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Poemas, frases e mensagens de Sergius Dizioli

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Sergius Dizioli

Tragédia

 
Porque torno a te escrever se teus olhos verdes não irão ler
Pois não se trata de escrever o que fomos tu e eu, certo dia
Fosse pela tragédia de alguém que contasse alguma história
Mas sou eu o que amanhece de olhos úmidos a cada manhã
Como me pesa ter as asas úmidas, como me pesa esta pena
Minha tragédia, razão do abismo, foi não poder despedir-me
Não poder como a quem parte, desejar boa ventura, vá bem
Foi apenas um adeus caprichoso, mas que nem mais importa

Não se conhece o que há depois da morte, qual sorte d’alma
E depois que fechastes os olhos, ainda há cor? Ou há rumo?
Aqui a tragédia decora o quadro e a caminhada fica tortuosa
A lembrança é uma síntese vermelha, cravos sobre as águas
No papel manchas negras para ocultar essa dor sem sentido
E volta-se ao velho livro já lido uma e outra vez e mais vezes
Que mesmo assim vai murchando qual secam as flores rosas
Na paisagem crestada que, então, tem orlado minha estrada

Com remos de palavras venho remando entre ondas escuras
E as sombras podem se confundir com o alento e com flores
As flores que se alimentam de lágrimas, sem nunca ter nome
Dos nomes e nomes que eu disse depois e só chamei o vazio
Por vezes os poetas inventam palavras e as palavras mentem
Ouvi teu nome e não estavas quando a morte bateu à porta
A lembrança é a síntese de tudo, do olfato, do gosto, da pele
É também da tragédia, o dia seguinte que jamais se quis ver
 
Tragédia

Retalhos

 
Há alguns dias que a inspiração se escondeu
Nesse tempo rapinado de cotidianidade nua
Nestes tempos que meus pássaros agonizam
São-me tempos em que amordaçam os anjos
A morosidade abrumada, tempos tão iguais
Renego-me a mera condição de espectador
Solto amarras vibro música, pintura, poesia
Resisto, me ergo, experimento abrir as asas
Rebelo-me aos anjos, pois que tenho a alma
Ainda que não faça da noite uma alvorada
Não me afogo com essa sede de horizontes
Essa sede de chuva em tempos de desertos
No exílio do orvalho, no alarido dos órfãos
Na sede uivante, desaguada que nos cerca
Renasço a poesia, sôpro do recreio infinito
Por libertar-me os pássaros de um desterro
O seu folguedo de asas, imaginação insone
Tece alinhavos de voo, aventura de cristal

Aos críticos de plantão: Eu sei que sopro (ô) não tem mais esse acento diferencial... mas eu não gosto. Fica, por vezes parecendo sopro (ó). Pois bem.
 
Retalhos

Infinito

 
O cinza amordaçado no arrebol é a minha voz que lá canta
No meu desolado voo de pássaro na chuva, a chegada crua
D’um murmúrio liláceo incessante quando vêm o dia e o sol
Que não repõe a palavra mutilada quando era apenas noite
Quando a abriguei na garganta aprendendo escalar o vento
Um pássaro morto não voa, só retrata a solidão azul e alada
Que o silêncio a fez prisioneira, nas mãos caiadas da bruma
Os fidalgos senhores do silêncio, não querem o meu cantar
Mas não aprendi tramar jaulas e nem aprendi erguer muros
Quanto chamei, quando chamei, tenho chamado até nunca
Confiei ao vento meu desejo de estar sem idade, sem medo
Sem piedade por mim, sem uma morte da qual me esconder
Também sem querer ser anjo ou profeta, sem ferir ninguém
As pedras, as plumas, as folhas do livro e o fogo subjugado
Sejam apenas o conhecimento do mágico delírio que é amar
Não vim mudar a civilização, só escrever um poema à moça
Tirar a máscara e, na última linha, dar de cara co’o infinito
 
Infinito

Noturno 6.8

 
***
Quando morri - e esta não é uma retórica ou força de expressão, morri de verdade por alguns minutos em 2015 - tinha certeza que jamais voltaria a 1. viver; 2. escrever; 3. beijar de novo; 4. como consequência do no. 1, fazer outro aniversário.
Era fim de tarde e quando anoiteceu o destino quis que eu voltasse a fazer tudo isso. Faltava exato 1 mês para meu aniversário. Eu tinha 59 anos e decidi que se vivesse, a cada ano no meu aniversário escreveria um poema e se chamaria Noturno.

