Contos

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares da categoria contos

O sedutor

 
Não tenho a culpa de ser bonito. A culpa será dos meus pais...
Além de bonito, sou rico, dois imãs que atraem as mais belas mulheres. E no entanto ainda nenhuma delas me conseguiu prender... Aliás, acho isso de todo improvável.
As mulheres são umas provocadoras natas e a dita revolução das mulheres só veio acentuar ainda mais essa tendência. A mulher de hoje, sai para ir à caça; passou de presa a caçadora e muitos homens caem na rede da sedução.
Mas eu não sou presa fácil; aliás nunca o fui, nem serei. Faço por vezes esse papel, mas é por pouco tempo... Muito pouco tempo.
Foi o que sucedeu à minha última conquista...

* *

De vez em quando vou à cidade à noite. Nunca entro duas vezes na mesma casa - sou demasiado fino para correr riscos desnecessários...
Mal me acabara de sentar com um copo de uísque em frente, e já uma bela moça se chegava atrevida e insinuante...
- Olá bonitão! Pagas-me uma bebida?...
Fiz-me de novas e respondi esboçando um sorriso:
- Claro! Porque não?!... E fiz um sinal para o bar.
Vi logo que era uma dessas insaciáveis conquistadoras, em pleno acto de caça... Embora ela não o soubesse, éramos dois caçadores, só que eu assumindo o papel de incauta presa...
Ao fim de uns minutos, ela já tinha tudo “sob controlo” e foi então que ela fez uma curiosa insinuação, depois de mais uma mordida no meu ouvido:
- Estou em brasa... Quero ser “comida por ti”...
Não me fiz rogado e, enquanto me ria interiormente, conduzi o meu potente automóvel até à minha herdade e ali fiz-lhe a vontade.
Confesso que ela gritou e estrebuchou mais do que as outras, mas por fim - com mais ou menos sangue - tudo bateu certo...
Logo eu, que adoro comer um belo grelhado e nada mais saboroso que um tenro bife das nádegas!...

15.10.2007, NelSom Brio
 
O sedutor

Franco atirador!!!

 
Além de excelente pescador, o "Passinho" entendia muito de caça... e atirava como ninguém! Essa é outra história que ele sempre contava. Tal como a anterior que contei, é a mais pura verdade! Reforço meu aval com relação a minha sogra!
Dizia que, certa vez, fez uma aposta com um amigo que também era muito bom. Era uma aposta difícil! Eles iam cronometrar uma hora, ambos com direito a apenas dois tiros. E de revolver! No "três oitão" para complicar, pois na
cartucheira já seria fácil para eles! Dentro de uma hora, tinham que entrar numa mata que conheciam bem e trazer uma codorna. Bicho pequeno, arisco, difícil de encontrar!
É claro que um bom caçador tem que saber onde procurar, mas para evitar um lance de sorte, não estava valendo quem matasse primeiro. No entanto, a quantidade ainda serviria como critério de desempate. Quem perdesse, perderia o revolver.
E lá foram eles. Tempo correndo e o "Passinho" logo ouviu o primeiro tiro. "Cedo demais!", pensou. Chegou a ficar desanimado, sabia da pontaria do amigo! Mas continuou procurando... E o tempo foi passando, já passava de meia hora de busca quando, de repente, bem perto dele sai um bicho correndo do mato fazendo aquele "zuummm" bem característico. Mal deu para ele ver a codorna, praticamente foi pelo barulho. Tiro certeiro! Ele botou a codorna no bornal, só que mal deu tempo de comemorar o empate! Logo, de novo, ouviu outro tiro do amigo...
Faltava menos de dez minutos para terminar o prazo, ele sabia que o amigo já estaria esperando ele no local combinado com duas codornas, pronto para tomar o seu revolver. Já ia quase desistindo, conformado, quando viu a uns vinte metros duas codornas, bem próximas uma da outra... Calculou ligeiro e precisamente! Mirou bem no meio das duas, pegou um faca que carregava, pois o fio de corte na saída do cano... e ganhou a aposta, cortando a bala no tiro!
 
Franco atirador!!!

Um natal em 68

 
Chegou o Natal. Esse ano, as coisas estão fraquinhas aqui em casa; quase ninguém mandou cartão pra gente, Papai Noel deve estar bem magrinho. Pela primeira vez é Natal sem papai em casa, tomando cerveja, falando mais alto que a radiola de tampa levantada, conversando com seu Amaro por cima do muro. O copo de cerveja quase caindo. Eu, doido para experimentar. Dizem que amarga, mas é bom. Como é que pode? Só provando para acreditar , essa bebida que é mas não é .
Ninguém fala mais em papai. Virou uma coisa feita aquela doença que a gente desenha um caranguejo, mas não diz o nome .
Só lembro a noite em que chegou aquele jipe verde com os soldados e levou ele pro quartel. Ora, papai não tem mais idade para ser recruta. Perguntei pra mamãe, ela disse que não era pra ser recruta e começou a chorar de fazer dó. Nunca pensei que no olho da gente coubesse tanta água . Fiquei com raiva de mim mesmo,mas se não era pra ser recruta, quê que meu pai ia fazer lá ? Ele só sabe consertar fio trepado em poste e encher a cara com meu tio Jorge, o irmão dele, lá na praia do Pina .
Começou a me ensinar a nadar, mas parou, quando apareceram aquelas pranchas com um nome engraçado: isopor. Disse que com aquilo ninguém se afogaria mais e me deu uma .Acho que pra passar mais tempo na barraca, discutindo futebol com tio Jorge .
Um dia, pela manhã, ajudei minha mãe a enterrar no quintal ,um montão de papel. Falava mal do governo e em greve. Era escrito em letras bem grandonas e vermelhas .Mamãe falou que enterrava aquilo tudo pra ficar em paz.Evitar o exército não voltar mais lá em casa.Eles não gostavam nada de ver papel falando em greve . Mas meu pai saiu de casa em janeiro, logo depois do meu aniversário de oito anos. Cansei de perguntar por ele á mamãe, porque se chorar já é uma merda, de tristeza, pior ainda
Bom, papai foi fazer alguma coisa importante no quartel. O serviço já faz quase um ano que começou. Deve ser muito importante. Quem sabe meu pai não tem uma identidade secreta? Feito Batman e Superman. E se a turma do mal descobriu e pegou ele?
Nem vi nem falei com meu pai, nesses onze meses. Meus amigos lá da escola, disseram ter escutado em casa, que meu pai pode ter sido preso porque falava do governo e das greves. Se greve é ficar sem trabalhar, como é que nós íamos comer? E meu cinema , meus gibis ? Logo agora que arrumei o Tio Patinhas número um. Troquei pelos meus dois piões com o Zelão, o meu vizinho magro, da cara de lagartixa. Fica puto com quem chamar ele de caveira elétrica .
Fui pra Missa do Galo com minha mãe e parece que nossos vizinhos estão evitando falar com a gente. Nem sei por que. Estou de banho tomado, limpo, roupa nova. Feio foi o Júnior, filho do seu Mário. Ano passado, cagou-se todo na hora da missa e ainda vomitou no sapato de dona Lourdes . Êita cabra desmantelado. Mas não foi por gosto. Caganeira ás vezes não dá aviso. E foi logo no Domingo de Ramos.
Que Natal mais sem graça. Vou dormir. Na televisão não tem nada que preste. Até o Perdidos no Espaço foi ruim, hoje.
Olho na sala, a mesinha do centro. A foto de papai não está mais lá. Vou reclamar amanhã com mamãe. Ele não morreu e nem com morto se faz isso. Seu Gabriel, da mercearia, morreu, mas dona Eliza nunca tirou a foto dele da parede. Botou até um vaso com flores. Troca de flor quase todo dia. Achei um pouco demais. Depois, lembrei que a flor é dela e seu Gabriel também era, né?
Depois de ler dois almanaques Batman, deu uma baita fome. Vou pedir a mamãe pra fazer um chocolate.
Chego na sala e encontro ela e o tio Jorge na janela, olhando a rua .Ele, passa de leve a mão nas costas e na bunda de minha mãe, que sopra devagarzinho a fumaça do cigarro, de janela afora . Melhor preparar o meu chocolate sozinho .
 
