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Poemas, frases e mensagens de Nininha

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Nininha

A força de um poema

 
Conheço o mundo segredado
pelo calor de agosto
mas a soma de todos os medos
magoa-me os sentidos
e oferece-me uma inércia que dói,
uma dor tão profunda
quanto o mar…

e descanso os olhos sobre a janela
do cansaço…

dirijo-me à porta da alma
e vejo que chove
um silêncio de gotas minúsculas…

saio e rasgo o vestido
desbotado, de costuras
cosidas a linhas pobres…

recebo cada gota
no milagre da minha pele
de braços abertos
num abraço único e só meu

e danço de pestanas cerradas
a música que tropeça
na saliva da minha boca,
e sinto-a percorrer
a valsa plana
nas curvas das minhas margens…

danço o feitiço das horas
germinadas na minha vontade
como num mergulho sem mar…

danço o impulso do sorriso
que a felicidade emana do perfume
a terra molhada
de uma sofreguidão lânguida…

e sinto-me feliz!

A escuridão oculta as angústias
e a chuva lava-me a flor de sal
que encubro na pele…

adivinho o planeta
que as mãos aconchegam
no vinho da embriaguez
que tem a força de um poema!
 
A força de um poema

A sul

 
 
Foi no sul dos meus olhos
que depositaste a entrega serena,
a palavra sémen
com que fecundaste o poema.

Vieste acordar-me o mar
marulhando letras adormecidas
há muito
nas minhas entranhas e,
mergulhando,
mesclaste de anil
a concha das mãos
cobertas de manhas.

Ah! Foi no sul da minha nuca
que enfrentaste a guerra solta
dos meus cabelos e, docemente,
murmuraste
a ladainha das sílabas,
suave novelo
das minhas emoções.

Vieste aconchegando
a tua voz nos meus ouvidos
como se a sul me rondasse a alegria
como borboleta dos sentidos
e me estimulasse a magia
do pólen presente nas rimas
dos tempos perdidos.

Foi no sul, no meu sul
que abriste a janela suspensa
no limbo do sonho de carinho
onde marcaste a diferença
quando fizeste do meu colo
o ninho
do nosso amor.
 
A sul

Invicta brisa fria

 
 
De janela aberta ao vento norte,
percorre-me uma invicta brisa fria
a pele…convite declinado
de uma emoção
que range
nas junções das portadas.

O sol incendeia os campos
neste “por de mar”
entre os vales
tristes e sós… enquanto
as nuvens escuras
se aproximam
do temporal
das minhas têmporas…

Fecho os olhos e afago-te
a mão invisível:
“Não te preocupes,
há de haver um novo sorriso,
um novo amor à poesia!”

Mas as letras não se conjugam
e a história mareia
na seara

que o verão morreu.

O silêncio entranha-se
como foice obrigatória
de um refrão
que perfura durante horas
as espigas d’oiro.

E brotam poemas nas pétalas
acriançadas
das papoilas
navegando-me
e naufragando-me
na boca.

Fui tão pouca praia
para tão grande oceano…

que transformei os grãos de areia
no rochedo do Adamastor.

Agora posso agigantar todo o meu amor.
 
Invicta brisa fria

Jesus

 
Vesti-Te do linho branco
que tem o dom da pureza

jamais pensei na tristeza
de Te renegar tanto

foi o medo, foi o medo

Ouvi o galo cantar
e o trote dos cavalos

e Teus olhos a chorar
e rejeitei o abalo

foi o medo, foi o medo

manchei minhas mãos
com os espinhos
que coloquei na Tua cabeça

choraram os pobrezinhos
Tua mãe sofreu de tristeza

Foi o medo, foi o medo

Coloquei-Te então na Cruz
preguei pregos com o martelo
apagou-se no céu a luz
trovejou em nós um flagelo

tive medo, tive tanto medo

PedisTe o perdão por nós
mesmo antes de morrer
a esperança
não ficou só
viesTe para nos defender

tive medo, tive tanto medo

RessuscitasTe ao terceiro dia
conforme diziam as escrituras
com Tuas mãos milagrosas
devolvendo a harmonia
e a fé

Obrigado Senhor, não tenho mais medo!
 
Jesus

Pecado

 
 
Empilhados sobre o céu em sorrisos,
brilham pomares de loucuras renovadas.

São eles que me alimentam os dedos
plenos de volúpias
e que se acercam dos teus lábios,
paraíso onde as folhas me desnudam
o azul do eclipse solar.

