Poemas, frases e mensagens de Rogério Beça

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Rogério Beça

Anamnése

 
Ontem olhei para a tua história,
retrato falado,
um pouco de mito, muito de memória,
misto de carnaval e de fado.

Nesse olhar que fiz, demorado,
achei horas felizes
encontrei, por outro lado,
cicatrizes.

Dessas do tempo que, infinito, passa,
da lágrima que desponta
por mais esquecimento que se faça,
mas da doença já não dei conta.

Mirei fundo,
e no meio dessa profundeza
achei um mundo
infindo de riqueza...
 
Anamnése

A vela para abrir caminho

 
É no meio da escuridão,
lugar fechado, sozinho,
tudo está fora de mão
e a vela abre o caminho.

Nesse buraco de solidão
esse sitío de tanto espinho,
fogo-luz entra no coração
e a vela abre o caminho.

Ao entrar a vela no buraco
faz-se tudo menos luz
e tudo forte fica fraco.

Essa vela ilumina e seduz
preenche de vida o vacuo
deixando-me e à solidão nús.
 
A vela para abrir caminho

Paródia Negra

 
Hoje estou sem palavras,
levou-as a chuva que cai
soturna no chão pardacento,
levanta-se lama sem lavras
e nenhum pensamento sai:
não sai nenhum pensamento.

Encontro-me só nesse vazio,
exorcizado, sem ponta de alma,
sem ponta por onde me pegue
e tudo em redor está sombrio,
ainda que esta estranha calma
em vez de abraçar, a renegue.

Nesta noite eterna e fria,
sobrevoam-me corujas, morcegos
e esses noctívagos me acarinham.
Tanto de noite como de dia
andam todos perdidos e cegos
sem saber que assim caminham.

Encontro uma vil ternura
neste ermo sem perdão
no qual acho um lar, e conforto,
cá a vida é clara e pura
e tudo é paz e comoção;
ainda que viva, estou morto!!!
 
Paródia Negra

Anís

 
De lágrima espessa,
escorre lenta na garganta
até à boca estomacal;
na papila um travo desigual
que espanta,
e nos atravessa.

Nesse pequeno gole
que nos lábios se cola,
lá se acha e perde a doçura,
perto, muito perto da loucura,
do fogo que imola
numa cadência mole.

Tem o sabor a antigo,
a passado de moda
ainda que moda nunca fosse,
com essa saudade doce,
licor que nos deixa à roda,
castigo...
 
Anís

A loucura virada do avesso

 
Tem, por vezes, um lado calmo
em que nada o perturba ou move
sente o palmo de testa a um palmo,
ainda que agora e nunca, chove.

Inspira pelo nariz,
expira pela boca,
e sempre por um triz,
falha a hora louca.

Faz as suas rezas, tempestades,
por vezes nessa acalmia, suspira,
no jogo das liberdades, verdades,
muitas vezes fala-se só a mentira.

Cria no seu interior
uma paisagem bela,
em salmos de amor,
pintura a aguarela.

Tem, por vezes, um lado doce
em que nada vale um preço,
como se anjo sem asas fosse
com a loucura virada do avesso.
 
A loucura virada do avesso

Sinto

 
Não sei se sensação
se sentimento,
nem o porquê da indecisão
se o frio do vento,
se a alegria no coração
a bombar sangue cinzento.
Não compreendo a cor, ilusão?
Será que tanto tento
que alucino, e na alucinação
eu próprio me invento.

In Ambiguo
 
Sinto

78% de azoto

 
O que é isto que respiro?
Que só dá o ar da sua graça
quando se levanta o vento
ou, quando se acalma, brisa,
invisível intocável massa
que, em força, fica lamento
e que logo se suaviza
tempestade que não refiro.

O que é isto que inspiro?
Que sempre me ultrapassa,
que me envolve ao relento.
Do qual (ninguém avisa)
sou dependente, coisa devassa,
e sempre sempre desatento
(sinal que me fragiliza).
Um bocado irreal que retiro...

O que isto é?
Verbo ou objecto,
qual a sua conjugação?
Como é que se faz?
Sendo ciência, não será fé?
Ilusório ou concreto,
qual o alcance da sua ilusão,
misto molecular de gás...
 