Um natal em 68

Será Verdade???

 
Será Verdade??? (Micro-conto)

O escritor interrompeu o texto que estava a escrever e olhou em redor apreensivo.
Murmurou com os seus botões:
- Tenho a sensação de que estou a ser lido!...

Henricabilio
 
Será Verdade???

A Estrada Infinita...7... Dos diferentes propósitos dos guardiões do limiar

 
Como dito linhas atrás, propósitos diferentes animam cada forma tomada pela consciência não centrada na matéria, quando ela percebe uma outra consciência ainda inexperiente.
Quando você adentra o mundo dos pensamentos, o mundo astral ou mundo dos espíritos... nomes não importam... você não é percebido, como uma imagem que de repente surge do nada num mundo pré-existente. O que acontece, na verdade, é que você passa a perceber as atividades ao seu redor, e isso, por sua vez, reverbera em todas as consciências presentes lá. Você sempre esteve "lá", mas agora eles vão saber que você percebe. É mais ou menos como uma gota d'água que encontra a superfície de um lago e a agita. Tudo no lago passa a te sentir. Enquanto você era cego para essas coisas eles não tinham interesse em você, mas agora, sabendo que você pode ver, eles virão.
Primeiro, como já dito... esqueça conceitos encrustados em sua cultura sobre o bem e o mal. Claro, o mal existe em seu mundo, isso é fato, mas ele foi criado por você. Lá também o será! Se uma criatura se aproxima de você, ela esta querendo interação, e usará a sua psique para conseguir isso. Se você é uma pessoa que está, por assim dizer, muito envolvida com esse mundo, atrairá seres como você, envolvidos nesse mundo. Em outras palavras, seres ainda apegados a coisas materiais e terrenas, e eles usarão linguagens bem familiares para com você, como medo, dúvida, tristeza, desejos...
Uma imagem bem corriqueira pelos lados de lá, é a figura da criança. Nada evoca mais a inocência, a fragilidade e ainda, a questão do inexplorado, do que a figura ancestral da criança. Menino ou menina, o ser que usará dessa imagem procurará desarmá-lo psiquicamente. Ou ainda, despertar-lhe um profundo pavor, dependendo das intenções dele. A psique humana na terra, está presa a valores culturais de que a criança é imaculada, e macular essa imagem causa profundo terror no inconsciente humano. Ver uma menina desfigurada ao pé de sua cama evocará medos ancestrais que a sua mente racional não vai saber processar... pronto, estará a mercê da consciência que quer lhe abusar.
A segunda forma é a sombra. O mistério, o desconhecido, o inacessível... A sombra evoca o medo da raça humana, a supressão do sentido da visão. O recado ao homem antigo de se afastar, temer. A entidade em forma de sombra quer te manter longe do mundo dos pensamentos, ou mundo dos espíritos. Ela não quer que você vá lá. Ela pode ser até mesmo alguém que gosta de você, mas não deseja que você tome conhecimento do mundo astral. E porque? Ora, algumas pessoas simplesmente não voltam desse passeio por vontade própria. Muitos humanos que caminham no mundo astral conscientes, não desejam voltar para a vida material, muito simplesmente porque lá é a sua casa verdadeira. Mas ao não voltar, você morre, e tem de recomeçar toda uma história de vida e conhecimentos novos. Pois o que não se termina hoje, terminar-se-á amanhã. Por isso, e não raramente, a sombra virá na figura arquetípica da morte. Sim, a tradicional foice e o tradicional capuz preto. Poucos são os que a encaram de frente...
Muitos virão em formas humanas. Homens, mulheres adultas. São os que no passado se chamavam de incubus e sucubus. São seres ainda muito ligados a matéria, e por isso, ligados a energias sexuais corporais humanas. Não são demônios ou malignos, isso não existe. São apenas pessoas, embora não mais focadas na realidade física, mas mesmo assim, carentes. Eles procuraram despertar energias sexuais, e se encontrarem receptividade, farão o que querem fazer.
As formas animais, monstruosas e medonhas, é a "fantasia" escolhida pela consciência que deseja confrontar você! Um inimigo de outros tempos, por assim dizer, que deseja parecer mais forte que você para enfrentá-lo numa luta "física". E como aqui o pensamento é tudo, se você pensar que é mais fraco, o será. Já vi um grande urso peludo "destruindo" o quarto de uma pessoa, usando a própria pessoa para isso. Arremessando-a contra a parede, quebrando o guarda-roupa todo, só para a pessoa despertar depois e ver tudo inteiro, e perceber que tudo não passou de um episódio no plano astral. Mas também já vi uma alma corajosa enfrentar um polvo de quarenta metros de altura,lutando entre seus tentáculos! Essa é só uma pequena demonstração do universo dentro de você.
Já ouviu falar em duendes, gnomos, fadas? Pois muitos espíritos virão dessa forma pra você. Essa é uma forma lúdica de se apresentarem, e muitas vezes assim eles chegam para as crianças. A figura desses seres desperta desprendimento, brincadeiras, sonhos... Assim eles te pegarão pelas mãos e te levarão a lugares incríveis. Você tem que perder essa visão rígida de mundo que você tem, e entender que tudo, inclusive o que você pensa de si mesmo, é apenas isso mesmo, pensamento! Eles virão com essa intenção, libertar os seus conceitos rígidos. Mas por que eles farão isso? Oras, porque você pediu. Só não se lembra... Não se esqueça, você não é apenas este ego que por hora carregas, que faz você ser quem você é aqui na terra, das oitos da manhã às dez da noite, quando vais dormir. A consciência que você verdadeiramente é te escapa de uma forma inexprimível, e você sendo quem você é beira a inocência. O seu ego é uma ínfima parte do seu Eu verdadeiro. Vou te dar um exemplo bem terreno para que possas entender: Hoje você tem 40 anos... Esqueceu-se que um dia foi uma criança, que gostou de brincar de bonecos, que gostava de circo, que acreditava nas pessoas... Hoje você é amargo, mas já foi um jovem que acreditava no mundo... Esta personalidade jovem ainda existe dentro de você, ela ainda é parte de seu ego, embora não o use muito desperto. Mas ela existe ainda dentro de você, é parte válida sua... e quando sonha que estais a brincar de boneco, quando sonhas que ainda está na escola... e essa parte sua se manifestando...
A personalidade humana é só a ponta pequena de um imenso iceberg. Assim como toda a sua história e realidade, como jamais fora sonhada por nenhum cientista da matéria ou da alma...
 
