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A caixa de Pandora

 
Pandora abriu a sua caixinha de segredos, a caixa proibida. Regressou às memórias de um passado que lhe parecia distante, mas no entanto sempre esteve bem presente, camuflado por entre as brumas do subconsciente…
Pandora tinha na altura 21 anos de idade e um grupo de amigos enorme. Naquela época, juntavam-se todos ao Domingo de tarde e iam para casa do Sebastião, onde faziam grandes festas que duravam a tarde inteira. Era sempre uma grande farra, com a música no máximo, o pessoal aos gritos, a dançar, a fumar e a beber, ou a agarrar-se pelos cantinhos da casa. Pandora já conhecia bem “de perto” a maioria dos meninos da festa e essa popularidade ia sair-lhe cara.
Estava ela com algumas meninas no hall a dançar, a beber e a divertir-se muito, quando repara que se encontra sozinha. As outras, provavelmente teriam ido buscar bebidas ou fumar na varanda, ou até mesmo “confraternizar” com algum menino da festa. O que é certo é que ela não deu importância ao caso e continuou a dançar descontraidamente. De repente sente alguém aproximar-se por trás e agarrá-la. Assusta-se muito, mas ao virar a cabeça vê que é um dos seus melhores amigos e desatam ambos a rir à gargalhada e a dançar. Só que alguma coisa não está bem. Ele começa a tocar-lhe de maneira diferente, a apertá-la, a beijar-lhe o pescoço. Ela sente-se desconfortável, mas ri-se, pensando tratar-se de uma brincadeira de mau gosto, até perceber que não. Ele estava bêbado e enlouquecido! Começou a arrastá-la para a casa de banho e ela luta com ele, tenta libertar-se, mas ele tem mais força… muito mais força! Ela grita por socorro, pede ajuda, mas ninguém a ouve devido ao barulho ensurdecedor da música. Chateado por ver que ela não cede, torna-se mais violento e arrasta-a com brutalidade!
Já dentro da casa de banho encosta-a à parede e começa a beijá-la, a introduzir a língua na boca dela e ela sente nojo. Depois, volta-a novamente de costas para si e beija-lhe o pescoço e começa a percorrer o corpo dela com as mãos. Enquanto ela implora que ele a largue, tudo que consegue é sentir a boca dele colada ao seu ouvido, dizendo coisas como: “E tu gostas… e tu também queres…” – e mais um rol de obscenidades sem sentido. Por fim, ele tenta tirar-lhe a roupa, puxando com força, mas ela não permite. Desata a gritar ainda mais alto, luta com ele, tenta soltar-se… tudo em vão! Já desesperada, perde as forças por completo e não consegue mais fazer frente àquele ser desprezível. Não queria acreditar no que lhe estava a acontecer. Não queria acreditar que um dos seus melhores amigos, (em quem confiava cegamente!), estava ali a tentar violá-la. Desatou a chorar.
Pena, arrependimento, medo, nunca soube o que foi que aconteceu. Do mesmo modo repentino com que a agarrou, ele soltou-a e começou a chorar. Levou as mãos à cabeça e só dizia: “Mas o que é que eu estou a fazer? O que foi que eu fiz?” – e desfez-se em desculpas aquela menina destroçada. Ela só foi capaz de dizer-lhe que o desculpava, prometeu-lhe que não diria nada a ninguém e que esquecesse isso, afinal ele estava bêbado…
Pandora foi chamar o melhor amigo dele e explicou-lhe que o Eduardo estava na casa de banho a chorar porque se tinha lembrado da ex-namorada. Depois, ainda pensou desabafar, contar a alguém, fazer queixa dele, mas desistiu. Era a palavra dele contra a dela e com “a fama” que tinha, quem é que iria acreditar nela? Saiu da festa e nunca disse nada a ninguém…


Fui à floresta porque queria viver profundamente,sugar o tutano da vida e aniquilar tudo que não fosse vida.E não,ao morrer,descobrir que não vivi. (Dead Poet Society)

 
Autor
Paula Correia
 
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