Poemas, frases e mensagens de espigao

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de espigao

Pecados de marionete

 
Vestida pra noite
Saia bem cedo,
Nos lábios o sorriso
Enfeitando o medo.

A bagagem de mão
Levava no peito,
E uma tatuagem decoração
No braço direito.

Aprendeu a cuspir
E a chorar escondida.
Despia-se ao vestir,
Nossas fantasias proibidas.

Era mãe de três filhos
Nenhum dos pais conhecido,
Vinte anos de vida
Poucos deles vividos.

Tropeçando em seus sonhos
Vivendo em tempo irreal,
Onde tantos são estranhos
E ser estranho é ser normal.

No subsolo do mundo
A depressão é poesia,
A lágrima é a resposta a tudo
O que o sorriso escondia.

Mal vestida pro dia
Voltava já cedo,
Nos olhos a agonia
Denunciando o medo.
 
Pecados de marionete

Poetas caricatos

 
Uma estante vazia de livros
Cheia de garrafas pela metade.
Transpira-se desejos proibidos
Passiveis de nenhuma penalidade.

Rodeado por sombras vivas
E um monte de gente morta,
A realidade se reafirma
Pela luz amarela, espremida sob a porta.

O sorriso no retrato
Esbanja ironia,
Vendo seres vivos contrariados
Mais mortos que a própria fotografia.

Os olhos viajam por todos os cantos
Desencantados com a rotina.
Sem tempo de sobra, para novos planos,
Os sonhos se acabam onde a vista termina.

Entorpecidos pelo perfume da saudade,
Voltam a si esbofeteados pelo espelho;
Para digerirem a verdade
Estampada em seus olhos vermelhos
 
Poetas caricatos

Tempestade

 
Acordei tarde demais
Para ver o belo dia que fazia,
Cubro-me então com luzes artificiais
Assistindo a chuva do meio-dia.

Estampa-se em meu rosto
Alguma desilusão.
Segue o sol caminho oposto
Enquanto eu sigo sem direção.

O sorriso em desuso
Combina com meus olhos nublados,
Perdidos no belo e confuso
Mundo de riscos molhados.

Vez em quando corta a cortina cinza
Uma enorme enguia azul,
Como uma seta indecisa
Entre o norte e o sul.

O remorso é o que mais me dói
Num dicionário de sentimentos,
Sentimento que me corrói
Em relação a algo que eu nem me lembro.

Talvez não seja a chuva
Que lava o mundo do outro lado da vidraça,
E sim a tempestade de águas turvas
Que inunda meu peito e nunca passa.
 
Tempestade

Salmo 91

 
Não se impressione com o altar em ruínas
Por que a casa sou eu,
O caçador se perdeu pelas esquinas
E tua febre assassina
Passou e você nem percebeu.

À noite te trará coragem
Para a batalha que começara com o dia;
Serei tua única arma e bagagem
A chave para tua passagem,
Escudo para a bala cega que ti desafia.

Sobre a linha que divide infelizes e desgraçados,
Você assistira a morte eterna se cumprir.
A espada revoltar-se contra o próprio soldado
Exércitos inteiros tombarem ao seu lado
Incapazes de ti atingir.

A sombra de postes mal iluminados
Meus anjos estarão a ti guardar,
Sob o olhar aguçado
De serpentes esfomeadas
Ti acompanhando suspenso no ar.

E passeara indiferente
Mesmo perante o rugido do leão.
Quando invocado, estarei presente,
Reafirmando teus dias eternamente
A ti mostrar a minha salvação.
 
Salmo 91

Espectador

 
Há destroços de mim
Por todo o quarto,
Sobre o abajur, a televisão, enfim:
Sobre próprio retrato.

Um enorme quebra-cabeça
Que não se montara jamais,
Sopra o vento varrendo as peças
Sob o olhar da lua vazando vitrais.

Uma porta bate em algum canto da casa,
Um elefante de vidro se espatifa pelo chão,
Misturando-se as minhas migalhas
Já em principio de decomposição.

Vultos passeiam sobre meus fragmentos,
Ignorantes de minha agonia calada,
Enquanto assisto meu carpo se desfazendo
Sentado a cama sem fazer nada.
 
Espectador

Objeto de cenário

 
A televisão conversa sozinha
Enquanto me confesso em Marte,
Fantasmas assombram a minha cozinha
E o relógio avisa que já é tarde.

O telefone agoniza calado
E a memória grita coisas que me obriguei esquecer,
Derrete o gelo no copo quebrado
Que caiu antes de eu começar a beber.

Espadas de São Jorge à direita,
À esquerda: um varal pelado,
Frente a lua a espreita
De um homem dentro do próprio corpo encarcerado.

Meu juízo em cacos espalhados
Pelo chão frio da sala vazia,
Dez a doze livros empoeirados
Na estante ao lado de nenhuma fotografia.