A Estrada Infinita...7... Dos diferentes propósitos dos guardiões do limiar

Hoje disseram que o mundo vai acabar amanhã

 
A mulher afirmava na TV, com ar de enterro:
- O mundo vai acabar amanhã!
Foi então que João gritou escandalizado:
- Olhem o raio da mulher, bruxa de merda!... Ó Maria muda-me essa merda de canal, antes que lhe atire com o comando aos cornos!
A Maria, mulher servil e de bom carácter, assim fez. Mas eis o que dizia, com ar sombrio, outra mulher num canal concorrente:
- Lamento informar aqueles que nos vêem, mas o mundo vai acabar amanhã!
Já exasperado, o homem levantou-se e arrancou o comando das mãos da Maria.
- Deixa cá ver se noutro lado mais alguma puta está com a mesma treta!
E mudou para um outro canal… Mas coincidência das coincidências, eis que uma mulher de péssimo aspecto afirmava:
- Exatamente! … O mundo vai acabar amanhã!
No mesmo instante o comando voou de encontro ao ecrã da TV e ouviu-se grande estardalhaço de vidros partidos.
João saiu rapidamente porta fora e entrou na sala anexa, trazendo de lá uma arma e as respectivas munições. Dirigiu-se ao carro e arrancou em alta velocidade.
Sabia muito bem onde aquele bando de bruxas se reunia. Era só aguardar um pouco para lhes mostrar que para elas o mundo ia acabar ainda hoje!

15.02.2010, NelSom Brio
 
Hoje disseram que o mundo vai acabar amanhã

O Eu que não sou Eu

 
Há muito tempo atrás... quero dizer, quando eu fixava a minha atenção para o "outro lado" do eterno agora, uma parte de mim necessitava se conhecer melhor. É o que os místicos chamam hoje de busca do Eu. A busca de si mesmo. Não estou aqui, reduzindo pessoas a um termo, como se místicos fosse uma classe diferente de seres. Na verdade são apenas pessoas momentaneamente inclinadas a fatores internos transcendentes, tanto quanto materialistas são pessoas momentaneamente inclinadas a fatores externos imediatistas. Um nome não é nada, mas às vezes é preciso usá-los.
Naquela época, eu buscava Eu. Quero dizer... tentava encontrar algo dentro de mim que me definisse para melhor e me orientasse diante de um mundo aparentemente caótico e sem sentido. Ou com tanto sentido, que parece caótico. Vai entender. Seja como for, o Eu naquela época implicava em individualidade. Um Eu significaria um self eterno, imutável e perfeito, que atravessaria as correntezas do tempo, incólume, com a cabeça erguida de orgulho e iluminado, como se não tivesse mais nada para se aprender. Afinal, iluminar-se é descobrir tudo sobre o Universo. E uma vez que se descobre tudo, nada mais há para se fazer.
Assim, estranhamente, depois de muitas idas e vindas, deparei-me comigo mesmo da forma mais fácil que eu jamais imaginara. O Eu do sonho! Por estranho que pareça, o Eu do sonho é diferente do Eu acordado. E estranhamente ainda assim sou Eu! Quem sou Eu?!
No sonho, eu nunca questionava o Eu desperto. E o Eu desperto sempre questiona o Eu do sonho. Eu no sonho costumo ser mais corajoso, inteligente, esperto e feliz, do que o Eu desperto. Mas ainda assim, tenho absoluta certeza de que sou eu. O Eu desperto, por sua vez, questiona-se se é aquele Eu do sonho...
Assim, entendi, que existiam dois Eus! Totalmente independentes, mas completamente ligados e únicos! Então, na busca do meu Eu, primariamente descobri que não era bem assim, um eu.
De forma que, num belo dia, desperto eu... (qual dos Eus?!), de frente para a janela do apartamento, olhando as plantas lá fora, três andares abaixo. Havia um quê de diferente, inexprimível, mas notável, que cercava o meu ambiente e a atmosfera lá fora. Foi quando dei por mim, num piscar de olhos, quase numa iluminação de consciência, de que eu estava sonhando! Lembrei-me claramente de ter acabado de me deitar, talvez uns quarenta minutos antes, logo depois do almoço num domingo, mas estava ali, agora, de pé olhando pela janela, num quarto banhando por uma luz morna, clara, meio embaçada, mas ainda assim, o meu quarto.
Um pensamento estranho, mas absolutamente legal, assaltou-me: Estou lá dentro, deitado na cama, e aqui, de pé, perto da janela! Pensei também, imediatamente, quão legal seria pular pela janela e sair voando em direção às nuvens lá fora! Eu iria subir feito o Super-Homem, a milhão por hora e rasgar as nuvens lá em cima, navegar por entre os picos mais altos das montanhas, e também, quem sabe, flutuar por sobre as ondas do mar.
Ensaiei o pulo pela janela, toquei o beiral e levantei a perna direita. Mas, uma pausa. Era tudo tão real! Ainda me sentia com peso! Olhei pra baixo mais uma vez, tudo real, nos conformes!... E se eu não estivesse sonhando?! E se apenas acordei grogue, depois de um sono pesado, e to aqui na frente da janela, ainda meio dormindo e me julgando sonhando?! Seria uma queda e tanto até lá embaixo!
Voltei pra trás. Queria ter certeza de que estava a dormir na cama, e nessa hora, comecei a ter duas consciências ao mesmo tempo! Sentia-me claramente deitado na cama, e ainda assim, percebia o ambiente em frente à janela na qual eu estava de pé.
E assim, de repente, comecei a sentir uma cócega estranha na face e no nariz, como se um espanador estivesse tentando me fazer espirrar. Era, como percebido depois, os cabelos de minha nuca no corpo do sonho, tocando no nariz do corpo material deitado na cama. Foi um dos instantes mais estranhos que já me lembrei. Nesse exato momento, pude perceber dois corpos: Um deitado, e um outro se assentando devagar por sobre ele!
Agora sim, sonolento, levanto-me. Arrependido é claro, de não ter saltado pela janela e voado... Mas, de certa forma, orgulhoso, de ter pensado duas vezes, vai que eu estivesse certo... a queda não seria agradável.
Conquanto, naqueles dias, permanecera em mim uma incognita: Eu realmente estava acordado? Estou acordado agora, ou tudo é um grande sonho, inclusive aquilo que chamam de realidade?
Fui buscar um Eu, e admiravelmente encontrei vários Nós. Claro, porque, depois daquele dia ainda me vi de diferentes maneiras, em diferentes mundos, tempos e realidades! Tudo de uma só vez!
Mas o estranho, é que até hoje, eu... quero dizer, Nós, não sabemos quem é o observador central, aquele que parecer por ordem no aparente caos onde infinitas personalidades percebem-se a si mesmas num único fluxo de consciência.
 