A fria imagem de mármore cinzelado, imitando pássaro
Que pulsa na paisagem qual o conluio entre dois reinos
Amanhece em meio à chuva neste tempo de lembrança
Ao qual o poeta reconhece, mas nem sempre o realizou

Ser fulgurante outrora nascido sob o manto dos astros
Sua cintilação conduz-se no negro voo no seio da noite
A nostalgia realça seu brilho e vem para inaugurar a luz
Perpassa o ouro em suas palavras, qual o fogo da ilusão

O pensamento que jazia adormecido, ressuscita seu ser
O lobo que sempre alimentou e com quem viveu em paz
Na visão interior de modo ambíguo em fumos de alegria
Imagem de um sonho que se esquiva de toda a ausência

Guarda um jeito perturbado, tanto áspero pela angústia
Ora a face mais serena, calada, ora o gárrulo, o espanto
De suas prédicas negras nos amargos versos cicatriciais
A sombra que invade o carvão do silêncio d’outros dias

Em meu voo solitário observo meus inimigos à distância
Os quais atraio com o suor de falas acesas e inflamadas
Aqui descortino meu ser, pelo avesso, meu avaro andar
A brandura que não ostento, como a todo corpo de pó

O tempo marca mais um momento de um zodíaco triste
Além dos campos áureos de trigais e lilases de alfazema
Em que o vento balouça novas hastes florais nesta vida
Em memórias onde também se agita alva roupa no varal

O abandono do pássaro pulverizado repetido outra vez
Nesta hora de um silêncio já cansado de tanta infância
 
Noturno 6.8

Estampido

 
Deixa que a lágrima ultrapasse a margem de teus olhos
Deixa que o som profuso das ondas do mar te acaricie
Ainda assim segue tua ronda cantando com o coração

Encontrar a luz do sol é apenas uma questão de tempo
Cuidar que há caminhos de paz ou caminhos de guerra
Caminhos que podem fazer do teu irmão, o teu inimigo

Deixa que o eco de nossos passos surpreenda na noite
Deixa a tua alma segura entre terras firmes de sonhos
Ainda assim saibas que as sombras estão em equilíbrio

A alvorada trará a nova claridade e a água a seu curso
Toma-me a mão enquanto o sol brota vermelho do mar
Será assim que venceremos os atalhos até o dia nascer

Deixa que através da noite os sonhos imolem tua pena
Deixa que o silêncio cale a tua culpa diante do olvido
Ainda assim colonizadores da tristeza falarão de amor

A música da noite virá a julgar teu medo, tua pobreza
Se te perdes a balbuciar nos idiomas que outros falam
A falar sem amparo ou encontrar a palavra apropriada

Deixa que se desvendem céus sobre vozes e o silêncio
Deixa que a sombra cubra as sendas e a transparência
Ainda assim verás homens solitários, mulheres sozinhas

A vida é canção inescusável é preciso ferir-se, afundar
Buscar o estampido nunca pedir perdão de ser como é
 
Estampido

Alice no país da poesia em 3 atos.

