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Poemas, frases e mensagens de Mr.Sergius

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Mr.Sergius

Honestidade

 
Tudo que se pode chamar de ternura, ficou no passado
Sob um céu de vinho tinto cor de veludo na noite turva
Ah, é tudo tão longe! É uma estrada só de acumular pó
Sobre minha história de ave de arribação mal explicada
Pela insônia tresnoitada dos pedaços de vida não vivida

A aurora rescende a rostos cheirando água de colônia
Lembrança de tantas ausências, de minutos esquecidos
A taça com um resto de vinho permanece no aparador
Simbolizando tudo aquilo que poderia ser e se esqueceu
Ou que a dor antiga confundiu fazendo não mais desejar

Onde foram os sonhos em que deitamos nossa esperança
Quais desvios que aceitamos no caminho sem o perceber
Sob quantas camadas secretas que se oculta a felicidade
Haverá alguma promessa que um dia se fará para cumprir
Um dia deixaremos de dizer coisas que podem machucar?

Saiba que depositei minha franca confiança no que dizias
Mas foram só mentiras que usaste apenas para me afastar
Porém nós sabemos que mentir trará um preço a ser pago
E eu devo te contar que esse preço é sempre alto demais
Queria te fazer feliz, mas fostes escravizada pela solidão

Sou poeta e todo poeta pode ter algo de triste, mas nunca infeliz
Morre-se à noite, se renasce na intransferível dimensão da manhã
 
Honestidade

Longe

 
Longe
 
De cabeça baixa estavas e parecia que me fitavas
Teus seios afloravam da renda do vestido de festa
Na parte entreaberta sobre o teu ombro esquerdo
Nessa última imagem que vi de ti já não tinhas vida
A dor me trespassa o peito, já nem consigo chorar
Estendo a mão com tremor, alcanço teu braço nu
Tento te imaginar como há horas atrás e te cobrir

Palavras tínhamos dito, decisões seguras e rápidas
Decidimos com leveza as direções de nossas vidas
Pois sabíamos toda luta que teríamos a enfrentar
Para reunir nossas vidas e esperanças num futuro
Volto a nossa noite passada. Foi algo inesquecível
Cada uma era sempre como se fora a primeira vez
Mas esta não. É a última vez, jamais vais retornar

Sinto-me em um deserto de areias negras sob o sol
Elevo os olhos aos céus para buscar por respostas
Mas não vejo nada, não há uma luz, não há nem ar
Privado de ti me quedo vencido em meio a sangue
Porque queria te seguir, te rever dizendo que sim
Mas não tenho essa graça. É só silêncio e angústia
Não há um mínimo alívio para aplacar essas dores
Já nem vejo mais, escurece, ouço sirenes ao longe

Sabes quanto eu quis te tirar dali, trocar de lugar
Nas profundas chagas que eu mesmo abri em mim
Pensei que assim iria te seguir, te amar pelos céus
Estaríamos num espaço azul e anjos nos sorririam
Trazendo a ti de volta para meus braços refeitos
Mas tudo que encontrei foram somente sombras
De tanta tristeza esse meu coração quase morto
Vai revivendo solitário o ar quente daquela manhã

Este o retrato do mais triste episódio da minha vida. Éramos jovens, belos, invejados... Mas um lampejo do destino e ela se foi para sempre, num estúpido acidente de trânsito, causado por alguém que queria tomar meu lugar...
 
Longe

Pérolas à porca

 
De que adiantaram as considerações
Se fugistes às tuas próprias conclusões
De que serviram tantas explicações
Se de fato não querias compreender
Para que tanta escolha das palavras
Se sequer ao menos pretendias ouvir
De que serviu que eu fosse compreensivo
Se não considerastes tuas próprias ações
De que valeu a busca pela verdade
Se só prevaleceu o que mais convinha
Porque tanto pedistes para nunca te deixar
Se abrir a porta e sair foi tão fácil para ti
Porque tentei manter aquilo que prometi
Se para ti promessas não valiam nada

Abri mão de uma possível paixão, te fui fiel
Pouco tempo depois, tu decidistes partir
Foram pérolas devoradas meio ao farelo.
 