O Eu que não sou Eu

COVARDIA DÁ NOJO...

 
COVARDIA DÁ NOJO...
 
'anotação de rodapé' (mini conto)

Éramos quatro, um em cada cela, nus, num frio de julho potenciado pelo vento frio que entrava pela fresta, fazia doer os ossos. As mãos agulhavam congeladas, como os pés, pisando o chão de pedra, úmido. Três já haviam passado pelas mãos dos torturadores. O último, aterrorizado por ser o próximo à ser arguido, (arguição era senha para a tortura), vomitava e chorava copiosamente dizendo que não ia aguentar, que era um covarde.
Então disse-lhe que; o que fizesse ou dissesse sob tortura nunca seria visto como covardia. Covardia era outra coisa, dava nojo. Um exemplo; COVARDIA - é quando o homem não respeita a palavra do outro; e quando para se esconder das verdades que ela traz, manipula-a ou rasura-a, oculta-a, torna-a ilegível ou a faz desaparecer totalmente levando todas as verdades. Isto é tão verdade, que hoje mesmo vomitei por causa de um covarde... E sei que não será a última. Os covardes procriam-se no lodo e viram uns merdas.
 
COVARDIA DÁ NOJO...

FOI O DESCASO...

 
FOI O DESCASO...
 
Diante do espelho,
Olho no olho!
Via no seu cristalino.
A alma de um felino!
Uma fera ferida...
Buscava guarida,
Pois o seu olhar revelava-se;
Refletia o que sentia no âmago,
Lembrava-se da dor que sentiu
Quando partiu seu amor;
E no vago do seu pensar
Veio-lhe um grande tremor!
Como esquecer aquele dia?
Quando seu mundo era só alegria,
Quando então de repente
O sono profundo. Como entender?
O que fazer? Foi o descaso...
 
FOI O DESCASO...

A Estrada Infinita... 6 ... Dos Guardiões do Limiar

 
Depois de ter feito os exercícios que mencionamos... de ter concentrado/visualizado aquela energia a entrar por sua testa e invadir o seu corpo... e de ter, claro, começado a vislumbrar o "outro" mundo, acho então que já podemos começar a tratar dos "guardiões" aqui.
Primeiro: guardiões é mais um eufemismo. Eles não são guardiões propriamente ditos. Eles não tem de guardar nada. Na verdade são consciências, assim como você, só que não estão mais focados na realidade física, por assim dizer. Podem ser, de acordo com a sua linguagem, pessoas mortas, pessoas dormindo, ou pessoas explorando o lado de lá, assim como você.
Chamamo-os de guardiões, pois de muitas maneiras, será a primeira coisa diferente que vai perceber do lado de lá, e geralmente eles estarão de pé na sua frente, como se o guardassem ou vigiassem.
Devo acrescentar, que é daí que vocês tiraram todas as lendas e histórias de terror que têm, acerca de seres fantásticos ao longo do seu tempo linear. Como estão fora da matéria rígida, e tem familiaridade com ela, por certo eles podem manipulá-la, e tomar a forma que desejarem. Seis formas são corriqueiras, e cada uma delas tem um propósito. Podem aparecer como crianças, meninos ou meninas. Podem aparecer como sombras de variadas formas, ou até sem forma. Podem vir como mulheres ou homens adultos. Podem mostra-se como animais diversos, de um pequeno cachorro até um grande urso. Podem vir em luzes de variadas cores e formas, ou finalmente, como seres monstruosos, humanoides ou não.
A grande pergunta: eles são maus?
A grande resposta: você se acha uma pessoa má?
Vejamos. Como eu já disse, o seu "mundo" é rodeado por uma crosta densa e pesada de energia que podem chamar de negativa, negra e escura. A terra não é necessariamente um paraíso, como vocês mesmos podem comprovar diariamente. Uma coisa que verão ao sair do corpo, se continuarem na faixa de "frequência" do planeta, é que passarão a ver o céu num tom mais escuro ou avermelhado, ventanias exorbitantes e poderosas, paisagens e construções macabras. Resumindo, os guardiões do limiar são pessoas humanas que vivem ou viveram aqui em tempos passados, assim como você vive agora. Só que lá, eles tem mais poderes e conhecem e manipulam o ambiente em que vivem. O que você faria, se fora do seu corpo, pudesse manipular a mente e a matéria de outra pessoa? Pergunte-se isso, antes de mais nada. Muitos de vocês fazem isso agora, em vida, manipulando a mente e a existência de muitos semelhantes seus... Imagine ocultos nas sombras, em forma de espíritos...
Devo temê-los? Bem, matar você eles não vão, se é que entende a ironia... Eles, se forem mau intencionados, tentarão amedrontá-los com medos ancestrais, medos arquetípicos que acompanham a humanidade há eras. Medo de sombras, insetos, monstros e coisas assim. Encare como um teste. Um teste de nobreza e coragem de alma. No mundo onde os pensamentos governam, se sobrepõe quem é mais firme em suas convicções! Pode encontrar um demônio de cinco metros na sua frente, mas se tiver o coração firme, com apenas um olhar o transformará numa singela borboleta, e o banirá de suas visões.
Mas não os subestime. Tamanho não significa nada aqui, a forma é relativa, o pensamento é a regra, e muitos sabem disso. A pisque é tudo, e se forem experientes eles tentaram atacá-los psicologicamente. Pode encontrar, de repente, uma jovem menina de 15 anos sentada na sua cama, de camisa listrada, cabelos grandes, pele clara, acima de qualquer suspeita. Isso, para uma pessoa que acaba de cruzar o limiar, pode ser de um choque psicológico sem paralelos, maior ainda do que se encontrasse o próprio diabo em pessoa. Isso, porque quebra as suas defesas psíquicas. Te deixa sem reação.
Os maus intencionados vão querer duas coisas de você...
 