 
I
Arco-íris, diante dos olhos, pulsantes e a via-láctea na bainha
Magnitudes indistintas, meu sangue irriga a venturosa árvore
Na parte da noite que não brilha, o opaco a tingir suas águas
Um olho de luxo, outro simples, a água, o universo e este sol
Não é meu sol é o verde. O segredo da vida é o seu não estar
Estas meninas e seus corpos, teus copos, teu corpo cascavel
Folhas, ramos, flores, frutos de ouro essa é a nossa mortalha
Piam pássaros vermelhos, o cio em teus olhos vermelhos, zelo
Douradas prímulas, plúmbeas plúmulas mesclam luzes e olhos
Nestes traços que surgem no livro, à espreita atrás da cortina
II
Deixamos a raposa, as uvas e o lince voluptuoso, zooteca zero
Nos querem nus, a desatar os nós, um oásis ao pobre escriba
Signos ígneos negros, ocas marcas, ouriços, ouro, opacidade
Alegram-se com a letra que mancha o poema monogramático
Tudo de que te desfazes e dissipa no escândalo nu do sonho
Às vezes um rosto apagado, boquiaberto, um pássaro súbito
À noite na casa vazia sou o sapo que espera o beijo salvador
O dormir que não se dorme, mas esvoaça em ritmos ocultos
Despido de pé no chuveiro, meu permanente e ácido humor
Minha expressão imprecisa para um gorjeio mais prolongado
III
Há que se conhecer a morte e seu desejo de dureza infinita
Em plena alvorada, o que possa ter de consciência culpável
Olhamos a obra, tal algo incontido na erudição dos saberes
O livro, esse objeto apaixonado, se amplia se impõe e reduz
O que há de confuso em um breve caos não é amordaçável
A liberdade viva é um déjà vu, o recorte de cenas obscuras
A serpente que acena ao falcão lá acima um pacto de viver
Devemos permanecer sempre crianças e mais que um sonho
Quando se decline o nome do gato, o gato salte sobre o muro
Despido ao chuveiro, vou desdobrar meu punhado de sílabas
Tecer à mesa do café encantadas imagens, dar início à manhã
 
Alice no país da poesia em 3 atos.

Folhas Caídas

 
Selaste meus olhos com os lábios
Deixei, para não poder ver nada
Mas sentia tua respiração perto
Sei que podias me sentir também
Embora sem eu saber nada de ti
Eu podia jurar, não me importo
Dançamos, rimos, voamos juntos
Nesse abraço me fizeste amor
Choraste comigo, valeu a pena
E agora que tudo já está acabado
Só restaram umas belas memórias
Mas, não, eu não queria saber.
Agora que você se foi eu não sei
Como eu de verdade me sinto
Dispo a esperança de vê-la de novo
Eu sei que nunca mais te verei
Justo agora eu acho que te conheço
Posso dizer ainda que eu me importo?
 
Folhas Caídas

Haikai Floral

 
Um quadro!
São as flores da prímula
quando tremula

Floral dissolvido
pelo vento perdido
vagam sem fim

Suavemente
caem gotas de chuva
em minha janela
 
Haikai Floral

Incêndio

 
O incêndio instalou-se no meu peito
Entre meus braços trêmulos
Choro um não regresso
No negrume da noite
De céus sem estrelas
E vagalumes despedaçados
Nunca saberemos porquê
A certeza de uma perda
O sangue nos olhos
Uma última pausa, respiro
Arde-me a ausência
A cegueira eclipsada
No temido espaço do não
 
Incêndio

Traças

 
O assovio do vento soprou folhas da veneziana
Os espíritos famintos clamavam na noite cruel
Um gemer de afogados, os barcos na tormenta
O grito longínquo no jardim, ecoou na calçada
As árvores frondosas se desnudam, uma a uma
Foi assim que partiste deixando o silêncio aqui
Nem olhou atrás, na vereda gris da madrugada
Agora estás de volta silenciosa qual uma serva
Servil como uma gueixa, sem dizer teu intento
Espreitando o escuro qual um estranho animal
Esperarás que eu te receba, te ofereça flores
À sombra daqueles dias, te digo, tudo morreu
Da semeadura vã, vem uma colheita arruinada
Adeus cerejas maduras, calda doce qual o mel
Nem as frutas, os lírios ou mesmo os rouxinóis
Também secou-se nosso rio povoado de verões
Não há caminhos a seguir num mundo de traças
Pela garganta o gosto amargo d’um nunca mais
 
Traças

A dor de escrever

 
Há vezes em que escrever é uma dor sem contornos
Algo que viaja dentro de nós é, por vezes, tão infeliz
Qual um brilho negro, um fulgor trazido pela solidão
O rigor da contradição de estar parado movendo-se
No paradoxo que não se cala além do entendimento
É o desamor, a fúria, o drama de um inimigo interior
Que, perturbado, se descobre na própria identidade
É fogo que não queima, o corpo não cintila e se cala
E reverbera o eco esquivo de suas ocultas fantasias
O quadro interminado em que o vazio se multiplicou
Até pergunta-se do fluxo sonoro de antigas palavras
A cor vibrante do escrito, viva nas primeiras fábulas
Parece não se recompor, límpido como era no início
Mas se apresenta frio qual palavras de um geômetra
Que a plateia ouve calada, sem qualquer sentimento
Teria a sombra devorado o brunido das conjugações
Teria o poeta partido, se tornado tão só um fingidor
Vou negar na certeza de quem já jogou com a morte
E venceu por amor, assim descobriu as próprias asas
Pois quem ama luze, viaja a estrada além da tristeza
E preenche a angústia nas trevas onde se concentra
Reinventa a esperança num amor que cale nossa dor
Faça do drama o risco de quem vive só da sua forma
E no tumulto do espaço sabe a vez da fala da paixão
 