Pérolas à porca

O Poço

 
O vento soprou os dias, as folhas da ilusão, as flores da paixão
Com elas, a alegria da juventude, a esperança e tantos desejos
Tantos sonhos bordados de carinho, quantos sorrisos também
Fruto de incompreensões onde deter a razão precede ser feliz
Onde terá ido a verdade que se mostrava tão singela nos olhos
Terá ido com as marés, trocada pelos meandros de tecnologias
O vento trouxe alterações na personalidade, trouxe o desamor
Vieram meias palavras e inverdades, vimos repetir apenas o não
A dor que não vejo em seus olhos ecoa bruta em meus ouvidos
Não entendes o que digo ou não queres, entender é compromisso
A luz se dissipa entre as grades desta prisão que cala e cerceia
Onde é a alma que se queda prisioneira, no silêncio devastador
A solidão é uma fera a rugir na noite que chega e seus temores
Quando ficares à beira do poço sentirás falta desta dedicação
Recordarás minha pele em tua pele a te acariciar infinitamente
A distância entre elas te doerá, no entanto não te autoflageles
Pois foi tua imperícia em deixar-se ser amada que assim decidiu
Somos mesmo um quebra-cabeças de sombras e peças nebulosas
Tantas vezes definimos conduzir nosso trem firme numa estrada
Que esquecemos que a viagem só importa quando há passageiro
O qual continuou solitário, entre lagrimas, na penúltima estação
O mais evidente é que, mesmo assim, te amo e peço que ignores
Toda a dor que cabe nestes versos à sombra destes hemisférios
Pousa tuas mãos mim, mas saiba que também não sei o percurso
Apenas sei, enfim, que nosso caminho segue pela mesma estrada
 
O Poço

Trilogia: Destempo (2/3)

 
Hoje, nestes dias de reflexão, a melancolia faz-se presente
Ela faz escrever um poema duro, dos que brotam lágrimas
Desenhadas nos pergaminhos das memórias mais distantes
Sem tangentes para fugir, a corrente tem os elos corroídos
Esquecerei que envelheço, até chegar o dia trágico da morte
Inefável e necessariamente, para dar fim ao trem do existir

Onde um dia frutificou a poesia, a pretexto do meu existir
Será a pena calada a buscar no infinito um resto de abraço
Vejo olhares sem brilho, já não refletem as linhas borradas
Nos túmulos do desterro jaz a dor que fez morada em mim
Para lembrar a necessidade de um olhar novo, mais astuto
Assim centrar a vida no seu lugar e refazer tudo no jardim

Vejo da janela, cortinas brancas, o curso à beira as falésias
É tudo tão sublime, expressão do divino nas letras da vida
Onde o tinteiro de orgulho das pessoas jamais irá escrever
Não tem valor aquela corrente de verbos sem sensibilidade
É vital ter liberdade de espírito, exprimir o que vai na alma
O poeta não deve almejar o triunfo do retumbar do aplauso

Ter inteligência emocional é ouvir os ecos dos que o amam
Ser feliz como criança e suas bolinhas de sabão reluzentes
Apostar, distraído, na sorte, pois a única certeza é da morte
Quando olho nos reflexos de outrora, vejo apenas sombras
O silêncio já foi o meu melhor refúgio num canto qualquer
Minha fala era escrever para ocultar meu o olhar de sangue

Hoje, amenizado, anseio as chuvas de pétalas pluricoloridas
Exercitei um sorriso largo entre as estrelas com maior brilho
Abandonei a tristeza que congelou meu peito a cada partida
Primordialmente, prosseguir junto de tudo que me complete
Sem olhares gélidos, dizer não ao que tirou o melhor da vida
Dar adeus, sem olhar para trás, aos dias cobertos de lágrimas
 
Trilogia: Destempo (2/3)

Trigais

 
Gostaria tanto de te pedir aquilo que não posso
Aquilo a que não tenho direito
E que me aflige em horas várias
De matinais a noturnas
De calmaria e de tempestade
De sono e de vigília
De chuva que cai na janela
E de lua que ilumina os montes ao meu redor

Como me é impossível saciar essa vontade
De ser algo mais que uma doce memória diária
Que desaparece em meio ao labor
E a rotina de teu dia
Em meio a tuas paixões diárias
Que me roem por dentro
Em gritos que não devem ser expressados
Senão nestes versos sufocados
Me tornando como o éter que se esvai
Mas deixa no ar seu rastro de aroma
Que entorpece os sentidos

Assim como única solução
Deixo-me cair no profundo sono
Pois aí
No meio de meus sonhos,
Não me negas nada que eu deseje ou precise
E que um dia a vida me tomou
E continua me tomando
Devido ao fato de que a ampulheta do tempo
Virando e revirando
Faz pagar a todos que a subestimam

Me resta a chuva na janela
Com sua simplicidade
Que não cobra nada de nenhum amor
Esvaído pelo vento
Que corre pelos trigais
Outrora dourados
E agora ceifados.

