O MUNDO DO SR. CON – 2021
Con sem compromisso, começou a esboçar o novo projeto literário. A noite avançava a passos de cagados para a madrugada de um novo dia. Não jantou, queria acostumar o estomago e a mente. O alarme do Corolla estacionado em frente a casa do PM disparou e tocou até a chegada de uma moto. Era um entregador de pizza. Con para não aparecer indiscreto fechou a janela. Apanhou “história de Pobres Amantes” do italiano Vasco Pratollini, releu as primeiras páginas, nesses últimos dias vinha relendo vários livros, apesar que ainda tinha seis livros cabaços comprados com a parcela do auxilio emergencial de Papai Bolso.
Decimo-quarto-dia – quinta-feira
Saiu da pensão com o sol bem alto. Dormira mal. Nem sentou-se para ler na praça. Estava atrasado. Seu Raimundo, o baixinho da bicicleta, mesmo com a mão direita inchada encarou a magrela. Pensou em encarar um a pescaria, mas desistiu. Descobriu que um selim quebrou uma peça. Ficou zangado com Con por este não ter as chaves para desparafusar o selim. Agoniado foi em casa e trouxe uma, e assim Con fez a solda necessária, ganhando 16 reais. Beleza. Gasparetto deu-lhe um vale de cinquenta reais. Então o diabo virou moleque.
No dia seguinte Dr. Smith deu-lhe meio litro de um uísque, um tal de Blach-street Honey e dai o homem resolveu feriar....
No sábado, o carroceirinho veio buscar as grades de Janos e o poeta já mordia uma lata, pediu emprestado cinco reais para Gordinho e subiu o morro. Pegou umas latas no credito na Jurema e saiu a charlar.... No final da manhã, o ápice final, Janos lhe pagou o restante – duzentos mil-réis – Ai meu irmão, não deu pra ninguém, o homem explodiu – deixou noventa com a senhora Vince e voltou para o mercado e se chapou na boa, emendando até a noite – acordou hoje ruinzão, o estomago naquele estado – mas ainda tinha vinte reais – Mas como todo bom fulero mordeu umas quatro latinhas que seu cumpadre lhe pagou.... amanhã será outro dia....
Decimo-oitavo dia - segunda-feira
Cães vadios extenuados pela noite insone vagando pelas ruas lúgubres da vila Embratel., descansavam merecidamente deitados na larga calçada do Valdecir, onde o poeta comprara um litrinho de agua mineral com gás e desceu para oficina. O céu nublado e abafado. Fraco, tremulo e suarento, qualquer pequeno esforço físico o cansava.
Para acompanha-lo naquela insipida manhã de segunda-feira, levava “Plexus” de Henry Miller, escritor nova yorkino, nascido e criado no Brooklin, autor do clássico “Tropico de Câncer” publicado em 1934 em Paris e por muito tempo proibido nos Estados Unidos. Con era fã incondicional dele e tornou-se seu discípulo. Teve o livro “Tuberculose” aceito por uma editora mineira, assinou o contrato, meses depois ela faliu. Decepcionado, resolveu não publicar mais nada.. mas continuaria a manter o seu inseparável diário. Fazia uns bicos na oficina pela manhã não queria mais encarar grandes encomendas e nem nada de responsabilidades. Levava uma vida de poeta errante, perambulando a esmo pelas vielas do mercado, tentando reavivar a sua ferve poética, sempre com uma latinha de Glacil como companhia. Ferrando uns e outros para inteira-la. Talvez o bom e velho mestre Miller o incentivasse a voltar aos seus sonhos de adolescente. Certa vez comentei a esse respeito:
- Vá se foder, o meu tempo já passou, se quando eu era mais novo não decolei, agora que sou um velho decrepito que vou? Não meu amigo, as ilusões já foram perdidas.
Finalmente almoçou um bom cozidão de uritinga com o caldo bem grosso, três dias que não comia nada, só enchendo a cara. Pobre homem sem fé em si mesmo -Incitado por Miller resolveu correr a vista em “Tonio Kroeger” do mestre alemão Thomas Mann. O que ainda fazia viver era a literatura, quando não estava nas águas deliciava-se com os clássicos que tanto amava. As vezes pensava que viraria um Dom Quixote moderno pirado de tanto ler. Quem sabe um dia os ventos mudassem de rumo e ele de pensamento.....
Com muito esforço e bota esforço nisso, serrou as seis pontas das cantoneiras do portão chapeado das irmãzinhas. Esbaforido, banhado de suor, destilava como uma chaleira. Esse lhe tirava de tempo, eram tantas as preocupações negativas – uma hora achava que as cantoneiras eram muitas estreitas e que a estrutura ficaria muito a desejar, tinha também a chapa que prometera botar inteira, mas infelizmente tivera que cortar em três secções. O que poderia acarretar a aborrecimento ao dono e assim uma carreta de problemas aflorava na sua frágil mente. Ainda na pensão na cabeça a beleza musical da icônica banda cubana “Buenas Vistas Social Club. Eram uns simpáticos senhores músicos de Havana que encantam o mundo.
