Poemas, frases e mensagens de F.Duarte

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de F.Duarte

; existem preces que jamais serão repetidas

 
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; existem preces que jamais serão repetidas
repartidas na constante exatidão

vida ou morte o verbo certo
assumindo leveza
nada dizem
nada transportam consigo

sequer esvoaçam bafejadas pelo vento alísio
acalmando
silenciando um ou outro desassossego
que reproduzes

faltam-me as manhãs escurecidas

os minutos
essas expressões mímicas
dos corpos estatelados
lado a lado

tudo se passará
amputando inquietações
estranhas

que as entranhas guardam.

.nem sequer um riso.

poder-me-ia ter consumido de ti
em mim
corpo
terra
ser

uma acha eternizada
onde fim e começo
se misturam
cicatrizes expostas
à salmoura que sobrou
sem o agasalho das asas
minguantes

das nuvens expostas
sem nome ou destino
plácidas e complacentes
sem o olhar
empurrado para longe
perdendo-se amiúde.

assim nascem as flores
plantadas nos vasos da tua varanda
labaredas resplandecentes
que encadeiam a ressaca

o mito
o indelével repouso das tentativas algumas repentinas desse caminho procura que te alimenta reverdece
reconstrói

eu fico-me
sem qualquer intermitência
pasmado pela beleza tanta

em ti.

I

sim saberei
um sino ressoa bem longe
quando uma pérola nasce
...
agora

o caos.

(libertando-me)
 
; existem preces que jamais serão repetidas

;às arrecuas pelo tempo parando aqui e ali juntam-se cidades

 
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;às arrecuas pelo tempo parando aqui e ali juntam-se cidades
céus
noites álgidas nuas e cruas

abandonos
[porque não uma ou outra prece? que se dane se a condenação ao inferno dos homens é certa]

ficaram os encantos os esconderijos
porque não os medos de quem quer voltar

já é tarde
confesso-me a ti.

São ânsias esperas histórias
lembranças e redescobertas
nada de novo a sul

dir-me-ás o que quero ouvir
como se o amor se ouvisse
como se não passasse de um boato esquecido
ou pretensão ultrapassada

e aqui entra a velocidade da luz
porque não o meteoro que regressa
numa noite visto a planar pela escuridão iluminando-a
aquecendo-a

impiedoso o impulso que tudo arranca
sangue
pele sensível ao beijo
as entranhas que apodrecem fora do sítio

ou um grito coralino peregrino pululando pelos santelmos
que nascem dentro das trovoadas

. incondicionais o peso das palavras
as amendoeiras em flor
a ressaca das constelações que não vejo
prosseguindo viagens incompreensíveis
quase esmagadas

mas sinto a sica
as pedras que se movem algumas já mortas
e sempre as luzes ainda regressando
sem saber onde as arrumar
só para tapar algumas sombras tantas

amálgamas absurdas que me visitam quando querem encruzilhadas resvalando pelos quatro cantos que me cercam onde costumo envelhecer-me

I

onde?

II

Repito trajetos que explodem a meu lado [ou implodem já nem sei bem]
órficos
escondendo a manhã do caminho sobre as águas daquele braço do rio esperando finalmente um abraço que o aperte numa voragem completa
imensa

e agora

tu que chegaste até aqui

diz-me a cor de quem um dia bateu à porta do teu sonho?

III

a ti e agora

volto a confessar-me

vou-me deitar.

Nada nem desabafo é.

Santelmo - Fosforescência que em certas latitudes e principalmente em tempo de trovoada se nota no alto dos mastros dos navios
 
;às arrecuas pelo tempo parando aqui e ali juntam-se cidades

; não te saberei tapar por completo das noites neste outono

 
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; não te saberei tapar por completo das noites neste outono
muito menos afugentar o rorejar do orvalho matinal

que procura luz

apenas nascentes já abandonadas
apenas um arco-íris adormecido

não mudaram de lugar
vêm-se da janela entreaberta
ainda latejantes

a madrugada começa assim
em dias que se devoram.

perda de tempo
dizer que te amo se amo
seremos apenas.

expandem-se e desvanecem-se algumas loucuras
palavras mágicas marcadas
enquanto contemplas o mundo
que voa com o fumo do archote

e o ar sufocará
só pensamentos e passos

e este silêncio feito de cousas

enquanto dançam por perto as orquídeas
quiçá alguns fantasmas que sobraram.