Você já conheceu alguém em um sonho e depois conheceu a pessoa na vida real e ambos tiveram a certeza disso?
 
Trigais

Distância

 
Foram numerosos silêncios tão crus quanto ásperos
Uma fome insaciada, uma névoa de muito desalento
Mãos distantes a se buscar ébrias em meio ao sonho
Foram tempos de um nó insano a arder na garganta
Foi o frio da vida seguindo numa angústia sem saída
Foi a dor da perda num reencontro de cartão postal
Tal a dor que dói à terra a flor que se lhe desenraiza
Onde restam cicatrizes que nem o tempo vai apagar

Mas a mão do destino esconde segredos em silêncio
Mantém em si todas razões que a razão desconhece
Com esmero de reduzir a nada todas as construções
no que seja improvável; Romper as impossibilidades
de tudo aquilo que se pudesse nomear de impossível
No ventre que gera a vida está o germe da renovação
Para se fazer tempo de reencontro, de reaproximação
Acalmar as dores, angústias, dúvidas e hipertensões

Enfim uma flor se desabrocha, é a vida reeditando-se
Nos portais do espaço e tempo semeamos esperança
Para reaprender que distância é apenas uma ficção
Chegas no sonho, mas és corpo, és carne e realidade
Cada vez que nossas almas se encontram no infinito
As memórias de vida se refazem na energia ancestral
O nosso tempo já não é como nos relógios sonolentos
Não haverá monumentos ou heranças de nosso viver

Devo falar do que há muito tenho guardado em mim
Já devia ter te dito: dá-me a tua mão e fecha os olhos
Aconchega tua cabeça sobre meu peito neste abraço
Sem imaginar se é possível ou distante, sem projetos
Apenas fica. Seja para sempre ou apenas um instante
Mas que tenha a duração da eternidade dos amantes
Sempre me pertencerás na minha ilusão de nós dois
O existir não tem sentido senão aquele que criamos

Sabem o que é incrível? Duas pessoas reunidas pelo destino e afastadas pela vida. Quando se encontram é uma explosão em cores e som. Depois é dia seguinte.
 
Distância

Porquês

 
Em outros tempos fecharia meus olhos e sentiria os absintos
Mas traria na memória a tristeza nascida em tempos infelizes
Hoje tenho a luz e a esperança que renasce a cada momento
De cabelos dourados como os campos perfumados de lilases

Adeus dias trôpegos e de equívocos, vendo tudo envelhecer
Sem que te encontrasse nas emoções sob a pele que transpira
A vida ergueu-se como a fênix, asas abertas, rumo ao futuro
Que se queda ao alcance das mãos, construído com empenho

Não mais a dias sem compromisso, correndo vãos, sem razões
Diante de meus olhos pequenos, janelas deste corpo mortal
Outrora a curar antigas feridas, hoje a poesia fala é de amor
O poema foi a resistência à dor, hoje é o que alimenta a alma

E eram tantas as tragédias, tanto o choro antes de adormecer
Na inglória busca de meus dedos pela mão amiga a me assistir
E veio o dia que tudo mudou e assim vieste ao meu encontro
Já semeamos um tanto, que já florescem belas flores e frutos

Nada é infinito, pois o tempo a tudo comanda, mesmo a vida
E quando eu tiver que deixar este mundo que seja a teu lado
Trocaria, se restassem dias e até meses, por único dia contigo
Porque qualquer tempo sem ti, seria apenas de dor e solidão

Te desejo sendo exatamente a pessoa que és e não idealizada
Com tuas manias, os teus medos e mesmo algum desencontro
Com tuas dúvidas, com teus modos, com teus compromissos
Ah, ninguém é a perfeição, nem espero que venhas se tornar