Embriago-me no mel do poema
que tens na voz e
enrosco-me paulatinamente
ao tronco das tuas raízes, como serpente,
coroando-te o peito de beijos impunes,
incólumes, de desejo…

Langorosamente roço os dedos na maçã
e as veias segredam-me
o quão maduro está o teu perfume…

E as folhas lavadas pela lavanda intrínseca ao mundo
sabem o nosso segredo…
suspiro suave,
que nos impele rumo ao pecado do amor.
 
Pecado

Aqui jaz…

 
 
Às vezes caem-me sorrisos das mãos
quando sei que não vens ver-me

Não sei bem se é o fogo do nascer do sol
a queimar-me as pálpebras
ou se são as lágrimas a teimarem em cair

Sei apenas que amanheço
e ao longo do dia esqueço-me de viver
porque explodem solidões aqui tão perto…

Ouço-lhes os gritos funestos
e nada posso fazer…apenas escuto.

Já perdi o norte da voz amiga
por entre as músicas que tocas sem parar
e que escuto através da janela aberta

Já não sei que perfume têm as tuas mãos
ou se sabem a beijos ou à última bala
cravada no meu coração

Já não procuras a fogueira acesa do meu sorriso
e não atiças aquela gargalhada na minha escuridão
de barro (quebrado)

Desconheço as rimas dos teus passos
na calçada do dia-a-dia
e ignoro os nomes das ruas por onde passas…

Entendo todas as letras que a distância deposita
paulatinamente nos degraus da minha moradia
mas não percebo de que é feito o vaso
perfeito do amor…

Creio mesmo que plantaste uma rosa de plástico
junto ao pontal da tua praia para homenagear
a melancolia

É de pedra escura a epígrafe que escreveste
na sepultura do terror:
Aqui jaz um grande amor.
 
Aqui jaz…

Mutismo seletivo

 
Mutismo seletivo

Mordo este mutismo seletivo de frases inacabadas
nas palmas das minhas mãos
e com cuidado, separo o grito aflito da navalha
acobardada
cortando cada pedaço de cicatriz cravada na solidão

sangram-me os verbos, doem-me as penas,
falta-me o hálito segredado
e fustiga-me esta ternura insone que me agrilhoa o pensamento

desbrava-me
silente
num desencantamento que me invade

mas tu vens, chegas de mansinho num poema,
desces os degraus do viço e enlaças-me
num abraço

inspiro ferozmente a amargura das lágrimas
e sobre as pedras, já gastas, de tão puídas
pelos meus pés,

coloco a missiva dentro da lâmpada
aguardando-te, Aladim na minha previsão,
que passes a tua mão no desejo

e descortines, de vez, a presença do sol
que tão bem conheço nas veias
num tartamudeado rubor

quando a frescura da primavera se levanta,
escondida há tanto tempo nas atípicas monções,
na missão cumprida em meu louvor

sinto-te sobreiro profícuo no teu versejar
atónito, nas sílabas saborosas das folhas
e até na cortiça dos lábios suaves…

magia da lavoura das letras que me fazem
curar o sonho de “Bela Adormecida”
ao picar o dedo na roca da paixão desmedida

sou a terra das frases
o barro das palavras, o húmus das raízes
o sol abrasador ou a chuva de gotas felizes

caindo mudas nas metáforas que digo

que dizes!
 
Mutismo seletivo

Promessa de outono

 
Combinemos o preâmbulo, pouco ético, entre a chuva e a terra molhada deste outono. Na verdade, todo ele será poético, uma vez que se sente o aroma das madressilvas impregnado do hálito de Pã, enquanto Chronos converte o tempo em fénix renascida. Sabemos que, enquanto houver uma romã, os lábios serão o alvo frágil do mosto proposto por Baco. E que as uvas amadurecem a inquietação no sangue, e os trovões obrigam o céu a relampejar incessantemente perante as letras do nosso dicionário. Tudo o que observamos tem a forma de uma castanha ainda refugiada no seu ouriço, com o receio do contágio das gotículas que caem nas folhas abertas às cores do arco-íris. Também elas caem agora, perante as propostas indecentes de Éolo, murmurando a ladainha do vento que arrepia a alma, trazendo consigo o mesmo olhar e o presságio do doce de abóbora que combate as desilusões espalhadas pelo chão. O único consolo são as vidraças da janela, de olhos marejados pela chuva e encantados com o arrulho das pombas no fio dos telefones, apesar do pranto dos céus. Na certeza, porém, de que o Oráculo da natureza será preservado enquanto as minhas mãos puderem escrever uma única palavra de apreço ao prazer de beber um chocolate quente. Não existe caudal mais lindo e puro do que esse preâmbulo aberto às palavras de um poema por nascer…uma promessa!
 