No quarto; sob o olhar de luminárias bailarinas,
Um segundo frasco de perfume é assassinado,
Vitima da ira de uma cortina
Induzida pelo vento atormentado.

Divago, sinto saudades de um tempo,
Tempo que nem si quer sei se passou,
No espelho aos pedaços eu continuo me vendo,
Sem realmente saber quem sou.
 
Objeto de cenário

Pressentimento

 
Pressentimento

O dia de hoje
Parece estar me escondendo um segredo triste;
Passa arrastado
Cada segundo de uma vez
Soletrando lentamente o tempo
Como antes nunca o fez.

Dando-me a chance de apreciar
Saudades que até então eu não tinha.
Fragrâncias diversas dispersam no ar
É o vento voltando de algum lugar
Trazendo-me lembranças que eu nem sei se são minhas.

Tenho a impressão de um flerte platônico da morte
Sondando-me por frestas e janelas imaginarias.
As coisas acontecendo preguiçosamente
E até a paz me soa de repente
Excessiva e desnecessária.

Inconsciente me despeço do que os meus olhos dizem que vejo
A solidão que não me incomodava, agora dói,
E a cerimônia da dor é a melancolia
Dando ares de poesia
Aquilo que me corrói.

Assisto a sombras dançarem
E me arrepio com o frio de um inverno que não existe,
O sol continua sorrindo
Indiferente, colorindo
O dia que me esconde um segredo triste.
 
Pressentimento

Por Deus

 
Por Deus

Deus é aquele velho ranzinza
sentado em uma pedra que toda beira de caminho tem,
mordiscando o talo verde de capim gordura
e olhar perdido planície além.

Vez em quando coça o queixo,
outra vez espanta o mosquito,
abre a boca num bocejo
como se pra engolir um grito.

O vento inventa uma canção
e põe eucaliptos pra dançar.
Deus estsla os dedo de uma das mãos
ensaiando assoviar.

Levanta-se derepente
os olhos mirando por hora, o chão
o lábio inferior entre os dentes
ouvindo apenas a própria respiração.

Surge novamente o mosquito
e Deus já não esconde a indignação.
-Por que será que foi que eu criei este bicho?
e sai chutando uma pedra ,gritando um palavrão.
 
Por Deus

Discípulos de Tomé

 
Não me contento estar
no mesmo lugar onde esta você,
ti sentir sem ti tocar,
ti imaginar e não tiver.

Na incandescência da chama,
já ti busquei.
Na água fria de rios,
na lua hasteada no céu vazio
e até mesmo nas pedras que tropecei.

Ti talhei em madeira,
adornei com ouro o barro que ti esculpi,
ti construí catedrais,
imortalizei - ti entre os mortais
na forma que ti escolhi.

Adentrei-me em teus livros.....
um labirinto de metáforas,
discursos distorcidos,
ausência de sentidos
em excesso de palavras.

O milagre de estar vivo,
não,eu não desprezei,
mas me passou despercebido
enquanto era consumido
pelas contestações que alimentei.

Assisti a Darwins rasgarem tua poesia
e Galileus reinventarem o teu céu,
sustentados por uma sabedoria
de uma inteligência que se cria
a sangrar quem os concebeu.

Quando a percepção me permite
e a luz fosca da lógica é menor que o desejo,
a pouca fé que resiste
esforça-se para que eu acredite,
no Deus que eu busco e não vejo.
 
Discípulos de Tomé

Espera

 
A espera

A noite inteira olhando
Para o relógio fictício da parede de sua sala,
Os pés adormeceram e o resto do corpo começara a doer.
Ela deveria ter voltado às sete horas
Do dia anterior a este que vai nascer.

Balbuciando algumas palavras,
Uma espécie de prece vazando os dentes,
Meia dúzia de rosas repousa no jarro;
O jantar esfriara
E o vinho agora esta quente.

As janelas ficaram abertas
E a porta da frente destrancada.
A mesma canção se repetiu dezenas de vezes
Além da programada,
Sendo a lua de hoje só um risco céu
Manteve acesa a luz da escada.

O vento indiferente,
Promove um bale de cortinas esvoaçadas
E Sombras de samambaia por toda casa,
Enquanto era fuzilado por um retrato impertinente
Se acabando em gargalhadas.

Já se passaram mais de vinte anos,
Apesar do retrato, não há certeza de que a mulher existiu,
O homem continua esperando
Ainda da mesma cadeira olhando
Para o relógio que ninguém nunca viu.
 
Espera

Lua de Ìcaro

 
Escravo da insanidade
Despercebe a loucura,
Manifesta a liberdade
Ainda que por detrás das grades
Da pequena cela escura.

Orgulhoso das enormes asas
Sobrevoa a cidade,
Acima dos telhados sujos das casas
Mesmo que com as mãos atadas,
Bate palmas de felicidades.

Os pés no chão úmido e frio
Não lhe remetem a realidade;
Plaina sutil
Em seu vôo infantil
Tal como anjo de verdade.