Porque antes de tudo está tua dedicação, tua generosidade
Teu amor e carinho, teu cuidado, teu grande e belo coração
Há tanto pra dizer dos porquês que ambiciono estar contigo
Ao ponto de te confundires com as próprias razões do amor

Como não estar ao teu lado se és o elixir e o bálsamo que cura
És o alimento da minha alma, que me cala o choro, és tão mais
O porto certo nas incertezas da noite, a solução dos labirintos
O avesso do abandono, és enfim cada uma das letras do poema
 
Porquês

Trilogia: Desertos (3/3)

 
Quando aqui cheguei trouxe um caderno em branco dentro de mim
Nele escrevi meus versos sem rima e todos os signos inexplicados
Quais me deparei pelo caminho, entre flores, perfumes e espinhos
Onde fui tocado por dores de tantas sinas, segredos inconfessados
Clamando a rasgar o peito para espalhar os sonhos sobre meus dias
Na vida cheia de medos revisitados, linhas que quedaram borradas
Cântico onírico interrompido pelo frio do concreto e aço cotidianos
Ah, tantas páginas ainda restam inéditas, pensamentos impublicáveis
Teria sido por minha vontade ou esse tal destino que ditou a direção
Haverá páginas escritas em tinta invisível que o tempo vai revelando?
Ou as faço, traço a traço, cada uma o espelho de minha imperfeição
Aprendendo a cada erro, celebrando cada acerto, cada frase um hino
Mas de tanta angústia um dia há de bastar, será único e memorável
Vou bater na tua porta, escrever errado em linhas mais tortas ainda
Um destes poemas sem pés e sem cabeça enquanto restarem folhas
No livro de poemas de nós mesmos, letras vivas na forma de contos
Dir-te-ei do que vi no mundo correndo livre pelas pontes sobre rios
Mas esconderei as cicatrizes de quando as pontes já não estavam lá
Vou atropelar a fala ao contar o que inspirou e me fez vivo, na pele
Confesso que doeu, mas livrou do ultraje de andar na vida sem viver
Sei que o tempo passa e os dias se somam, mas não os guardo em mim
Caminho pelo mundo, à sombra dos narcisos, a buscar novos verbos
Escrevo por necessidade quando meu deserto interior me determina
Sou esse, faço sem olhar, não para enfezar os traiçoeiros de plantão
Na poesia reside o catalizador da metamorfose, a magia dos sentidos
Que faz de sair do caminho, assim, só para beijar uma flor mais bonita
 
Trilogia: Desertos (3/3)

Gotejar

 
Gotejar
 
Meio à insônia destas noites ouço um incansável gotejar das calhas
Vem contar o fim das chuvas. Som perdido de uma história secreta
Tão cheia de retratos sem história, de uma sempre mesma paisagem
Está cheia de monótona saudade com um quê de mistério e solidão

E se um dia só restar o silêncio, deixando todas histórias por contar
Nem ao menos os cantos tediosos dessas gotas ao chão despencadas
Nem mesmo as falsas lágrimas que do beiral dos olhos se desprendam
Que chora pela ausência do existir, em um tempo sem início ou final

Meu então anestesiado coração verá este poema feito de sombras
E de palavras cansadas e desfrutará de seu sentido subentendido
Achará a paz que prescinde o real escrito nas linhas do horizonte
Tão ironicamente presente, paradoxalmente supérfluo e resignado
 
Gotejar

Transformação

 
Vive dentro de mim um poeta enlouquecido pelas tragédias
Em luta com demônios, creia-me estão aí, a destruir o amor
Entre amores não vividos, sofrimentos, e sua própria tolice
Não lhe pode avaliar o cotidiano ordinário dos transeuntes
Que passam abstratos à sua vida real, feita de amor pujante
Todavia invisível aos olhos que escrevem na lousa do normal
Há dias ocos de palavras, de vozes mortas, em coro desigual
Há desejos reprimidos que me ferem tão na carne e na alma
Aceno com meus gestos inglórios de aflições mal ordenadas
Sem jamais perder a ética por um qualquer encontro fugaz
Semeio violetas, mesmo a temer não as farei colher, amiúde
Sinto ter encontrado em ti o sonho que a vida fez concreto
Que afinal vai começando a amanhecer num enredo surreal
Tua silhueta nua, a me sussurrar no ouvido tudo o que calas
Não é hora para arrependimentos tardios, nunca amei tanto
Se fosse chorar até sumir o coração, ainda teria tanto amor
Mesmo que o amanhã, entre suspiros, anuncie a tempestade
Não haverá mais enganos, sombras ou dúvidas a conjecturar
Eu te amarei por mil vidas, pois te amar recompôs o infinito
 