A Estrada Infinita... 6 ... Dos Guardiões do Limiar

Há muito trigo no meio do joio!

 
Há muito trigo no meio do joio!
by Betha Mendonça

Gabriel era dessas pessoas que procuravam com lupa de maior aumento possível as fraquezas alheias e tudo que era de ruim ou negativo em toda a natureza.

Entrava numa casa perfumada. Em vez de elogiar o bom cheiro apontava uma teia de aranha que balançava num canto do teto e reclamava da faxina. Sua mulher tinha belos olhos azuis, mas ele ressaltava seus cabelos brancos.... Se o dia era lindo e ensolarado reclamava do calor. Se cinza e chuvoso queixava-se do frio. Se o jardim estava florido incomodavam-lhe os insetos e pássaros que ali se abrigavam.

Cansada da amargura que seu marido trazia no coração, Helena o levou ao celeiro onde estava o trigo colhido naquele dia e disse:

- Separa o joio do trigo!

O homem espantado com a enorme quantidade de trigo quase não enxergava o joio para ser retirado. Exclamou:

- Mulher, há muito trigo no meio do joio!E ela respondeu:

- Exatamente, Gabriel!Então a partir de hoje para de apontar o joio na vida e olha e aproveita mais o trigo!
 
Há muito trigo no meio do joio!

Falsidade....

 
Falsidade....
 
Acordei. Olhei a janela. Lá fora um transeunte, passava pela manhã clara e fresca de mais um dia de Inverno. Segui-o com o olhar, este transportava um semblante taciturno e inócuo.
Voltei para dentro. Não fisicamente, essa parte de mim ainda se sentia a dormir, mas sim no pensamento, esse ia longe, passava na rua lado a lado com o indivíduo que havia observado. Se a minha mãe aqui estivesse estaria a admoestar, sei como ela detesta este meu espírito sonhador que viaja pelo recôndito facilmente.
- Ding Dong!! - A campainha toca.
Desço apressadamente as escadas, barulhentas de madeira escura e envelhecida. Odeio que me interrompam as reflexões, podem parecer de alguém ignóbil, mas para mim, detêm muito valor. Seja quem for. Vou ter de a defenestrar, não estou acordado o suficiente para receber quem quer que seja. Olhei pelo monóculo. Abro a porta.
- Olhem só! Se não é o famigerado Artur! – Proferi com um tom irónico e uma expressão arrogante, na tentativa de que este compreendesse que era indesejado ali.
- Vim só deixar o que a tua irmã me pediu. – Disse o Artur com um tom desentendido. Deu-me a caixa às mãos e foi embora.
Artur é o pedante do meu cunhado, vive a enganar a minha irmã. Todos sabem, até ela, mas ninguém se digna a fazer nada. Nem eu. Falo, critico. Mas no que toca a tomar medidas, nunca fiz nada para o impedir de a tratar assim.
No fenecimento desta história, apenas resto eu e a minha família, aquela à qual pertenço e a mesma que passo a vida a criticar, pela sua hipocrisia e cegueira; E eu que, no fundo, sou tão ou mais cego e hipócrita que eles, vivo das minhas reflexões e sonhos, do meu mundo utópico, do qual me nego a sair e enfrentar a dura realidade.

iP
 
Falsidade....

Ponte do Padre, "Popov Most"

