso desperta

Fala deste poema, da aurora, qual impera nos vales
Diz do alazão que, indomado, galopa pelos pampas
Suas crinas esvoaçantes, como pássaros arribados
Do olhar da prenda flui o sonho, o dia incendiado
Um calor inusitado, iluminado nas luzes de janeiro

Meu exercício é reinventar-me, e só me reinvento
Pelo anseio que me ouças e a palavra ganhe magia
 
Viagem ao Sul

Estranha Alma

 
Sou uma alma desnuda quando escrevo meus versos
Minhas mãos cheiram a alfazema e assim vão morrer
Quando o inverno chegar, usarei minhas meias de lã
Irei recordar o cheiro perfumado destas flores lilás

Sou uma alma que desconhece limite, sangue quente
‘Oriundi’, corre em minhas veias mescla com tropical
Mas nem por isso, se possível, vir perder a elegância
Tenho apenas um coração para tanta dor que sinto

Sou uma alma que gosta do verão, outono demora-te
Quisera fosse um lírio ou uma violeta, alma inquieta
Não gosto de dormir, mas durmo facilmente também
Adaptei-me ao mar, sou da terra, campo ou montanha

Sou uma alma que nada sabe, não tosca, porém, singela
Gosto de carícias e afagos, gosto dos ventos do campo
Penso um tanto nos sabores, nos suspiros e fragrâncias
Há vezes sou sequioso comigo e minha pena não calará

O corpo morrerá, a alma seguirá a escrever seus versos.
 
Estranha Alma

Destino

 
Tenho teu coração comigo é assim que atravesso os desertos da vida
Entre lendas e mitos o céu não é céu e o dia não é dia se tu não estás
O milagre teu do ser escorre até mim onde finca raízes onde quer vá
Já não receio os atos do destino, porque tua doçura irá me proteger
O que era distante qual as estrelas, está presente bem dentro de mim
Ao teu lado eu irei caminhar abandonando os silêncios e os segredos
Mataste minha sede, secaste a angústia, floriste minha árvore da vida
Dos teus gestos me visto, me fazes caminhar entre jardins do paraíso
A tua face aberta ao vento é o prodígio que minha alma pode almejar
Meu amor é a promessa que cresceu mais que a mente pode esconder
Pois és meu espelho, minha imagem, vamos juntos conquistar o mundo
Juntos assim vencer mesmo à morte, ignorar o que se chamava tempo
Este coração é teu e não sendo meu, eu te entrego meu reino do luar
A noite vai e o dia se inaugura azul, mas vem antes que o sonho acabe
 
Destino

Beija-Flor

 
O dia se dissipa em memórias duras e disformes
Ergo a minha armadura e minha máscara usuais
Não a causar ilusões, porém assim eu me blindo
Das agruras da vida. Em minha defesa me armo
Assim me poupo, quase ileso, de dores e sustos
O pássaro em mim se confundirá com os ventos
E o céu com as verdades que sempre irei primar
Vou escrever versos crus, sem diluir as palavras
Inserir loucos gritos entre as páginas deste livro
Olhar o mundo impiedoso com olhos de estátua
Deixar a angústia e a incerteza do lado de fora
É certo que tens algo a dizer que valha atenção
Mas não com os lábios de beijar, esses de sonho
Com o que é espelho d’alma, dissolvido em boca
Chamar, sem que se precise dizer nome nenhum
Sem restar emoldurada, perdida em uma lingerie
A esperar pelo mapa prá minha cama, meu gueto
Forrado de lírios, delírios rolando ladeira abaixo
Como gazela saída do filme que não se entendeu
Não há cachoeiras azuis, ou primaveras, lamento
Só você e eu, francamente espero que isso baste
Para expor, num voo de beija-flor, quanto te amo
 
Beija-Flor

Poema em pedra e água

 
Eu vi o amor mudar o abismo onde se desenhava a solidão
Eu vi as águas desatadas de formas caminharem até o mar
Eu vi a noite livre da sombra desfraldar o manto da poesia
Eu vi a palavra dispersa da boca se transformar em poema

A estrada se desenrola e separa a paisagem em dois lados:
A palavra crua e indomada e o poema, um sonho de papel
O poeta toma da palavra dispersa e nela urde uno o verso
O verso a inundar o papel de líquidas vogais e consoantes

Qual o artesão cinzela o mármore na sua faina de criação
Exercitando as quadraturas geométricas, a vida em pedra
O poema é a estátua em movimento no seu fluir do tempo

Tal o vento que molda a pedra e define o contorno do rio
Que a água um dia preencherá na sua ordenação fluídica
O poema é a corredeira veloz, mas também doce remanso
 
Poema em pedra e água

Por Amor

 
Este poema, como uma espécie de homenagem ao centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, rompe com meu estilo usual de escrever, sem abandonar a veia surrealista, entretanto, que é minha forma de dizer que a poesia foi, é e sempre será um gesto de rebeldia.