I

soçobra o olhar inquieto
o espasmo que adere ao corpo
metamorfose única
completa

afinal os pássaros não regressaram
onde pousam os nossos corpos
a cada gesto.

II
recolho o sorriso regresso
sem sequer partir

[não me saberei de mim
neste outono].
 
; não te saberei tapar por completo das noites neste outono

; a esta hora percorro o caminho pelas estações

 
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; a esta hora percorro o caminho pelas estações
que estendes entre tuas mãos
desejando voos circundantes. esperas

que escrevo apago
veleidades que me cegam enquanto espero o clarão da tua chegada.
apenas triunfal.

I

caio em desuso fora da casa que cultivaste.
pedra angular

II

o centro
as pedras
mãos sementes ocupando

espaços intermitentes

poderia ter escrito
o silêncio
o dilúvio
deserto

III
que fazer do tempo atemporal
memória?

as imagens desnudam-se a esta hora.

(; reintroduzindo-me em F.Duarte libertando-o)
 
; a esta hora percorro o caminho pelas estações

; veio o vento pela manhã

 
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; veio o vento pela manhã
secando as roupas na varanda

secando lágrimas suspensas
que rorejavam sem destinos

I

seguem-se os tempos sob foices
em pavor
e se o esquecimento enaltece as súplicas
senti-las-ás
podê-las-ás ver
pela dança das sílfides rio acima
no caminho da nascente

II

mira os lírios níveos
nédios

é-lhes longínquo o extasiar do olhar. indesmedido.

(reintroduzindo-me em F.Duarte)
 
; veio o vento pela manhã

; ruem pelos outonos os pavores dos ventos norte

 
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; ruem pelos outonos os pavores dos ventos norte
saberemos sempre das rajadas peregrinas

repentinas

ou de ouvir algumas estrelas por perto
reunidas como um bando de pássaros.

I

há dias que nem sonhos perdidos transportam algo
sim

segregam-nos
ceifam-nos
dos soluços atemporais

mas sentir-te-ei
pelas síncopes que eles transportam
[talvez sempre]

metamorfoses contínuas.

II

Nos hálitos que se misturam
mira as pétalas que ficaram espalhadas

à deriva
dispersas

para ti o amor.

III

não serei o único

sobrevivente
das palavras esquecidas

[jamais]

Nota:
Os Quatro Grandes Ventos

Bóreas o vento norte frio e violento
Zéfiro o vento oeste, suave e agradável
Euro o vento leste criador de tempestades
Noto o vento sul quente e formador de nuvens
 
; ruem pelos outonos os pavores dos ventos norte

; velar-te-ei afugentando algumas rajadas inexistentes

 
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; velar-te-ei afugentando algumas rajadas inexistentes
mesmo não sabendo do que fujo

se da pedra que cresce
pelo repouso de um até amanhã

se da sombra dos braços do rio
que encobre a voz pousando pela madrugada
dispersando-me à nudez do vento
indiferente aos leves murmúrios

que persistem sempre.

I

mais vazio
mais longínquo

peregrino dentro de mim
sem o branco do luto.

II

acolhe-me ermo

desabitado
assim
desvelado

.renascer-me-ei então.
 
; velar-te-ei afugentando algumas rajadas inexistentes

,sem sementes de papoulas nas mãos

 
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,nascem pelo poente as cerejeiras despidas,
rejuvenesça-se a cor,
e o vento sopra de longe, escapa-se assim,

por entre os dedos sem vestígios.

(I)

,veste-te nesses gestos tão repetidos,
afinal, chove breve,
por um instante pensei nos sonhos despedidos,

partidos, rasgados pelas noites escuras,
sem sementes de papoulas nas mãos,
escuridões intempestivas,

haja boca que resista ao trago rápido do vinho.

,algumas vezes deixo-me morrer sem os cheiros
conhecidos pelas tardes que antecedem o crepúsculo,
por vezes sei das ausências surdas, símiles
aos pássaros em bandos escurecendo céus,

enquanto trompetas atordoam ecos que se revoltam,
entrincheirando palavras há tanto hibernadas, cacofônicas.