Promessa de outono

Fado queixume do mar

 
 
Sabes, ainda sinto
a cicuta
do som da tua voz
em cada palavra escrita
na superfície das ondas
nessa cilada perfeita
da leitura do teu olhar

Ainda me sabe a boca
ao mosto do poema
embebido na ironia salgada
que arrastavas
na derme dos dedos

Em vão, vacilo, perante a história
cingida pela cintura
que a sintonia envolvia na vastidão
desse imenso soletrar

Salivo no rosto
o fogo posto
perante esse sabido
desgosto, tão ténue,
mas tão intenso
como a maré desse mar

Ah! Rugido das águas
de encontro às rochas
da desilusão tão certa
da desilusão tão dura
da descoberta
sedimentando sílabas
desgastando a ternura…

O teu poema é fado
perdido de tão encontrado
na orla do tempo
a vagar…

Emerge do sal e sobe
a amurada das minhas mãos concheadas
e lava o veneno das frases
que poluem as areias douradas
e salva o perfume
do búzio que escuto ao longe
num queixume
a naufragar…
a naufragar…
a naufragar…
 
Fado queixume do mar

As minhas mãos

 
Por vezes, as minhas mãos cedem ao impulso
de passear fora dos meus pensamentos
e, desvairadas, procuram descobrir-te a forma:
as curvas, os declives, os cumes,
como se o meu desejo fosse expulso
por tão louco anseio tornado tormento!

E elas escapam-me numa avidez
não planeada, tateando em suspiros
o teu gozo sem fingimento
numa libertinagem sem ar, nem timidez!

Arranham-te o ego, cobrem-te de luxúria…

E por fim…devolvem-te o êxtase
que andas a perder…em fúria…
num arroubo de sensações
por entender…

São elas, as minhas mãos…por ti…
a ceder…
 
As minhas mãos

Perduras

 
Muito perto da linha
que toca o horizonte
existes – tu –

Minha laranja madura
envolta em brumas
de lonjura
- erigida sobre o monte-

Meu pomo ácido
que me curas

Meu círculo tácito
que tanto fulguras

Meu cofre amado

Minha súmula

Não me pertences
mas para sempre
perduras…
 
Perduras

Roca

 
Já não renasço
como outrora
em cada passagem do tempo

(adormeci o esquecimento)

Agora só remendo
os ciclos das estações
de mais um ano,
fio a fio,
na linha pobre e fraca
de cada entardecer

Já nem costuro
a tristeza às lágrimas,
nem bordo
o coração com ternuras

(tecido antigo da paixão passageira)

O ponto sem linha
foi colocado
nas cores que o fim merece

(beijo perdido no encanto que não há)

E eu sou pano cru
desbotado
de saudade
refugiada num mínimo dedal de amor

(um nó que evaporou no vazio)

E a minha sorte
fica na ponta da agulha
que fere
e sangra as agruras,
no balanço
da roca

que roda de dor.
 
Roca

apenas um pouco de ousadia

 
quando estás para chegar o desassossego marca pontos nas borboletas do meu ventre como se um caçador atirasse a rede e deixasse sair o ar

é então, que os sonhos brancos sobem as paredes do quarto e fica tudo tão claro

até a janela se enche de palavras pequenas enquanto as cortinas
sussurram saudades

enfeito o chão com pétalas rosas que se abrem como lábios sedentos dos teus passos

uma jarra ajeita as tulipas brancas misturadas com sinceridades ansiando o teu olhar

a colcha de tecido macio do pêssego abre os braços para que o teu corpo, em flor, incendeie o tato

o meu vestido perde-se da pele dourada como abelha procurando os favos de mel da tua boca

e quando a porta se abre deixas a ausência presa no trinco do lado de fora: não incomodar

e tu…entras na minha fome de pão ázimo com a faca afiada num suplício manso investindo p’la noite dentro…
 
apenas um pouco de ousadia

Marinheiro

 
 
Ergo em nuvens perfume a incenso
Escondido naquela solitária madeira
Do tal albergue prazenteiro na beira
Da praia dourada desse mar imenso

E lanço sinais na palavra verdadeira
Para teus olhos, mergulho suspenso
Num amor proibido, de odor intenso
Embriagante qual gesto a vida inteira

Inclino meus lábios em beijos morrentes
Para uma silhueta bailando nas ondas
Tão longe dos abraços que já não sentes

Miragem do marinheiro em luas redondas
Acenando o adeus em frases decrescentes
Veleiro da ausência na história que contas
 
Marinheiro

Letras apenas

 
Sempre que me tocas com todas
as letras do teu olhar,
soltam-se estrelas-poemas
num céu por inventar

Sempre que acaricias com letras
os fios dos meus cabelos,
criam-se todas as lendas
em sonetos singelos

Sempre que afagas meus lábios
com letras de doce sabor,
nascem versos imaginários
elevando o nosso amor