Transformação

Perfeição

 
Neste teu dia, queria escrever um poema que te descrevesse
Mas, temo não atinar palavras tão belas que te façam justiça
Para que estes versos não pareçam desertos diante do que és
Pois és a semente de tudo que germina, és a fonte que inspira
Porque tens os olhos profundos que versam mesmo que cales
Mas se não calas, tua voz é o alento que já gravei nos ouvidos
E se te faço sorrir, sinto-me como Deus na sua melhor criação
Pois teu sorriso ilumina as trevas da angústia e restaura a vida
Hoje sei que quando as flores foram criadas, pensaram em ti
Mas não sei fazer flores e tão menos descrever a flor que és
Contudo, posso reconhecer teu perfume em qualquer jardim
Se eu pudesse te escrever um poema, poderia recriar o mundo
O ouro imitaria a cor de teus cabelos que eu quero acariciar
Eu inventaria a brisa nas tardes de verão para vê-los esvoaçar
Inventaria também o céu e colocaria estrelas pra te ver sorrir
A lua não, pois viveria escondida nas nuvens, com inveja de ti
Deitaria ao teu lado para contar as estrelas e histórias da vida
Porém não sei escrever um poema que te seja justo, bem o sei
Mas, sei que te amo e que te desejo tão feliz qual sonho bom
Quero estar ao teu lado e cada ano constatar que vales mais
E dizer apenas teu nome, quando quiser explicar a perfeição
 
Perfeição

Ode a Augusto dos Anjos

 
Dos Anjos o dizia que era como hospital
Em que o triunfo não assistia aos doentes
Ah, Augusto ouso te dizer que não é assim
Coração de poeta é o esteio de quem sofre
E te posso afirmar que já foi tanto que sofri
Nele transborda o poema, seu fruto nativo
Que não cabe no peito e derrama no papel
É antes o nascedouro de toda esperança
Porto seguro onde o mal não nos alcança
Vê em quase tudo um brilho e luz própria
O coração do poeta não é o vilão da dor
Antes, sabe que sofrer de amor não mata
Portanto faz amigas as cicatrizes que o ferem
Faz de cada uma, a linha onde deita o verso
 
Ode a Augusto dos Anjos

Planície

 
O homem não é senão as palavras que é capaz de compreender
Para caminhar através do vazio infinito sobre o fio das lâminas
Onde à direita está a verdade, mas a qual é feroz como o tigre
À esquerda reside a dúvida, distante como o horizonte escuro
Galos surreais cantam à meia noite anunciando as madrugadas
Os cães ladram, mas não há caravanas a passar sob o sol a pino
O poeta quer empunhar a espada da conciliação indispensável
Ruma às falésias onde a brisa sopra para não se afastar da luta
O poeta vê o vento soprando à beira mar acariciando as ondas
Do alto ele navega mesmo na extraordinária planície esmeralda
Pois, tanto o pássaro vive na gaiola que olvida o que é liberdade
Nascemos para o sonho, para sermos livres, viver sobre a terra
Não cabe o oblívio que cada vida é una e curta, logo somos cinzas
Um dia seremos apenas parte do verde e das flores renascidas
Ao fundo as colinas e estas são o que são cortando a paisagem
O guerreiro faz crescer a aurora através da cidade tão florida
No horizonte vai ensinar onde o sol deve morrer ao final do dia
 
Planície

Impensando sobre Amor

 
Tento escrever sobre o amor,
mas palavras concretas não conseguem
exprimir esse sentimento tão volátil.
Tento compreender o amor,
mas o raciocínio lógico não permite
enquadrar algo tão irracional.
Busco responder o porque se ama,
mas a questão não permite que
se responda estando entre os vivos.
O amor é aquilo mais volátil,
irracional e atemporal que
um coração seja capaz se sentir.
É o tudo e o nada,
é vida e morte,
presença e abandono.
É esquecer para nunca deixar de lembrar.
Quem jamais amou, nem adiantará
buscar coerência nestas linhas;
quem ama sabe
que é bem assim.
 