(II)

,sabes, quisera um dia salvações inúteis,
pela estrada que começou lá atrás, sem curvas,
vontades, um fim,

e levitei-te, e inventei-te,
quisera apenas caminhar os teus caminhos,

olha as margens, por onde a rouquidão repete os triviais
passos em volta.

,volto-me, sim.

(III)

,[regresso-me, rasga-me em silêncio].

Segundo a mitologia grega o Deus Hipnos era simbolizado por um menino alado com sementes de papoulas nas mãos, significa o sono. O que é interessante é que Hipnos tinha um irmão gêmeo Tanatos, que significa filho da noite e da escuridão, a morte.

Textos de Francisco Duarte
 
,sem sementes de papoulas nas mãos

,saturam-me

 
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saturam-me o dia indeciso, a lua,
qual buraco amarelado em De sterrennacht,

esta loucura que se esvai, definha,

as cartas de amor e quem nunca as teve,
as palavras que não saem, entopem, engasgam-me,
que provocam vômitos de sangue, ou de vinho tinto,

satura-me a foda que não dei,

o nojo, o grito.

satura-me esse alguém que se quer ninguém,

esse ninguém que se diz uno, indivisível,
que Job questionou,

a mesa de poker envolta pelo fumo dos cigarros queimados,
o vício, a presunção da água benta, a morfina,

saturam-me

as noites perdidas que se julgavam desvendadas,
embriagadas,
as manhãs pelas tardes a dormir,
(a barba por fazer).

e tantas vezes me saturo de mim que me satura o pensar,
a verve,

suturo a pele das cicatrizes abertas que me saturam
nestes perenes murmúrios, inacabados.

(I)

(intermináveis...)

De sterrennacht (A noite estrelada) pintura de Vicent van Gogh.
do Livro de Job:
“Se me deito digo: Quando chegará o dia?
Se me levanto: Quando virá a tarde?
E encho-me de angústia até chegar a noite”

Textos de Francisco Duarte
 
,saturam-me

; é-me estranha a imagem da estrada que começa

 
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; é-me estranha a imagem da estrada que começa
decepada
sinuosa.

É verdade que confio no caminho
por entre as cores do castanho outono
perfilando distâncias e as flores antes plenas que te estendo
sem a sombra do bando de pássaros migrando a sul

despedem-se os que nada levam consigo
partem embalados
talvez existam amores clandestinos algures
de nada servindo constelações ou cometas
além das nuvens escuras desveladas aqui
ali.

I

Então as mãos que se estranham
submersas pelo anoitecer
deixam de deslizar
o espanto que as guiava.

II

;ouço os passos da tua voz que se afastam
[como a estranha imagem da estrada que agora recomeço]

é assim a anteaurora
assim o teu olhar

velando-me

já nada depende de mim. enfim.
 
; é-me estranha a imagem da estrada que começa

; gritas as cores do silêncio símiles às orquídeas dos campos sem fim

 
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; gritas as cores do silêncio símiles às orquídeas dos campos
sem fim

sem o tédio que a poeira dos caminhos invade

I

nada te trago de novo
nem o tafetá para cobrir a nudez da cascata

porque as partidas são como os crepúsculos

sós
inertes.

II

enquanto os corpos se constroem

e a recordação peregrina
os esquecimentos

ser-me-á perene
a vã ilusão

de te alcançar

III

as aves
[antes voando sem rota]

descansam nas breves nuvens
por onde o sol
se esconde.
 
; gritas as cores do silêncio símiles às orquídeas dos campos sem fim

; aqui jaz a minha imagem

 
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; aqui jaz a minha imagem
mesmo que depois me morra
em sorriso. cansado

deixo os rumores meus
os sussurros teus. ou
os gritos vossos. afinal vivi

I
atravessei pontes rios mares
continentes e pessoas
alguns afins nenhures. algures
buscando encontrando
buscando regressando. partindo

II

silêncio pela casa do sol que nasce
já aqui. sim
hoje regressei. Infalivelmente

[num rorejar farto]

(; reintroduzindo-me em F.Duarte. libertando-o)
 
; aqui jaz a minha imagem

; as nuvens cobrem meu peito teu

 
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; as nuvens cobrem meu peito teu

são ausentes insepultas
do alguém que me pensa
contra aquilo de que me lembro

anjos que se afogam feitos sonhos
feitos estátuas estáticas
sem olhar para trás. os êxtases
tolerados.