Ah vida, o que não fiz por amor
Janelas abertas, mundo fechado
Versos avessos, verbos errados
Buscas concretas, edifícios virtuais
Ruas sujas e caminhares descalços
Absolvição silente ao pé do cadafalso
Por amor, eu me fiz em verdade
Sofri, calei, berrei sempre sem rima
O ser que fala, aspira ao dom de criar
Perfaz do sacrifício em seu desejo
O agridoce sabor do desconhecido
Meu próprio sabor de ter existido
Por amor vivi, morri, sangrei, sorri
Sonhei sonhos leves, sonhei pesadelos
Briguei co’a escuridão na paz da luz
Ao pé dos ipês, ouvi o bem-te-vi
Quis ser o céu azul, o sol, o sal, o cio
Ao ver a revoada das andorinhas
Sem medo me lancei em ti, vida
Nas águas, nas marés, na chuva
Fui incompreendido, obra inacabada
Por amor, fui pai e, assim, o filho
O poeta (o homem) é apenas sôpro
O futuro é o hoje, o oblívio da morte
Diga-me o que resta fazer por amor?
 
Por Amor

Rastro

 
A noite emoldurada de trevas deixa seu rastro de serpente
Seu som, gritos negros, arremedos de austeras lamentações
Rompe o silêncio sob o céu no azul profundo da madrugada
Imagens tintas de sonho ao brilho espectral dos relâmpagos
Inquietos, mas que trazem o encanto e clamor da primavera
Com seus olhares secretos, seu hálito floral dourado de sol
E o poema se faz leve como pássaros nas árvores da palavra
Feito de seus corpos de cristal, a refletir os brilhos celestes
O poeta afogado em tantas estrelas, perquire o firmamento
Alçado no véu noturno e o verso brota em sua mão trêmula
Para despertar da quimera um som de carro vem da estrada
Tão veloz reverbera na sua pressa e mal devolve a realidade
Que já sua presença apressada, logo se perdeu na distância
São qual sombras aceleradas a passar pelo asfalto das horas
Linhas não escritas que se desenrolam dos carretéis da vida
 
Rastro

Jardins

 
Agora que o inverno derrubará as folhas
avermelhadas pelo outono que se retira,
Agora que o verde das colinas é apenas
uma lembrança qual o trilar dos pássaros,
Já ouço o chamar cinzento das nuvens
à chuva fina que esmaece todas cores.
Caminho à beira das casas, despercebido,
enquanto meus lobos correm nas planuras.
Livres pelos campos onde certamente estás
Ainda sinto em mim o toque de tuas mãos
vívidas a ansiar pelo encontro das minhas
Sigo andando e meu pensamento é distante
Como os jardins floridos da adolescência.
Recordações assíduas de cada dia sem sol
Na distância de teus olhos, doces e vivos
De tua voz mansa e quente a me chamar.
Cada detalhe de tua existência vive em mim
Prossigo, em silêncio com a voz embargada
Meus versos partidos numa poesia inacabada
Na tua ausência o inverno jamais me deixará.
 
Jardins

Zero

 
O coração sofre. Alheio à ambivalência do contexto
Na sua fome de dias de glória, outrora sobre o zero
Enquanto os ponteiros dançam sua transcendência
O espaço fora do telúrico ensaia suas discrepâncias

Pelos prados, sou o barro vivo a metamorfosear-me
A seguir inefavelmente dissociado de qualquer eixo
Tal fosse um astronauta a descortinar o jamais visto
Qual se situa nas coordenadas entre o céu e o nada

Para cá, o rio toca a sinfonia da água se esgueirando
Entre as pedras, tudo maquiavelicamente conduzido
De inescrutável forma a causar os tão distintos sons
E o coração não lhes grava a diferença, apenas bate

Mergulha nas águas até crer que vai cessar de bater
Contudo, aflora à superfície solerte às novas perdas
Pois inda guarda os detritos da fé na face insultada
Extáticas memórias, no fragor de gestos de virtude

Ergo-me sobre meus pés, poder herdado desde a luz
Levo meus versos ao vértice na tangente do infinito
Entre pares descubro a mesquinhez e suas tecituras
Um terrível abismo remoto e sempre instransponível

Quando na escala de estrelas, vão se somando zeros
Vendo contingências imponderáveis, ilógicas e irreais
Torno-me impassível e orbito na delícia de perder-me
Desnudado, não maldigo ou abençoo, sou tão-só eu!
 
Zero

O último trem

 
Tênues imagens respiram no ar rarefeito da minha memória
Que conspiram silenciosamente a parecer que de fato as vejo
Não como miragens ou ficções que são, mas reais e presentes
Tudo acontece categoricamente contra uma nova distância
De seres que nunca estiveram presentes, todavia são um só
No outro lado da rua as pessoas transitam, inscientes a tudo
Na gare da imaginação o trem já embarcou seus passageiros
Os trilhos dessa estrada de ferro seguem a direção dos olhos
Fixos no sonho adiante, mansos, perdidos na distância azul
Todos os viajantes cada um sentado no seu lugar, soa o apito
A música toca suave nos vagões preenchendo-os de nostalgia
As horas impulsionam, discretas, os ponteiros de meu relógio
E a lua, completando o cenário, traça seu arco no céu noturno
Brancas nuvens leves que imitam ovelhas sob a prata do luar
As frases que nunca foram ditas amordaçam minha coragem
Desembarco na estação da desesperança com todas as malas
Meu trem segue deixando um rastro de fumaça branca no ar
Minhas imagens e miragens se vão com ele sem dar um aceno
Aos poucos calam no silêncio dessa plataforma sempre vazia
Quantos trens haverão de partir até ter meu coração de volta
Prendo a respiração e as lágrimas. A sina do poeta é ser assim.
 