Depois da tarefa, agora era sombra e água fresca – pensou quando após beber o substancioso café com leite e pão que apanhava todos as manhãs na casa do amigo Gordinho, mudou de farda aboletou-se confortavelmente na velha cadeira abacial para reler “O Planeta do Sr. Sammler” do grande Saul Below. Mas aos poucos foram chegando os habitués para conversar e tirar-lhe a concentração da preciosa leitura e assim com aportaram partiram silenciosamente como aves de arribação. Então finalmente poderia relaxar e fazer o que mais gostava – ler e viajar por cidades que nunca visitaria. Dessa vez é Manhattan, o bairro central de Nova York onde mora senhor Sammler, um judeu polaco, inglês por adoção, viúvo que perdera a mulher na Polonia em 1940. Um excelente livro que comprara em setembro no sebo Paço Prosa, no bairro da Praia Grande(Projeto reviver) com a primeira parcela de 600 reais do auxílio emergencial – Oh! Doce saudade.
Ao meio-dia sentado na calçada do Adolescento na rua 16, na lateral direita do mercado, debaixo de um vistoso Ipé-Rosa. O compadre pagou-lhe duas latas de Glacial – as funcionarias das lojas Maycar despediam-se efusivamente como alegres colegiais – Seu Manuel genro do finado Manoel dos Fogões sentado a porta do estabelecimento herdado pela esposa atendia uma bela cliente de pernas grossas. Secou a lata e entrou no mercado. Os boxes todos fechados, Seu Lucas, o peixeiro arrumava suas tralhas sobre o tabuleiro azulejado, observado pelo decano colega e vizinho Seu Berrete que ouvia o radio sentado num banco alto de madeira – O irônico camaroeiro Seu Lucas ensacava seus produtos para guarda-los num pequeno deposito algumas quadras adiante. Com uma latinha na sacola Con rumou para a pensão. Almoçou um macarrão frio, torta de frango. Enfim uma pequena siesta. Os pedreiros continuavam na labuta. Desta vez no quarto de Caçulinha e depois no do casal. Um marceneiro montava um armário recém-adquirido. Os cães agoniados presos na sala de computador. E Con relia deitado nos seus humildes aposentos um em livro francês “Je reste um barbare” de Roger Boutefeu... C’est la vie d’un poète.
- Sabe como é, preciso zelar e preservar a minha imagem perante o público – arrematou solenemente e ofereceu-me uma lata, que aceitei de bom grado e assim paz voltou entre nós.
Assim é o velho Con, desconfiava que sofresse de transtorno bipolar devido ao consumo excessivo de álcool. Aguas passadas
A bela e donzela filha do sapateiro, com seu belo calipígio dançando num vestido, uma visão magnificantemente extasiante para os olhos cansados e mortos de um poeta celibatário. O pirado do Frank Puro todo entonado: quepe preto, mascara branca, camiseta negra, bermuda jeans rasgada mecanicamente como a dos cantores de rock e filhinhos de papai e um vistoso tênis azul. Diziam que pirou em Porto Alegre depois que papou um frango de despacho que encontrou de bobeira numa avenida qualquer. Dona Bilu, uma baixinha morena apetitosa e micro fazendeira do Monte das Oliveiras veio procurar pelo ferro de marcar gado. Con o prometeu para sábado. O aceno da simpática e jovem empresária que queria comprar a oficina para montar uma boutique e seu apartamento.
Con encantado com a prosa verborrágica do mestre Saul Bellow em “Planeta do Sr. Sammler”, prêmio Nobel de literatura de 1976 – escritor de origem judia, muito bom. Gostaria de ler a sua obra-prima “Herzog” de 1964.
A cerimonia de posse de Biden numa Washington sitiada com a presença de ex-presidentes deixou Con emocionado que secou o litro de vinho da senhora Vince. Ele era assim gostava dessas pomposidades desses eventos – casamentos reais e etc e tal – e um temporal tropical desabou sobre a Vila Embratel, obrigando-o a desligar a televisão e refugiar-se no seu aconchegante aposento ao lado de seus amados livros. Os olhos umedecidos adormeceu
Problemas, problemas e problemas e nada mais de que problemas – assim estava a confusa e traumática mente do Sr. Con depois que soldou o quadro de cantoneira do portão das pixixitinhas e antes uma solda no quadro da bicicleta do agoniado Seu Raimundo. Chuviscou a madrugada toda e o céu ainda enferrujado, sem sinal do sol.