A dor de escrever

A Morte do Silêncio

 
Desenho com o dedo tua sombra na sombra da noite
Para te reter em mim e guardar a tua lembrança nua
Essa flor despetalada no horizonte, diante da janela
Onde a lua, distante, desponta atrás das montanhas
E os meus olhos vão te buscar, te achar e te admirar
Sinto teu palpitar na solitude aparente deste abismo
Onde um pássaro voa e cruza o céu. Grito teu nome
Foi assim que vieste e me apunhalaste com teu amor
Trespassando meu coração e assim me furtar a alma
Para te estenderes por meu corpo até que te habite
Com meus pássaros selvagens indomados e famintos
E o desejo liberto no ar invadir os espaços do vento
E o manto de noite restar pleno de signos e carícias
A névoa é o olvido e a insônia transborda qual o rio
Que o calor de tanta loucura transforma em chuva
Devolvendo à vida o fruto que um dia fora semente
Na calçada o silêncio jaz abatido em teus sussurros
 
A Morte do Silêncio

Coletânea

 
Guardo em silêncio traços milenares do fundo d’meus abismos
Minha vida é uma coletânea de despedidas nas pedras pisadas
Nos caminhos que escolhi. Ah quantos espinhos eu encontrei
Amargamente, um dia descobri que viver não está nos sonhos
Mesmo que os dias amanheçam das flores nascidas no orvalho

Na poeira de chão sobre minhas asas, uma estrela entardecida
Uma fileira desverdecida, nos caminhos tantas vezes trilhados
Já não deixo meus rastros no fogo do ocaso em voos infinitos
Confundi no tecido dos metais, os sorrisos, dores e os dramas
Mal esquecido por Deus, encadeando fogos de outras tramas

Imagino que o silêncio me faça esperar por milagres miseráveis
Se onde eu esperava ver um batismo, vi na verdade um funeral
Mas virei-me a horizontes plenos de luz, para sentir nos astros
Meu tempo se suavizar entre a areia de luas e traços estelares
Embriagar-me, quase ali na esquina, de um florido dia de verão

Vou reviver em mim o menino qual deságua nas acéquias azuis
Que sonha com amores e seus perfumes flutuando pelo vento
Com parques de sombra num domingo distante e sem passado
E num ato de amor desesperado, semear o eterno para sonhar
Que o tempo está dormido e toda a ventura nunca vai acabar
 
Coletânea

Poço de Saudade

 
E eu que te procurava nas esquinas dos meus medos
Mas eu te encontrei onde o vento dobra todo o olvido
Onde de paixão adormecida tinhas as mãos trêmulas
Com os olhos qual pássaros que voam para o infinito

Convidamo-nos brincar junto a um poço de saudade
Foi assim que pude abdicar de minha própria solidão
Permitindo que toda a loucura se fizesse de ternura
No encontro de nossas bocas, calor fugaz dos beijos

Senti teus abraços ternos permutarem meu caminho
Que dos abismos parti para a cintilância das estrelas
A minha voz explodiu em um arco-íris de eternidade
A escrever a cor de poemas que gravaram teu nome

Mas o destino te levou embora. Tormenta no corpo
A angústia gira na alma, quero fugir e não há saídas
Na estrada bordada de sabiás, há espelhos rompidos
Eu quis que viesses e me levasses para nosso espaço

Queria ouvir tua voz, ver a luz guia que tu emanavas
Mas só encontro esse caminho interminável ao nada
 