78% de azoto

ponto e vírgula

 
Anseio tanto um ponto final,
ou talvez antes queira
mais dois à sua beira,
prolongamento, espiral,
mas esta vírgula, descanso,
que me pausa os segundos,
adia os momentos mais fecundos,
curva de tempo que não alcanço,
vivo, portanto, suspenso,
perto da falta de ar
que é ser sem acabar,
empatado, nunca venço,
mas é o que menos me importa,
enfim, exclamo,
se o que mais eu amo
é essa coisa torta
de uma vírgula acompanhar um ponto;
 
ponto e vírgula

Feira das vaidades

 
No areal escalda o sol vespertino,
alto, quente;
convida o mar a um mergulho
e cheios de orgulho
os corpos de toda a gente
semi-despidos, da velha ao menino.

As toalhas coloridas revestem o chão,
os pés evitam sacudir a areia,
educados;
mas para todos os lados,
tão cheia,
deitados corpos semi-despidos estão.

Roupa reduzida
a cobrir o nada,
a carne de fora,
agora
exposta e suada,
seduzida.

Os olhares tocam-se indiscretos,
atrevidos, gulosos; saciam a vista:
músculos definidos, peitos
firmes, lassos, direitos,
todos indefinidos. Artista
o escultor destes corpos tão erectos.

Há toda uma provocação sublime
que todos fazem, aceitam, regulam,
acto não pensado
que, por ser regulado,
em todos circulam
estes restos de crime.

Até ao mergulho, engolido nas marés,
mar adentro, viril,
até à fronteira da pele...
Esse mar que te expele
sereno, revolto, vil,
que banha-te da cabeça aos pés.

Ficas molhada,
recanto a recanto
e nada, nada fica ileso.
Esse suspiro preso
que tens como encanto, pranto,
se o teu corpo nele nada.

Exaustos
os corpos vaidoso secam,
reluzem ao sol...
cada um fica mole
mas, nisto, todos pecam
nestes faustos.
 
Feira das vaidades

Amaurose Branca

 
Título retirado na obra de José Saramago, ensaio sobre a cegueira, Livros RTP pág. 37 linha 27.

Tantas vezes um cego no escuro cega,
que esse negrume é o seu limite.
O fardo que consigo mesmo carrega
só quem não é cego é que não o admite.

Esbraceja; a bengala, alguém lha entrega?
Esse alguém inexistente, que lhe grite
quando não vê: à frente! à frente! Esfrega
o objecto nos olhos que a cara lhe omite.

O cão-guia negro, tão caro, tão raro...
A luz que os olhos inferniza, gruta
tão alva, até ao grito, ao infinito!

Neste mundo tão obscuro, vê tão claro,
nada vê o cego, só a claridade absoluta.
A claridade toda ela num só grito!

Segundo o livro, lindíssimo, a amaurose é a incapacidade do cérebro distinguir imagens, formas e cores. Associado às trevas o autor atira-se a um novo tipo de mal. O mal-branco.
Recomendo.
 
Amaurose Branca

Agora não são horas

 
Há quem diga que há uma hora para tudo:
para amarguras e sorrisos,
para avanços e recuos,
para euforias e amuos,
para silêncios e avisos,
para ignorância e para estudo.

Há hora para poesia,
coisa rica e fluente
outras vezes pobre e demente
baixa hipocrisia.

Há quem diga que o destino nos traça
que ficamos marcados à nascença
que tudo fica definido
quase mais valia nem ter nascido
e não viver desta crença
que o que decidimos nos abraça.

Mas se para tudo há uma hora
o que fazemos aos minutos?
Se uma árvore não der frutos
porque será que demora?

Agora não são horas...

Dedicado à minha amiga Ana Paula Conchinha.
 
Agora não são horas

descuido

 
Hoje
sou feito de chuva
e
caio por aí
molhado
em tudo:
em movimento ou parado.

Hoje
sou tanto de humidade
que no ponto mais tenso
sou precipício
e precipitação,
por descuido
chovi, no meio do verão.
 
descuido

Crucificada

 
Em vez da lapidação,
a que estava tão acostumada
(tratava as pedras preciosas por tu),
aos olhos claros apresentaram a cruz.
O centurião,
com um sorriso martelo,
cravou na pele virgem
a grossa cavilha...
o sangue escorreu num gemido.
Os encavilhamentos sucederam-se
poderosos,
finitos,
no desespero, socumbiu aos gritos.
Ao içarem-na, suspensa,
não evitou as lágrimas quentes
e, num choro só,
devolveu, ao centurião, o sorriso!
 