Impensando sobre Amor

Meu barco

 
Venha meu amor
E mergulhe no azul celeste deste meu olhar terno
do mar azul de meu eterno acolhimento
que se abre calmamente
num abraço amoroso e tépido
como a corrente marinha quente de leste
que aquece seres encantados
vivendo sob o manto líquido e salgado
azul-nacarado
pelo sol que brinca
de fugir e se esconder no horizonte
qual criança rindo alto de brincadeira travessa

Meu hálito,
qual vento norte que sopra morno,
levará calor e sonhos
até as rochas mais escuras
povoadas de seres obscuros
que vivem na constante noite gris
confinados em gretas negras de musgo.

No calor deste,
Meus beijos em seus lábios
Derretem o frio do mais gélido vento sul
Capturam teus desejos escondidos em cada poro da tua pele,
mesmo aqueles que o sol ofuscou
E riu de me enganar
Escondendo-os no reflexo da água calma à nossa frente

Meus cabelos reluzindo o sol sobre a ondulação da água
Voarão livres acariciando a tua pele
feita em nuvens dos sonhos macios
outrora densas de chuva e pesadelos
que são agora levados pelos meus cavalos alados
para onde as sombras são convertidas
em pássaros entoam melodias angelicais ao nosso redor

Meu abraço na aurora vermelha que inunda o mar,
Sana todas as dores da tua alma
Traz o perfume do jasmim,
Misturado ao ébrio do almíscar
E a doçura das rosas,

No meu barco terás o pó das estrelas cintilantes
Que enche o mundo de fadinhas
Qual vaga-lumes em noite escura da alma
Com brilho e alegria
Onde todo o medo é afastado
Por uma imensa lua cheia prateada
Que brinca de tocar a água
iluminando pontos perolados
Nos olhos dos amantes.

No meu abraço te envolverei
E te acalentarei a alma
Com melodias serenas
E beijos delicados
Qual canções de ninar
Velando o sono
Ao rebento pequenino

Uso as vestes da luz, da vida e da poesia
Pois é assim que desejo aparecer sempre em seus sonhos
Em seu pensamento
Qual brisa no fulgor do verão
Qual lareira crepitando no inverno
Qual ópio para as dores

Saiba, que seu coração
Está para sempre protegido
Na concha de minhas mãos.

Quando você encontra alguém, nunca sabe o que pode suceder. Pode perguntar as horas ou por fim à busca do amor de uma vida.
 
Meu barco

Partida

 
 
O frio austral revisita o poema perdido na tarde à beira mar
E o poeta eterniza a palavra lançada sobre a calma do papel
Que auscultou dos lábios da aragem em sua tristeza silenciosa
Grito teu nome talhado em minha pele como antiga cicatriz
Para te dizer da imensa mudança a qual ainda não acreditas
Carrego secretos sonhos infantis e navegares intermináveis
Trago sons de flauta e perfume de flores à procura do gesto
Que possa afastar os fantasmas febris e secar tuas lágrimas
Pois jamais se restabelecerá o abandono, o vazio da solidão
Para que só o verbo amar, presente e futuro seja conjugado
Escuta meu coração como fosse a última badalada da tarde
Encontra-me onde a paixão se recolhe, deita no meu ombro
E eu te pronuncio as sonoras sílabas do amor entre a bruma
Para que me escales agreste tatuando marcas em meu peito
E quando amanhecer reste um tanto de ti além deste desejo
Pois terás partido com as estrelas que se vão ao fim da noite
Nos meus ouvidos ainda ecoam teus gemidos entre os lençóis
Deixe-me um último sorriso nesta madrugada que emerge
Deixe-me mais um doce suspiro antes que tenhas que partir
Da janela nos dias distantes em vão choraremos sob o gris
Volto ao silêncio antes de acordarem dolorosos fantasmas
Nada existe do outro lado mar a não ser o que sonhamos

Tocava essa música, estávamos sentados num banco de praia, havíamos nos encontrado depois de 10 anos.
Era como um sonho. Ela disse: diga uma palavra e eu nunca mais vou embora. Eu disse: Te amo, mas não posso te pedir isso. Ela se foi.
 