Poço de Saudade

Festa nos Campos

 
Houve, há tempos, nos campos da minha vida uma primavera
Vivia-se toda a ânsia que o entardecer poderia nos oferecer
Cada rosa não era apenas uma rosa senão a beleza realizada
Caminhei para essa festa vestido com meu melhor traje azul
Mas ao chegar as luzes já apagavam e não havia mais a festa
Um odor de perfume finado flutuava no ar da noite deserta
Havia pessoas, as pessoas assim proferiam palavras dispersas
Eu fui-me pela vida, uns falavam de justiça, outros de glória
Alguns sabiam nomear as estrelas ou diziam palavras solenes
Eu que queria as palavras sensatas apenas ouvi más palavras
Havia livros aonde havia palavras de uma poesia já sepultada
Livros de uma ciência em que todas as noites foram eternas
Sem qualquer luz nos olhos, mãos envelhecidas e isso é tudo
Caminhei para a festa do mundo, mas luzes se iam apagando
Era de campos verdes onde despontou a primeira primavera
E a alma que de tudo era mais pura, era mais só e mais triste
A ave que falava, a arvore que cantava, não se as ouve mais
 
Festa nos Campos

Vitrais

 
 
Ah, eu queria impedir a aparição de tua figura
Fechar com cadeados a tua lembrança em mim
Silenciar o teu perfume nesta teia tão confusa
Nutrir o olvido c'as exuberantes imagens tuas
Fingir que, de repente, não me roubas o fôlego
Que os teus olhos tão mansos quão profundos
Já não me fitam de soslaio, quando me distraio
Teu corpo nu, demasiado meu, tão vertiginoso
Que, por decoro não revelo, tanto me inundou
Felina, doce e incontrolável ignorando as portas
Que eu punha para negar a nossa cumplicidade
Disso tudo, agora me sinto incapaz de esquecer
Ao invés, faço, à maneira de um eco, é ressoar
Eu te multiplico, reinvento em tantos espelhos
E já que estou como um louco, que fosse feliz
Na sonoridade de tua lembrança que me toma
Dourada, marcante, por vezes, serena e ligeira
Por vezes com a profundidade de um lamento
Noutras desesperada e violenta qual o silêncio
Mas sei que falharão as tentativas silenciar-te
Pois não há como calar algo da história de nós
Que vive a buscar mais, mas jamais incompleta
E o tanto que já te quis, derramei neste poema
Onde eternamente bailará tua luz intrometida
Através dos vitrais dessa minha eterna solidão
 
Vitrais

Nova palavra

 
A palavra procura o papel qual pássaro que atravessa
O céu do crepúsculo sem deixar canto e nem marcas
Já alcançou aquele sonho na velocidade da realidade
O futuro nada é mais que uma atitude do dia de hoje

A palavra se projeta qual flecha atirada ao horizonte
No hermético labirinto de cruas vias no espaço-tempo
Em sua intenção reveladora e indefectivelmente letal
Tocar no que apodrece, libar à força venenoso olhar

A palavra é quando crisálida e também é se mariposa
Qual a semente busca terra fértil e cai no chão árido
Já crestado de pedras pela incidência das desilusões
Mas brota coberta de um ontológico manto piedoso

A palavra descreve paisagens semânticas e vida viva
Ou que habite um falso reino raras vezes idealizável
De folhagem azul, desmoronada fonte de água pura
Ou outra beleza mal inventada no sol do amanhecer

Quando a palavra fala de amor, fala só o eco estético
A frágil andorinha na eterna busca d’um verão fugaz
Por vezes morre vencida pelo inverno em meio ao voo
E a arqueologia não registrará seus corpos náufragos

A palavra-verbo acabará tendo a sabedoria do amar
Despojada de toda convenção estúpida e servilismo
Muito mais sábia que a imagem corpórea ou analogia
Sem linguagem e de ora em diante tão só no coração
 