I

linguagem que limita a subida galopante
da escada rumo ao paraíso sem nexo
desejo ou medo

perco-me e apenas escuto
como se uma simples pétala
afundasse a noite nevoeiro.

II

repete-se o acordar
[à espera. o tempo]

na tua cama.
 
; as nuvens cobrem meu peito teu

;assim seja o mundo fechado num punhado de ruas

 
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;assim seja o mundo fechado num punhado de ruas
sem espaços cantos

esse teu desejo fuga
só porque a morte nada exigiu
e o cometa à hora certa clareou noite
sem perdão
sem o troar que já não lhe pertencia expandindo
aquela dor estranha. o sopro preciso
arrancando um pouco da alma despida
desprotegida.

Tantos anos depois és apenas os olhos do pescador
que se atreveu a caminhar de frente para o pôr-do-sol

procuramos o lugar
mesmo pelas ressacas das pessoas por perto

o lugar apenas

ilusões de que a vida continua
os sorrisos
os beijos
os nomes
até os motivos

por fim (ou enfim, quem nota?) que se pinte cada gesto.

Sabes lembrei-me das orquídeas e dos seus voos
circulares
rasantes
qual dança lendo o espaço em redor

conheces o deslumbre?

I

[se teus dedos tocarem em mim quando a manhã entra abrupta no meu dia
lá fora
lá muito longe de nós
a metamorfose espraia-se em alguma borboleta que se esconde como uma ninfa]
...
Hoje vi-te assim
sem conseguir dominar
as pressas em chegar-te por perto

[os musgos continuam nos telhados].
 
;assim seja  o mundo fechado num punhado de ruas

,algures, tardiamente

 
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,que o tempo não pare, nem deixe de parir tempos!

(I)

,e eu abrando,
repetem-se cenas, visões, nenhures imaginados,
criações sem nuvens em redor, ou alfazemas do campo
agarradas à terra seca, gretada,

,e eu abrando,

,o amar torna-se ridículo,
quando regressam os odores conhecidos,
como se à tarde existisse sempre, sempre
um esconder do sol,

,ou um poema por ler.

(II)

,transmuda-se a pele em escamas,
pela viagem sem partida, sem gestos,

mímica que os nevoeiros escondem,
tapam,
,lenços brancos esvoaçam símiles a bandos
de pássaros em migração constante, sem tino,
sem rota,
loucos.

(III)

,quantos os loucos.

(IIII)

,um dia abate-se o céu pelo peso das estrelas,

,eu, abrandar-me-ei,

agitando esse pó que me cobrirá
inexoravelmente,
implacável o ondear sem reflexo, nexo,

figuras, sombras, pessoas,

uma amálgama que se debaterá então.

,o tempo parará a loucura,
,as aves morrerão em pelo voo, suspensas,
acamadas nos cirros estáticos, eternizados,
enraizados no parir dos tempos.

(IIIII)

,e eu repetirei-me-ei,
,sem pejo, impedimento;

“-As amendoeiras renasceram em flor, algures, tardiamente.”

Textos de Francisco Duarte
 
,algures, tardiamente

; uivam algumas alcateias por entre árvores que se refugiam

 
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; uivam algumas alcateias por entre árvores
que se refugiam
num salto elíptico formado no momento eterno

dos teus olhos nesse lado clareando o dia.

Tenho de ir
subitamente nasce uma opressão surda em mim
do que apenas ouço ou vejo

relembrando-me a brisa entrando por uma janela aberta
tocando bocas e mãos antes lavas perpétuas
cheias de cometas
estrelas estáticas
repousos
antecedendo viagens inúteis.

I

Enrolo o sonho mor que a intempérie frágil do gemido
iluminou
tempos
esperas
enquanto a manhã começa assim súbita
inútil
incrédula
enrolo o cigarro que fumo depois.