Crucificada

A virgula que estragou o livro

 
Começou num ponto,
embandeirou-se num arco
descendente.
Limitou-se
no levantar da caneta
do papel branco.

Entre o predicado e o sujeito
(mais propriamente entre o verbo e o nome)
partiu a frase,
cortou o parágrafo,
reduziu o capítulo a nada,
estragou o livro...

Nome do romance:
"Ponto Final"
 
A virgula que estragou o livro

A sombra de dúvida

 
A sombra da dúvida é branca,
já que o objecto é escuro;
bichinho medroso
que destrói as acções,
desconstrói as iniciativas...
A sombra revela a sua presença,
leve como um fantasma,
com sorriso magro,
estéril e infecundo...

A dúvida, hesitação.
 
A sombra de dúvida

voam indiferentes as andorinhas

 
Cheira a vento nesta primavera,
que afasta as nuvens e traz o frio
nem parece dela, invernia desconfio,
ou a estação já não é o que era...

Tanto frio está que se desespera
pelo verão quente, daquele estio,
mas o vento que venta com brio
arranca a esperança que já houvera.

As andorinhas voam indiferentes
a todas estas oscilações de humor
porque passam as estações e gentes.

Faz-nos falta a lágrima de calor
e essa primavera de dias quentes
em que tudo é fácil, até o amor.
 
voam indiferentes as andorinhas

Leitura de almas da mão

 
Tens um caminhar errático,
andas pela sombra,
ou sob os beirais das casas,
a fugir aos pingos do aguaceiro.

Na tua névoa, um lado prático,
que se ombr(ei)a
com as complicadas asas
com que voas o dia inteiro.

Quando penetro no teu olhar,
perscruto-te a gentil alma,
num movimento inquieto.
Sondo na íris nera o feitio.

Desarmada, desvias-te devagar
prolongando, com calma,
este contacto incorrecto.
Feito, imperfeito, gentio.

Procuras os olhos meus
nesse caminho errado, revisto,
em que andas por brasas
e pegas-me, do nada, pela mão!

E eu, que leio os olhares, os teus
passos sigo, não resisto;
andamos à chuva, marés vazas,
nos braços da tua mão.

Feito cigana...
 
Leitura de almas da mão

o que é que andamos a fazer?

 
Porque o tempo passa
e a evolução rareia
como se vivessemos no passado,
essa evolução, tão escassa,
parece punhado de areia
a fugir, condenado.

Entregamos a nossa carne ao fogo,
chegou a nossa vez, agora,
como rezes num rebanho
sem cabeças, demagogo,
no tempo em que o tempo demora,
assim, estranho.

Falta cultivar o sorriso
um sorriso que não se esquiva,
que, resiliente, enfrenta, luta,
dá a cara e perde o juizo
que mantem a chama viva
um sorriso benevolente e filho da puta!
 
o que é que andamos a fazer?

ergo ego

 
Eu pela minha pessoa falo,
na primeira pessoa do singular,
é um mudar de lugar
falar de mim com intervalo.

Nesta distanciação que faço,
descolo-me tanto, por natureza
que não tenho a certeza
de existir esse espaço.

Eu refere-se a mim
como coisa, como objecto,
ao que tenho de concreto;
ao limite, ao tangível, ao fim.

É um hábito, uma veste
que tenho por acidente
que digo da minha mente
ainda que de mim nada reste.

Eu, é determinante,
pronome que determina...
Como é que o EU se ensina?
A cada detalhe, a cada instante...
 
ergo ego

Rima pobre

 
Tamanho favor eu fazia
à minha pobre dor,
que tão bem conhecia
as suas formas e cor,

que passei-lhe a mão
até ela por fim passar.
Nas fibras do coração
que teima em claudicar.

Rima pobre - Rimas que pertencem à mesma classe gramatical.

A rima não é sinónimo de poesia.
É frequente o aparecimento de textos sob a forma de estrofes, cujo conteúdo poético é duvidoso dentro das mais variadas leituras e opiniões.
Os anúncios comerciais, usados em publicidade, contêm inúmeras rimas. Não podemos considerá-los poemas!
Com o apelo melódico que proporciona, agradável, a rima tem sido usada nos últimos 500 anos duma forma exagerada.

Mas atenção:
Todo o texto que é composto por estrofes que contém rimas é um poema?

Digo que não!

(mas existem grandes poemas com rimas... sem dúvida!)
 
Rima pobre

A minha pátria é a língua portuguesa.
Bernardo Soares