Poemas -> Paixão : 

A DANÇA (quadras)

 
 
Acordo cedo para outra dança,
Uso a cor que vai lutar por mim.
Perfume é escudo, e minha lança
que diz "me olhe" sem dizer assim.

No espelho ensaio a pose certa,
Cada movimento tem seu teatro.
Essa cor no peito que desperta
faz do ritmo motor, é gás, é ato.

Eu me armo pra te desarmar,
Me visto bem pra poder me dar.
É guerra, sim, mas sem ferida:
Luto na pista, o prêmio: a vida.

Saio de mim pra te encontrar,
Eu viro ponte pra você passar.
Viro chão por onde vai andar,
Eu viro casa se quiser morar.

Eu saio de mim pra te alcançar,
largo tudo que eu era meu aqui.
Transformo no que você precisar
E só me acho quando me perdi.

Na vitrine o meu reflexo ri torto,
eu pego esse riso e levo pro salão.
Cada gesto é uma aposta, conforto,
O passo é lance de xadrez no chão.

Finjo que vou, que fico, andando,
feito a maré, que sabe ir e voltar.
O tempo para, fico te esperando
Vou, danço até o corpo se soltar.

Quem jura não faz, a gente acontece.
Não é promessa, é o que já se fez.
O corpo oferece, e a boca aquece,
E o futuro renasce dessa vez.

Quando a noite acaba, a luz acende,
esqueço quem eu era antes de entrar.
Se é a guerra o que hoje me prende
É por você que volto pra lutar.

Eu saio de mim pra te encontrar,
Eu viro ponte pra você passar.
Eu viro chão, viro teto, viro ar,
Eu viro tudo que couber no amar.

Eu saio de mim, e ao me perder,
descubro um eu que eu não sabia ter.
A guerra mansa me ensinou a ser
O que me torno se encontro você.


Souza Cruz

 
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 20/12/2025 07:42  Atualizado: 20/12/2025 07:42
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 Re: GUERRA É DANÇA (quadras)\cheiramázedo
10. Oficial de dia


No dia em que jurei bandeira
prometi nunca quebrar a jura
e a promessa ainda hoje dura,
às armas até à morte certeira.

Incerta é esta minha maneira,
maneira esta que não tem cura,
guardo em mim, também esta amargura,
cada um que mato, é-me asneira.

Matar ou morrer, morrer ou matar,
na guerra não há outra escolha.
Tenho o passado perto do futuro.

Tenho esse dia ainda no olhar...
só eu para ele se perde e olha;
tudo o que virá é um tiro no escuro.

In Dez Sonetos da Guerra na Crimeia por partes

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