Partida

Trilogia: Desamparo (1/3)

 
Sou, sozinho, em desamparo, sou assim qual um proscrito
Cheio das surdas vozes e a vida corre como rio impetuoso
Não tenho morada, sigo a vagar sem um refúgio a repousar
O cão ladra estridente, este não é meu lugar, é da história
Silenciei minha voz com um soluço aflitivo e estrangulado
Acordo nu, só, meio ao pesadelo das batalhas contra o mal
No abandono vivo, que me remete ao tempo que eu morria
Ora não posso mais sonhar que a vida, num zéfiro da sorte
Viesse, no âmago do dia, redefinir o depois, o além de tudo
Na ingênua noção deste poeta sonhador, atordoado e cego
Em meio à ilusória placidez, a solidão novamente se assoma
Aniquilando as plagas da esperança, a irmã das primaveras
Consulto os astros no firmamento, mas não acho respostas
Estão todos na mesma irracional, fúnebre e austera mudez
Não há um botão que, mágico, faça galhos secos em flores
Que faça do ar quente, brisa fresca e dos fantasmas, heróis
Não vejo nas auras as cores ideais, tão-só rumores remotos
Sinto que sou apenas uma alma solitária no aquário da vida
Um homem primitivo perdido entre tão pálidos crepúsculos
Que é um quase nada, alguém que restou carente de unção
E no grave aspecto da noite, em névoas densas e singulares
Que busca alcançar a inatingíveis e fúlgidos altares surreais
Finalmente, o dia anuncia que a luz já virá difusa e ingente
Hora de ser ardente e jovial e buscar a força numa crença
Que dias melhores chegaram para virar a vida inteiramente

O botão de rosa e suas pétalas gráceis e sedosas,
multicores se abrem alegres no ar como um ósculo mais breve.
 
Trilogia: Desamparo (1/3)

Sintonia

 
Tomo do silêncio de instantes de lucidez nas pedras da memória
Para dizer da chegada de uma aurora mágica onde não há medo
Onde não se cria nenhuma interrogação, com sua frieza de aço
E também os mortos não estão nas paredes cinzas como já se viu

Falo desse tempo inaugurado depois que o vento varre as folhas
O que faz todo sentido pois é primavera, o inverno afinal partiu
É tempo de se lidar com o que vive, é tempo de viver por inteiro
É tempo de despedir-se da solidão, dos inúteis desafetos diários

Tempo de dizer olá, de abraçar, de surpreender a paisagem crua
E às dores, acenar com um adeus desuado até então, reinventar
Em meio a todo silêncio, que outrora me acanhou, semeio flores
Todo amor que um dia se resumia em ausência ora está presente

Reneguei a angustia de más horas, ao som de tropéis de retorno
Juntamente com outras coisas inúteis que me foram impingidas
Que um dia cunharam os desvãos na alma, dentro do amanhecer
Reunindo noite adentro muito mais que só a esperança possível

Agora a luz desta paixão faz-se urgente na tua presença querida
Nossos corações reunidos em sincronia, a pulsar, nas ruas febris
 
Sintonia

Paradoxos

 
Todo amor é uma presença transparente
Que vestimos no despertar a luz do dia
É um quê vítreo sem medida vertical
Capaz de fazer da vida uma jornada
Seja por entre as planícies ensolaradas
Ou nos subterrâneos de toda angústia
Choro por aqueles que nunca amaram
Pois estiveram à janela e a vida a passar
Foram mortos antes do toque da adaga
Não puderam ouvir a fúria dos temporais
Também não sentiram o perfume vespertino
Que exala dos jardins no ocaso de verão
O amor é toda contradição que se exige
Para que viver não seja uma tela em branco
Além dos campos sem qualquer memória
O amor dói na alma e é seu bálsamo
É o segredo que não perfaz aos covardes
É entrega e surpresa no espectro do zodíaco
Em mim é tanto a ave como o próprio voo.
 
Paradoxos

Dor e angústia protagonizam o show
Quando a noite vem, a mágica se faz
Nasce o poema das entranhas feridas
Então, abro as asas e voo ao infinito.