Os olhos brilhantes
Miram por hora a lua que nos parece vazia.
Rasga ao meio nuvens gigantes
Extasiado com o azul cintilante
Que os outros homens não viam.

Enquanto a platéia aturdida assiste,
A busca continua.
No rosto aflito o sorriso insiste
E ainda que convulsionado o corpo resiste
Pressentindo a alma chegar à lua.
 
Lua de Ìcaro

Presentimento

 
O dia de hoje
Parece estar me escondendo um segredo triste;
Passa arrastado
Cada segundo de uma vez
Soletrando lentamente o tempo
Como antes nunca o fez.

Dando-me a chance de apreciar
Saudades que até então eu não tinha.
Fragrâncias diversas dispersam no ar
É o vento voltando de algum lugar
Trazendo-me lembranças que eu nem sei se são minhas.

Tenho a impressão de um flerte platônico da morte
Sondando-me por frestas e janelas imaginarias.
As coisas acontecendo preguiçosamente
E até a paz me soa de repente
Excessiva e desnecessária.

Inconsciente me despeço do que os meus olhos dizem que vejo
A solidão que não me incomodava, agora dói,
E a cerimônia da dor é a melancolia
Dando ares de poesia
Aquilo que me corrói.

Assisto a sombras dançarem
E me arrepio com o frio de um inverno que não existe,
O sol continua sorrindo
Indiferente, colorindo
O dia que me esconde um segredo triste.
 
Presentimento

Naufrago

 
Quando todas as mentiras boiaram
Eu fui obrigado a me sustentar sobre uma delas
Para não me afundar,
Mas a solidão, devido à indiferença dos que,
Mais que me ignoram
Tornou-se impossível a sobrevivência neste lugar.

Por todos os lados há fragmentos de um mundo
Que virou retalhos,
Meus pés flutuam longe do fundo
E o céu esta povoado de urubus,
O sol de um meio dia eterno me cozinha os olhos,
Daí minha esperança é chegar à ilha
Que a cefaléia produz.

Tive ainda a pouco a impressão de ouvir gargalhadas,
Percebi o socorro passar não querendo me perceber,
Senti a consciência se fazer uma ancora tão pesada
Pondo-me no meio do nada,
Preso ao que eu não quero ser.

A esta altura a sede me fez esquecer, a fome,
Os braços dormentes se recusam a acreditar em mim,
Ironicamente o sal me consome,
Come-me,
Sem pressa que eu chegue ao fim
 
Naufrago

Ressentimento

 
O ponteiro médio, o mais fino, passou outra vez pelo doze, decretando a décima nona hora do vigésimo nono dia de dois mil e oito, que como todo ano, salvo raras exceções, chove agora uma chuva destituída, rebaixada a chuvisco, lavando folhas já límpidas de jequitibás, quaresmeiras, ipês-rosa e castanheiras solitárias no meio daquele pedaço de mata atlântica.
Postei-me de costas, daí então percebo um prego, deveria estar ali á uns dezoito anos e eu nem me dava por conta.
Sustentou honrado, a fotografia preto e branco de casamento dos meus pais; primeiro filho. Segunda e terceira filha também, e também o quadro de Santa Rita de Cássia.
Agora apenas, expectador, como sempre, guardando segredos e memórias; torceu comigo ainda que calado; campeonatos de meu Santos que nunca vinham.
Foi em dois mil e dois, final, Morumbi. Santos três, Corinthians dois. Aquele prego festejou comigo, estático, mudo, preso em si mesmo, uma manifestação paralítica.
Meio a um emaranhado de teias de aranha, parecia-me mais preso ainda, dava-me a impressão de ter perdido a honra, a dignidade de ser um prego, pois indiferente assistia o debater de uma mariposa presa aos fios quase invisíveis que pendiam do prego numa manifestação de desprezo pelos seres vivos, embora o pequeno aracnídeo ao qual se aliasse mostrava-se tão vivo quanto eu, ou até mais, a fome ou a vontade de comer ou ainda as duas condições juntas, imprimem uma velocidade maior aos nossos estímulos, observava atentamente com seus quatro pares de olhos, o cansaço se apoderar do inseto já prestes a se render.
Eu que queria que o chuvisqueiro cessasse, não tinha poder para tal feitio, mas poderia enxotar a pequena aranha de minha casa, pegar o martelo e arrancar o prego; mantive o prego.
Subi em uma cadeira e com as mãos desfiz a teia mortal, a aranha fugiu e em vôo cambaleante, bêbado, a mariposa caiu aos meus pés. Apanhei-a entre as mãos e me dirigi até a varanda.
__Vá minha amiguinha, voe.
Ainda que desequilibrada, avançou e foi, foi até ser devorada de uma vez só por um pardal, que não estava nem aí para o final feliz da minha historia.
O prego permaneceu calado, estático, mas eu tive a impressão que ria.
 
Ressentimento