O último trem

A todos luso-poetas

 
Poucas vezes estive em lugares onde pude ser 'eu' de verdade. Não que eu seja uma pessoa fácil de lidar, um primor de atitudes. Mas ao sentar-me e escrever, parece que incomodei as pessoas um tanto mais. Fui criticado e minha pretensão de escrever um livro adjetivada de absurda (hoje já caminho para completar o terceiro).
Também me senti incômodo por pintar e porque para pintar tinha que deixar meu cavalete montado no meu escritório de casa por vários dias. Não sou um pintor proficiente, estudado, formado... sou um autodidata que se arrisca às formas.
Aqui tenho podido ser eu, deitar às linhas versos que brincam com a minha querida língua portuguesa, ler versos formidáveis de poetas maravilhosos, sentir-me entre pares.
Com a aproximação do Dia Mundial da Poesia [21 de março] quero antecipadamente deixar aqui minha homenagem a todos os escritores e poetas que fazem deste lugar, um ótimo lugar para se estar. Grato a todos pela sua leitura de meus escritos e por permitirem que eu cresça lendo o que você escrevem.
Salve Luso Poetas, lusitanos ou brasileiros, pouco importa. Salve a todos!
 
A todos luso-poetas

Lucidez* (por alguém que conheci)

 
* Ela o escreveu como comentário, mas tal poema, não cabia só num comentário e deveria exibir que tinha vida própria, assim pensei um dia

Lucidez*

pelo sol poente dos meus olhos
sinto a carícia imprecisa do poema
a solidão do verso resplandece
uma lua sinuosa espreita
o céu da minha mente

astros rebrilham na fronte
cálidos sons prenunciam
é chegada a hora do sonho

convulsa
-no peito extremado-
constelação de estrelas-letras

agregadas ao calor dos dedos
palavras inquietas na alva
dançam no afago da utopia
há uma desnuda certeza

- nascemos num instante tudo ou nada-

*K
 
Lucidez* (por alguém que conheci)

A palavra

 
A palavra pisada é a cidade
A palavra segredo é uma criança
A palavra medo está na distância
A palavra água é uma meia verdade
Que brota dos poros de quem sua

A palavra carinho é uma rosa
A palavra céu é a cor azul
A palavra longe está lá no sul
A palavra ira é uma coisa furiosa
Que ferve no sangue caído na rua

A palavra jardim guarda lembranças
A palavra silêncio é algo não dito
A palavra borracha corrige o escrito
A palavra alegria pertence às crianças
Que se soubessem o futuro não iriam crescer

A palavra ar é o pulmão que respira
A palavra deserto é coração sem amor
A palavra sol é feita de luz e calor
A palavra adeus é de quem se retira
Retiro-me, mas fica experiência de escrever
 
A palavra

Janelas

 
O falso brilho das promessas é o perfeito retrato do que é ilusão
Nossos sentidos se lançam a acreditar que tudo será como dito
Os corredores e cômodos silenciosos e vazios são a prova disso
A janela aberta da casa, ao vento, imita asas, mas não há o voar
E o que restou para sonhar do desejo de viver novos horizontes
É cais varrido pelo aferro das águas de tantas e tantas partidas

O sol inclemente cresta o chão à margem do rio de fato distante
Mas não há o porto a ancorar nestes tempos tão ermos e áridos
Olhar afora dos batentes da janela pode trazer uma ideia fugaz
Um pensamento, por certo irreal, de que haver-se-ia a liberdade
De se lançar noutro voo às cegas e afastar o que não contenta
Na quimera de que o horizonte tão ansiado poderia ser logo ali

Mas é tudo tão remoto e já não se sente a textura das estações
E não há o conhecimento que te dê à mente os milhões de asas
Que são hábeis a reafirmar que o amor existe e é quanto basta
Nem a esperança que insiste ficar pela crença que deve resistir
Tal esperança nada mais é além de um tecido puído pelo tempo
Estendido no caminho de tanto tropeço nas dores da revelação

A vida cobre-se de equações mal resolvidas, de flores efêmeras
A vida é uma primavera de pétalas caídas, de adeuses precoces
Por isso sigo em meu desterro, sem sorrisos, atrás desta muralha
Mas aguardo o milagre que um som de violino trazido pelo vento
dissolva o silêncio e permita que a minha mão toque a tua e que
À sombra dos girassóis nos mostre o caminho de volta ao amanhã
 
Janelas

Dor e angústia protagonizam o show
Quando a noite vem, a mágica se faz
Nasce o poema das entranhas feridas
Então, abro as asas e voo ao infinito.