II

Sigo o caminho
não tenho como salvar-me de ti
aqui
tal como me pediste

[numa carícia pelo final de verão]

algures.

[liberta-me]
 
; uivam algumas alcateias por entre árvores que se refugiam

,do mar nem vê-lo

 
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de quantas ondas se faz um mar,
de quantos silêncios se faz uma saudade.
(interrogação para quê, para quem?)

De.

queda-se o olhar distanciado sem fixar ocasos, acasos,
e vibram pensares de como seria o mar que nunca viu,
sabe do céu, das constelações, da terra seca,
dos insetos rodeando a carne gretada,
tantas vezes,

sabe do sol, e da chuva fugidia, fingida,
do mar nem vê-lo, ou cheirá-lo,
para que serve o mar, perguntará sem pressas,

sabe desta terra de sal, das foices do tempo,
do ruir no inverno quente.

Dos.

redemoinhos de poeira que os pés calcam,
silêncios longos sem violetas ou arco-íris,
longe a beleza ardente da chegada sem crepúsculos,
do sorriso acolhedor,
e mesmo que sonhe em cor,
sente-se um prisioneiro deslumbrado , cego,

segregado de si.

E.

do corpo morto de melissa nasceram abelhas.

Melissa, era sacerdotisa de Deméter e foi iniciada pela deusa em seus mistérios. As outras sacerdotisas quiseram que ela lhes revelasse o que tinha visto. Mas tendo Melissa se recusado, foi despedaçada pelas companheiras. Como castigo Deméter enviou uma praga à cidade e do corpo da morta fez nascer as abelhas.

Textos de Francisco Duarte
 
,do mar nem vê-lo

; não desiste o vento de aplainar presença

 
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; não desiste o vento de aplainar presença
neste mundo curvado. ilumina

em outro nó aberto que resiste
ao cambalear moribundo de uma canção
pela vertigem final fatal

sei de um rio que se redesenha
possas tu pensar-me nos rastros do
silêncio que deixo pelo caminho. restos.

I

esvoaçam os cedros
transbordando muros em volta. olha
as papoulas que rodopiam aplacando
chamas em redor

II

uiva o vento na tua boca
em sede. o louco voou para longe
com o céu às cavalitas

III

para ti
parte de mim caça ventos sóis.



(; reintroduzindo-me em F.Duarte libertando-o)
 
; não desiste o vento de aplainar presença

; ruem pelo tempo subitâneo dias noites onde me perco

 
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; ruem pelo tempo subitâneo dias noites
onde me perco

se me cobre o rubicundo incerto de certas romãs
da mesma forma que volvo para nós olhares
inflados [porque não?]
vultos prementes

cheiros a canela alagam vozes de estrelas
que ouço sem entender.

Eis-nos aqui nós
aqui sós roucos
rastejando
somos transparências que se evadem deslumbradas

I

[e]
dizes-me:
- inflamam-me imagens revoando os sítios despovoados das mimosas

[e]
digo-te:
- guarda-me o cansaço dos orvalhos perdidos

II

é pelos telhados caiados a vento
que habito tudo

por esse todo
que me desabita.

III

Alumbra-me num dia assim
em que a morte

saiu à rua. só

(; reintroduzindo-me em F.Duarte libertando-o)
 
; ruem pelo tempo subitâneo dias noites onde me perco

,lábeis crenças

 
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Estranho.

(I)

A porta que se abre, o som do piano
em colcheias,
sossega o silêncio presente,
perigeus pululam, não tão distantes,
e na memória alterada por acasos. relegam-se

presságios sobrevivos.

(II)

Das mulheres de negro que restaram,
por entre as procelas de tantos
desassossegados instantes,
ruem outonais náiades paradas,

esperas fatais, estáticas.

És.

(III)

Reassume-se o espaço entreaberto,
lábeis crenças
pelo tempo que se esgota, os sons
refugiam-se,
e caem as divisões antes alicerces.
Apenas és,

sediado.

Textos de Francisco Duarte
 
,lábeis crenças

"Forfante de incha e de maninconia,
gualdido parafusa testaçudo.
Mas trefo e sengo nos vindima tudo
focinho rechaçando e galasia.
Anadiómena Afrodite? Não:"

("Afrodite? Não" Jorge de Sena)