Sempre que beijas a minha pele
com letras de puro encanto,
doa-se a frase que impele
as mentes ao espanto

Sempre que nos encontramos
nas letras do pensamento
aparece a poesia onde estamos
unidos em sol ternurento

Amo-te nas letras que escrevo
arrumadas em harmonia
onde estamos em relevo
por um caso de analogia

Quero dizer-te meu querido
com as letras do meu coração
que em cada verso diluído
emerge a nossa paixão
 
Letras apenas

Acende-me

 
É esse olhar que me provoca
E me fascina, desatina o coração
Num segundo deixa-me louca
Noutro deixa-me em reflexão…

São as tuas palavras um desafio
Constante, maravilhoso e estimulante
Muitas das vezes (ai tantas!) arredio
Outras (não poucas) inebriante!

Só tu me viras do avesso
Absorves a minha tristeza
Com esse teu ar travesso
Sobressaltas a minha franqueza

Não quero que fiques sério
Quero a tua gargalhada
Conta-me histórias do teu Império
Como se eu não soubesse nada…

Dá-me o sabor da tua boca safada
Sente o céu que há na minha
E com a volúpia encontrada
Acende o fogo que se adivinha!
 
 Acende-me

Corcel alado

 
Prendi os meus cabelos
por dentro das tuas mãos
e arquejei no solfejo da tua boca,
minha doce prisão…

pintei o rosto com o teu manso olhar
de sol poente
e vesti o corpo com os afagos
dos teus dedos, lascivos e sôfregos,
irrequietos,
num tecido bordado de ternura mística,
perdida no deambular extasiante
da candura!

Matei a tua sede no meu mel,
debruado a dependência faminta…

e fiquei no limbo entre o ar rarefeito
e a respiração ofegante do teu peito!

E saí voando no corcel alado
do meu prazer,
calcando as pegadas voluptuosas
no céu das nuvens do Olimpo sonhador…

Não sei se demos as mãos nesse instante,
ou se, simplesmente…perdi a noção…

no auge da imaginação,
quando rendida,
retornei ao ritmo apaziguador
do bombear do meu
coração…
 
Corcel alado

Vive-me o poema para sempre, amor

 
 
Por favor, não me morras o poema…
esse que mora
nos meus pensamentos mais íntimos
e que só a ti confidencio.

És a minha alma,
gémea na emoção
e na loucura, e na vontade, e na solidão…

Ambos bebemos o sumo
do fruto proibido da vida,
deleitamos os sentidos
na fonte imensurável do prazer...

Colorimos a aura
por dentro dos corpos
numa vulnerabilidade aguda
que se espraia pela saliva,
pelas saliências aduaneiras
da razão descrita em amor
na poesia…

Há tanto tempo que me colheste
ainda em botão na escuridão do passado
e aos teus cuidados
fui florindo
e das nossas mãos brotaram
borboletas dos silvados
onde o vinho murmurou nas bocas
o pecado que enterrámos
nos espinhos…

E o nosso abraço
instintivamente escrito nas estrelas
segredou-nos a metade que faltava
nos nossos corpos
sem obedecer a julgamentos
ou a punições do código genético
da sociedade!

Crescemos a cada dia
na mesma ótica de valores
enquanto as virtudes emolduram
o nosso parecer…

Somos dois
numa unicidade idêntica
onde as palavras
caligrafadas nas peles
correspondem à imensidade
frenética
do desejo…

Por isso
peço-te:
vive-me o poema
para sempre
e acrescenta-me as letras
para suspirar a lua
que trazemos
no olhar!
 
Vive-me o poema para sempre, amor

Promessas

 
Raiam promessas nas paredes brancas
e esta incompletude da casa cercada
de tanto crepúsculo, a sede encerrada
qual casulo de palavras vagas, francas

bamboleando a cortina à janela sonhada
num conto intenso pelo vagar das ancas
fechando vontades com todas as trancas
perecíveis num gesto de ternura adiada

e o teto abrindo a clarabóia ao luar
de dentro o melhor surgindo por magia
como chaminé erguida para respirar

divisões concertadas em todo e cada dia
num pouco de céu, num cheiro de mar
à benesse da mudança, à doce empatia
 
Promessas

A noiva

 
Naquele tempo havia o ébano contraste
com a colcha branca da manhã
e um terno sorriso nos olhos luzentes,
enquanto as faces rosadas eram a dádiva
ofertada a meia voz
(com o silêncio que o bom dia despertava)
e o único quadro sobre a cama emergia
envergonhado ainda pela noite virgem
desflorada a pano cru e flor-de-laranjeira
e erguia-se o véu na cadeira já gasta,
coroando a graça
de ser (tua) mulher!
 
A noiva