A foto do sacana do poeta Constantino ou melhor Sr. Con correu o mundo e teve mais curtidas e comentários de que meus textos insípidos que escrevo sobre ele. No dia seguinte ao visita-lo na oficina, encontrei-o transtornado e ao ver-me foi logo me perguntando:
- Quem te autorizou a postar uma foto minha, seu filha da puta?
Tentei contornar a situação, mas não queria ouvi nenhuma explicação e continuava a insultar-me de uma maneira que me vir obrigado a sai de fininho.
Encontramo-nos casualmente dois dias depois no box de Seu Raposo, tentei evita-lo, mas chamou-me, achava-se em estado de graça depois de algumas latas, polidamente pediu-me desculpa, alegou que agiu irracionalmente sobre efeito de uma ressaca e advertiu-me como um mestre escola para nunca mais postar uma foto sua sem sua previa autorização:
Ainda escuro quando começou tirar os livros da estante de madeira e espalhando-os sobre a escrivaninha e a cadeira. Vão rebocar a parte alta do seu adorável ninho. Desmontou também a cama. Oh! Coisa chata essa coisa de reforma. Ele detestava. A senhoria o pressionou e até foi chamado pelo impassível Sr. Vince afônico devido uma constipação. Nesse rebuliço esqueceu onde colocou o “Planeta do Sr. Sammler” então resolveu levar “As Aventuras de Nick Adams” do grande mestre de Oak Parks, Illinois – Hemingway, um revolucionário literário que criou uma linguagem própria, a chamada “telegráfica” – amigo de Joyce, morou muito tempo em Paris, como correspondente e intimo de Fiitzgerald, que o encaminhou para o seu editor Max Perkins, que publicou o clássico “O Sol também se levanta” uma das maravilhas da literatura moderna. Con o reverenciava e o relia constantemente para aprender a técnica. Mas parece que nosso amigo não conseguia. Uma pena – também preguiçoso, em vez de insistir preferia encher a cara e ficar zanzando etilicamente. Tinha seus motivos e não vamos entrar no mérito da questão – como sempre dizia-me: “Cada um carrega a sua cruz e eu carrego a minha.. lata de cerveja”
A tarefa da manhã, cortar a chapa para encaixa-la no quadro do portão. Um serviço chato que requeria muita precisão e paciência para manejar o martelo e a talhadeira. Nada de afobação – refletiu ao chegar na oficina, sentou-se. Analisou todas as situações e friamente como um neurocirurgião começou a delicada operação. Suando a cântaros, cortou a primeira, são três e resolveu parar – o cansaço era demais para o seu pobre corpo velho - Decidiu que adiantaria as letras MP do ferro de Dona Bilu. Respirou fundo e bebeu o café com leite que Mozabila lhe trouxe e o cumpadre deixou-lhe o pão.
Uma coroa branca e apetitosa, toda apertadinha numa justa calça de moleton, toda sardenta de óculos na ponta do nariz, do jeito que o poeta gosta – “Ah se meu dinheiro desse” lamentou-se mentalmente, levantando-se da cadeira e ficando em pé na porta para admirar o seu belo derrière. Desiludido voltou a sentar-se e com a mão no queixo ficou a pensar; “Também todo o pouco dinheiro que pego é só para beber” Foi interrompido pelo Bom Sapateiro Oswald que parou no meio da calçada e ficou a olha-lo e a rir e foi embora para o seu atelier dentro do mercado, onde Con já alto sempre o perturbava. Do outro lado a seria professorinha da street 25, toda compenetrada, cheia de não me toques, deslizava, balançando sutilmente os cabelos sobre os ombros, cara fechada para não dar intimidade. Con fez apenas um muxoxo e apanhou um livro sobre as falcatruas do velho mafioso Sarney – o Dono do Mar.. anhão – Apesar de tudo Con o respeitava, afinal o homem foi presidente da república. Um fato bem inusitado, que ninguém esperava.
- Eh! Campeão – saudou-lhe o carroceiro Barrabás montado garbosamente na sua encardida burra branca.
Aprontou as letras e as ferrou com tinta preta no pano do armário. Faria o acabamento, juntamente com o outro do senhor de Viana no sábado na oficina de Karl no bairro do Portinho, centro. Gasparetto de volta do trampo, conversaram sobre política. Na pensão, o pedreiro Zé Grandão e o ajudante Gato Guerreiro davam o grau nos seus aposentos. Com a ultima cédula de dois reais correu até Valdecir e comprou uma latinha. A senhora Vince no seu pé para cortar os canos enferrujados de uma estante que ela lhe deu para substituir a de madeira, que mdf esta se esfarelando.