 
Popov Most
"Insh Allah"
Popov Most (Ponte do Padre), visto do alto por quem ousa aventurar-se nos caminhos pastoris e serpenteantes das depressões de terreno, é um lugarejo pedregoso, escarpado, florestado em tons escuros de verde e castanho, de estações agrestes, cravado nas montanhas fronteiriças ao Montenegro.
Não tendo lugar algum em qualquer mapa, não fosse o seu passado histórico da II Guerra Mundial – “três centenas de soldados montenegrinos foram chacinados numa violenta batalha, e após uma heróica resistência às tropas hitlerianas invasoras”, como recita o monumento de pedra escurecida pelo tempo e de letras meio apagadas, erigido no meio do nada – este lugarejo, a que podemos denominar por simpatia “aldeia”, é disperso de casas rurais, toscas, assimétricas, meia destruídas pelos recentes e ferozes genocídios, e palheiros semeados aqui e além, marcando posição entre muros sinuosos de pedra escura, assinalando propriedades.
É um lugar inóspito e rude como as suas gentes, que mal se vêem e não se olham entre si de bons modos e muito menos os visitantes inesperados. Horrores se digladiaram de novo nesta recente guerra fratricida.
Os poucos que restam ali são escorraçados de outros lugares e que ninguém quer aceitar. São refugiados no seu próprio país, idosos desconfiados e calejados pela sobrevivência.
E até o sábio sol, conhecedor das desavenças, apenas oferta a sua sombra...
Naquele dia matinal, era Inverno; um gélido manto de muitas tempestades impiedosas de neve amalgamada em camadas, cobria pardacenta, confundindo-se com o horizonte cinzento sombrio do céu, o solo, os pardieiros e muros, os caminhos, profundamente submersos, e até os altos pinheiros só exibiam salpicos verdes escuros na paisagem desoladora.
Das chaminés arruinadas, um fumo negro e húmido negava-se a esvoaçar no alto, pairando sobre as casas, asfixiando-as.
Patrulhava eu a área estipulada, “montado” num alvo todo-o-terreno, que, pomposamente, apelidava de “garrano branco” (delirava decerto com feitos históricos), ornado por uma flâmula de cor azul-bebé e letras inicias negras nos flancos.
Ora ronronante na derrapante descida, ora troante na íngreme escalada, cavalgava o meu garrano num imaginário caminho só sentido pelo tacto da tracção pneumática, rasgando de sulcos o manto gélido, numa tentativa bem esforçada de me separar das ravinas que se aproximavam ameaçadoras e dos sopés traiçoeiros que teimavam em me abalroar.
As faldas estavam pontilhadas de prazenteiras e minúsculas placas de madeira pintadas de vermelho vivo e desenhadas toscamente com o símbolo dos corsários - a caveira - e as palavras “mina” em inglês e na língua local. num zigue-zague desesperante.
Não fossem as "más-línguas" que afirmarem que eram piratas escondidas no solo e tinham o péssimo hábito de descalçarem os incautos, pés incluídos, ou saquearem as pernas, ou empinarem as montadas, quais “Pegasus”, passariam decerto por folclore local.
Rangendo os dentes, não de frio, rechaçado pelo aquecimento da viatura, mas do esforço violento de uma condução, que mesmo cuidada, era cheia de imprevistos (que audaz eu! – pensava eu. Que louco? – diriam outros mais avisados), consegui catapultar-me em solavancos até ao centro da “aldeia”, onde estanquei gerando um sobressaltado acordar de meu companheiro de lides e amigo Zacharia que, placidamente e com uma confiança inexcedível em Allah e alguma complacência na perícia deste “Seu servo, mesmo cristão”, dormitava embalado (era um hábito consagrado), que me valeu um rabugento “insh allah”.
Zacharia era, ao tempo, um coronel da Polícia Egípcia, a quem eu, prazenteiro, lhe atribuí o cognome de “The Pharaoh, Himself”, de estatura mediana, forte, rosto redondo e quase cinquentão, para quem uma mulher ocidental e os costumes eram um luxo para a visão e um pecado para a alma. Em matéria policial possuía a experiência de ensinar na Academia de Polícia de Luxor, sua cidade natal, mas não era muito dotado na experiência do dia-a-dia.
Crédulo nos homens e crente fervoroso em Alá, praticante acérrimo das cinco orações diárias, fossem quais fossem o local e as horas, era um excelente teórico, mas não lhe pedissem meças práticas.
Da sua boca brotavam constantemente as palavras “Allah Akbar! (Deus é Grande!” e “Insh Allah! (por vontade de Deus!)”.
Num arremesso do destino e de missão, ali estávamos os dois, oficiais de polícia, integrados numa força de paz das Nações Unidas, juntos, de culturas e religiões diferentes, em aventuras quotidianas zelando pela paz, quais paladinos, e consolidando uma amizade a princípio necessária e depois aceite entre ambos.
Enquanto o pensamento vagueia, esi-nos desaguados naquela “aldeia”. Não se vislumbrava vivalma.
A temperatura rondava os quinze graus negativos célsios e, para Zacharia, mesmo um “insh allah” naquelas condições era um castigo supremo ter de sair da viatura e / ou deste ou outro ambiente acolhedor...
E nesse centro da aldeola, lá estava um edifício de paredes arruinadas, outrora caiadas, cujas portas e janelas pendiam de gonzos quebrados num equilíbrio precário. A chaminé rasgada não emanava nenhum aroma típico de madeira a queimar. O que fora de antanho um solar parecia agora um qualquer prédio devoluto para demolição. As telhas, de barro escurecido pelo clima e fungos, rompiam da massa de gelo, que as sobrecarregavam, aglomerando-se, partidas, num telhado ondulado prestes a derrocar-se. Parecia um edifício consumido e derrotado pela força dos elementos naturais, pela incúria e vítima da fúria bélica dos homens. Ostentava ainda letras sumidas de azul o nome de “Popov Most Škola” e um desenho de um revolucionário qualquer, para mim desconhecido, remanescente da história do país.
- Pena que não o seja já (escola)– pensei – mais ruínas... Malditas guerras!
E para “esticar as pernas” pus-me a rondar a fantasmagórica casa, num passo solitário, lento, volteando a cabeça de vez em quando para estudar as minhas próprias pegadas marcadas na neve.
Parei, puxando do cachimbo e da bolsa de tabaco, carreguei-o, qual trabuco, e acendi-o contra o vento com o meu “Zippo”.