Nova palavra

Quando as peles rimam

 
Um dia o inverno fez as folhas caírem das árvores vazias
E, com a vinda do frio, todos pássaros voaram ao oriente
Mas, o sol surgiu ao som de sinos encharcados de preces
Um estranho desejo, chamado amor, ressuscita as folhas
Nesse impulso vi tuas longas pernas, no gingar da cintura
Dobrarem ritmadamente as esquinas de ruas empedradas
Tua chegada foi meu trem azul, numa manhã de domingo
Vi flores vendidas no mercado se acanharem diante de ti
Ante tua voz, ouvi falarem os mortos, ouvirem os surdos
Em ti, eu vi chegarem ao fim as tardes áridas de abraços
Teu sorriso tão branco ilumina meu céu, qual a lua cheia
Solta o teu cabelo para brilhar dourado sobre os ombros
Trazer o fim dos amanheceres frios a musicalizar meu dia
Viverei um sopro de flauta o tempo marchará preguiçoso
Meu corpo voará, com minhas asas, meu querer não pesa
Coroa-me princesa sem par, traz-me teu aroma de desejo
Minha pele rima com a tua, tal a rima dos versos de Bilac
Faz-me amor mais uma vez diz-me que a primavera voltou
Que te encontrar foi a minha lucidez nesta vida desatinada
 
Quando as peles rimam

Caros Colegas (att. ZeSilveiraDoBrasil)

 
Caros Colegas (att. ZeSilveiraDoBrasil)
 
Prezados Poetas do Luso. Ouso esta intrusão para comunicar a todos que lancei meu 3° livro que se chama IMAGINOÁLIA POÉTICA. Mais que divulgar o livro, a intenção é divulgar a ideia que todos podemos eternizar nosso trabalho se o quisermos.

Tomo a liberdade de acrescentar um link da loja que o vende (sob demanda) para quem quiser ajudar a divulgação.

Imaginoália Poética - Loja UICLAP

Quero agradecer ao amigo Zé Silveira por sua pronta participação que muito me honrou. "Zé, grande abraço"

IMAGINOÀLIA

Quando tive medo
Imaginei tua mão
Teu sorriso me deu a paz
De mil pombas brancas
Pegavas minha mão
E d’um mundo cinza
O fizeste de cores vivas
Fui do susto à febre
Num silêncio dolorido
Descobri-me enamorado
Mas alguém acendeu a luz
E veio a chuva
Olhei o banco da praça
Vazio e molhado
O fim de todo mistério
Um sonho violado
Impunemente
A verdade desnudada
Minha frágil sanidade
A ruminar imaginoálias
E o vento sussurrando
A letra
Da nossa canção.

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=364902 © Luso-Poemas
 
Caros Colegas (att. ZeSilveiraDoBrasil)

Femina ou A dura tarefa de ser mulher no mundo rude de 2023

 
Uma amiga morreu no lar onde devia ser seu refúgio seguro
Sua lembrança me devolve às ruas da infância, pipas e piões
Lembro-me da sua boca pequena confiada a tantos sorrisos
Tempos que não haviam balas perdidas ou punhais erguidos
Como se pudesse tomar distância dos ardis da modernidade
Pela janela do trem, vejo a sombra a contornar a paisagem
Rodas e trilhos são qual um tambor desafinado no caminho
Conspiram cinzas ao passarem as últimas praças com flores
São qual ecos do entardecer que se embriagam pela cidade
A assustar cães vadios que comem restos na beira do trilho
Onde também dormem os viciados condenados ao fracasso
Essa paz ilusória oferece seu engano a todos os impostores
Se o tempo não volta, a mão assassina vem em duas rodas
A própria carnalidade se faz ameaçada a cada desatenção
Políticos ou togados não! Sobrevoam o mundo sem tocá-lo
É tão difícil quão não é prudente, levar luz delatora a eles
Não são vícios na paisagem que lastimo, sim o despropósito
O aço cravado nas costas da mãe mulher, pela impunidade
Desculpas não logram enganar-me, porque é hora de reagir
Não como lamento que chega extemporâneo, sim aqui e já
Mostrar-lhes o ruído de nossas armas, da caneta e o papel
São seis da tarde, o retorno da cidade chega a seu clímax
Em um sinal oculto ou uma língua que fale o idioma da luz
As noites vão e vêm e pessoas mendigam um naco de Deus
E o respeito pela vida segue abandonado, nu de intenções
A marca do corte, a ferida esquecida, o gole frio do café
Cascalhos urbanos, o rosto da cidade sobre a mesa do bar
 
Femina ou A dura tarefa de ser mulher no mundo rude de 2023

"Somos apenas duas almas perdidas/Nadando n'um aquário ano após ano/Correndo sobre o mesmo velho chão/E o que nós encontramos? Só os mesmos velhos medos" (Gilmour/Waters)