Deleitei-me com a primeira baforada agridoce, e retomei o passo rastejante (depois de umas quantas quedas aparatosas, aprende-se a não se levantar muito os pés quando se caminha sobre superfícies geladas).
Ia dar a segunda baforada, ao passar uma esquina, quando de súbito me soa uma conhecida cantilena escolar... Imaginação minha, só poderia ser. Estaquei e afinei o ouvido...
A toada rítmica repetia-se: “dva puta jedan dva, dva puta dva cetri; etc...”. Um sorriso aflorou-me nos lábios e congratulei-me por ter rudimentarmente aprendido a língua local, senão iria pensar que alguém apodava alguém da minha família.
Armadilhas linguísticas…
E a toada continuava, pausada e desafinada...
- Crianças! Eram crianças! Ali?
Decidi averiguar. Obedecendo ao bom senso e às normas, regressei apressadamente no mesmo rasto para junto da viatura, gritando e esbracejando:
- “Pharaoh! Temos crianças aqui! “Pharaoooooh!” – e os montes faziam duplicar a minha voz em ecos retumbantes – “Pharaoooooh!”. “Criançaaaaaas!”.
E o receoso Zacharia, “The Pharaoh, Himself”, atordoado, lá saiu da sua quente sonolência a custo, pensando que eu ou tinha visto bicho ou tinha endoidecido de vez.
Mais inclinado decerto para a loucura, espreguiçou-se e entreabriu, lentamente, muito lentamente, o vidro.
A sua face rechonchuda mostrava a incredibilidade, não da notícia que lhe trazia, pois ainda não a tinha digerido, mas pela minha impertinente e incómoda agressão à sua “paz espiritual”.
De olhar inquisidor, elevou as mãos ao céu, pronunciou um “molto pianíssimo insh allah” habitual e aguardou o fim da minha corrida frenética que terminou quando lhe abri a porta, sem vénias e sem compaixão. Ofegava, expelindo bafejos de vapor e de fumo tabágico misturados. Apontando a casa, apressei, sem cerimónia, Zacharia com um “vamos” ululante.
E Zacharia, receoso da minha sanidade mental, seguiu-me num passo contrariado, curioso e irritantemente lento.
Galguei os degraus de pedra esventrados e irrompi num corredor escuro e bafiento em T invertido com portadas que davam acesso a outras divisões. Parei, acendi a lanterna e escutei...
A cantilena cessara.
Uma porta irritada chiou, podre, abriu-se lentamente e dela assomaram uns óculos garrafais suportados por uma face perplexa, seguidos de uma boca aberta num sorriso franco, de um corpo magro revestido de uma bata coçada em azul e de uma mão em atitude de saudação:
- Dobro došli! (bem-vindo) – e eu, lá forcei a minha mão a levantar-se, os meus lábios a desanuviarem-se num sorriso e a minha garganta a emitir um lacónico “hvala (obrigado)” (valeu-me a curiosidade em conhecer esta língua)
– “entre, por favor”.
Entrei numa sala escura, gélida, cujas paredes, em tons diversos e esventrados, há muito não se revestiam de cor. Na parede fronteira à porta dois mapas arcaicos da Bósnia e da Europa e, noutra parede lateral, um “Mapa-múndi” desfiado e um quadro de lousa partido. Noutra parede lateral, a derrocada janela coberta de tapume esburacado por balas.
No centro... bem, quase ao centro da sala algumas mesas e cadeiras em fórmica (pasmei) novas ocupadas por cinco crianças.
Atrás de mim, entrou o atónito Zacharia, balbuciando decerto as devidas jaculatórias habituais, na hesitação de entrar e ficar ou de sair disparado. Os seus olhos quedaram-se fixos no tecto (por força de expressão pois não passava de uma precária cobertura de madeira em derrocada eminente e a romper dos cantos suportada não se sabe bem como), e nem uma simpática saudação do professor de mão estendida, agora secundado por cinco vozes juvenis de três rapazes e duas raparigas, o tirou dessa abstracção e da impossibilidade de crer na realidade ali presente, como que “plantado”.
As jaculatórias sucederam-se... enquanto ele cumprimentava alheado o docente.
Infelizmente, os meus conhecimentos desta língua eslava não eram tão excepcionais que me permitissem um diálogo maior que as saudações inicias e uma ou outra expressão, que produziram alguns esgares infantis, que me indicaram com toda a prontidão que seria melhor calar-me.
Zacharia, para além dum perfeito inglês e da sua língua nativa, muito menos se sentia poliglota; o professor não falava inglês (fora sempre um professor de aldeia como mais tarde vim a saber) e a comunicação manteve-se por monossílabos e gestos.
- Volto já! – disse, e arrastei meu amigo, ainda abismado, para a viatura. Abalei, num retorno lento à sede policial em busca de um intérprete local que teria de desinquietar no conforto do seu gabinete ou de sua casa.
- C’ os diabos – pensei - serviço é serviço e o conforto destes felizardos poliglotas ficaria para mais tarde; e se bem o pensei, melhor o fiz; desinquietei o mais próximo que, naquele gelo e em velocidade reduzida, distava duas horas da aldeia.
Azar dele!
Solavanco após solavanco, ravina após ravina, resvalando aqui e ali, cheguei, mudo, contrariando a actual eloquência de meu companheiro, à reconfortante casa do intérprete; um nababo que usufruía, para além de protecção administrativa de funcionário das Nações Unidas, de um bom ordenado e outras “regalias” retiradas do “esforço da paz”, legal ou ilegalmente, líder do mercado negro na zona.
“Ah, a vingança serve-se doce”.
Adorei, ir tirá-lo da sua “abençoada comodidade”.
Retomei o caminho doloroso da aldeia.
E o meu mutismo continuou egoísta, por mais de uma hora, até, cansado de tanto melodrama e lágrimas secas ensaiados e ameaças veladas, ter vociferado um “shut up” que calou o ambiente. Para grande espanto de Zacharia!
Nunca me tinha visto falar acima do tom de voz necessário para ser audível mesmo em caso de crise eminente.
Agastado, calou-se também.
Uma desculpa silenciosa cruzou veloz o meu cérebro – “Alá está ocupado demais para mandar calar estes sacanas mafiosos. Alguém tem de O ajudar, não é?”.
Nesse dia, com o apoio de um sorriso sarcástico do intérprete, soube que as crianças eram órfãos sobreviventes por acaso e que as suas famílias tinham desaparecido na voragem da crueldade dos homens.
Que nada ou quase nada tinham para comer no quotidiano; o pouco que comiam era semeado por eles e pelo parco ordenado o professor auferia do estado (45 euros mensais).
Não tinham nem livros nem outro material escolar.
Roupa? Somente a que a caridade envergonhada de alguns habitantes poderiam dispensar.
Madeira para alimentar o aquecedor velho e dilatado pelo uso só a cortada ou apanhada na floresta por eles.
Totalmente carentes…
Despedimo-nos. Prometemos voltar em breve.
Sorrateiramente meti alguns marcos alemães no bolso esfarrapado da bata do docente.
A revolta tomou conta de mim; só os solavancos da viatura que atormentavam o maldito intérprete me deram sabor a vingança ao ensombraram, aquele sorriso desprezível da sua face.
Vingado, mas não satisfeito.

O Natal chegou e com ele regressei a casa para o celebrar em família. Regressei no penúltimo dia antecedente ao Ano Novo.
Cansado das seis horas de abanões ruidosos do C130 militar e de mais duas extenuantes horas de viagem por estradas de gelo (limpa-neves eram um luxo só guardados para a capital), já noite cerrada, derrubei-me na cadeira frente à secretária do gabinete de comando das academias pejada de papéis a despachar.
- Meu Deus! – pensei – despacho isto amanhã...
Eis, senão, que deparo com uma queixa assinalada a vermelho de urgente – estranho, a única cor permitida na ONU é o azul – que folheei, ao princípio enfastiado, mas algo cravou a atenção de meu olhar e me fez saltar da cadeira; citava “o coronel Zacharia era acusado de apropriação ilícita de bens de um cidadão”.
Caramba!
E o meu espantado gargalhar elevou-se naquele, ao tempo, desértico gabinete.
Irrompi veloz para o frio intenso do exterior e, em passada larga e decidida, rumei pelo gelo em direcção à casa onde Zacharia se aboletava.
Hesitei antes de bater à porta pelo adiantado da hora, mas, mal levantei a mão, esta abriu-se e na moldura recortou-se um pálido semblante de quem não descansa há muito, barba por desfazer, um longo olhar longínquo e combativo, qual berbere, por felicidade, sem cimitarra então, que me convidou, por mímica, a entrar.
Entrei no ambiente frio da sala de estar.
A fornalha estava recheada de lenha que não ardia. Para lá me dirigi, juntei acendalhas e deitei-lhe o fogo. Pouco a pouco o crepitar lenhoso intensificou-se e aqueceu o ambiente.
Como frequentador assíduo da casa, dirigi-me à cozinha; enchi a chaleira de água e pu-la ao lume do fogão a gás. Esperei que assobiasse enquanto dispunha as colheres, o pacote de chá e o mel sobre a toalha ainda posta. Do meu bolso retirei o frasco de metal com “rákia (aguardente)” que sempre me acompanhava no clima agreste e depu-la sobre a mesa.
Não sou um bebedor, mas aquela bebida aquecia até a alma.
Zacharia estacou imóvel à entrada da cozinha e observava todo aquele ritual de preparação e louvor ao conforto perdido.
Sabia de antemão que aos muçulmanos está interdito o álcool com a excepção de fins medicinais. Que Alá desculpasse, desculpou decerto, mas era um caso extremo.
E enquanto a chaleira se negava a apitar, sentámo-nos, olhando para nenhum lugar em particular.
- Desculpa! – interrompeu Zacharia o silêncio pesado.
Nada disse, não era necessário, as nossas culpas nunca iam tão longe que necessitassem de penitência.
O apito da chaleira acordou-nos da monotonia...
Enchi as chávenas de água a ferver, mergulhei os saquinhos que a coloriram de um verde pálido ao princípio, revertendo-se num tom de verde-escuro e o aroma desafiou-nos o olfacto.
Deitei copiosas porções de “rákia” nas chávenas e adicionei mel. Hum! Iria saber bem e o calor invadir-nos-ia de imediato.
Beberricando o chá retemperador, desfilou-me o conteúdo da participação: “... Zacharia tinha-se apropriado de um saco com prendas de Natal, (o Natal ortodoxo celebra-se a 7 de Janeiro) na sua maioria livros e brinquedos, da
propriedade do senhor Maliċ;, intérprete, deixado na viatura policial, e os tinha ofertado às crianças órfãs da escola de Popov Most (...)
Que no caminho, devido à sua fraca habilitação de conduzir em clima de Inverno, tinha danificado a viatura...”
Um gargalhar brusco brotou de meus lábios bem insuflados pelo gozo vingativo que sobressaltou o pobre Zacharia das suas meditações de culpa. E ri entusiasmado. Se ri...
- Eu perguntei para quem era o saco e ele disse-me que eram para as crianças (referindo-se às suas)… – ousou Zacharia interromper o meu riso sarcástico.
Um “está bem! (ok)” meu pôs fim a qualquer outro queixume e perdemo-nos os dois numa alegre cavaqueira e em especial a minha viagem e celebração da Festa de Natal em Portugal.
E a noite prolongou-se risonha e embriagada.
E embriagada, a imagem de Zacharia vestido de Pai Natal feriu ferozmente a minha mente e provocou-me um riso violento, mais violento cada vez que olhava Zacharia, “Faraó, Pai Natal”.
Nesse dia, de manhã, ressacado, chamei à minha presença o “infeliz queixoso” e preguei-lhe um omnipotente sermão em que, por dificuldade de comunicação entre línguas e culturas, se devia expressar cuidadosamente a fim de evitar confusões daquela natureza; seria ressarcido dos possíveis prejuízos desde que apresentasse a factura.
A sua cara de incredibilidade provocou-me a dor da ressaca porque uma risada sacana me sacudiu intensamente o ser.
“Doce vingança” - sabia eu, e os demais, que não haviam facturas no mercado negro.
E lá se desfez o homenzinho em desculpas, que era também sua intenção contribuir na colecta que os polícias estavam a fazer em prol dessas crianças, um blá-blá enfandonho mesmo para um indivíduo mais paciente que eu e menos ressacado.
Terminei aquela lamúria pretensamente caridosa com um “get lost (desaparece)” e o rasgar decidido da participação nas “fuças” do tipo. Ponto final e dispensei-o.
A Zacharia, o “Faraó, Pai Natal”, castiguei-o verbalmente proibindo-o de conduzir as renas, desculpem os leitores, de conduzir qualquer outro tipo de veículo durante o Inverno.
E fiquei feliz que castigo deste cariz tenha retirado um peso nos ombros de meu amigo.
Não fora talhado para conduzir na transição do deserto, com seus camelos, para o ártico, com as suas renas. Não, não fora talhado para tal feito.
E um envelope foi-me entregue da parte de todos os outros membros policiais, oriundos de quarenta e dois países, ali em serviço, numa miscelânea de fardamentos cujo factor comum era a boina azul celeste. Continha a colecta para saldar o débito da reparação do veículo…
Reabri o envelope, coloquei a minha parte, fechei-o e dirigi-o aos serviços de contabilidade.
Insh Allah!

Chefe João Loureiro
CI / PSP
Ex-IPTF / UNMIBH
International Police Task Force - Bósnia e Herzegovina
 
Ponte do Padre, "Popov Most"

A Consciência Cria a Realidade

 
Você se vê como um corpo. Delimitado no espaço e no tempo. Mas o mesmo fenômeno de se ver em algum lugar é muito ligado à noção de estar ciente de algo. Estar ciente é estar consciente...
Ser consciente então é apenas saber estar em determinado lugar, em determinado tempo... Tire o lugar e o tempo, e fica apenas o "saber". O saber independe de lugar e tempo. Na verdade, como visto, lugar e tempo é quem dependem do saber.
Então, você sabe. Você é um ser senciente, e usa diversos meios para se "localizar", meios que chama de sentidos. "Aqui", na terra, você acha que tem cinco deles, embora sejam mais, mas vamos deixar por isso.
O que queremos dizer, é que não existem lugares como céu e inferno. Lugares geográficos, quero dizer. Eles estão dentro de você! É a sua consciência que cria o mundo, e em massa, vocês criam todas as situações cotidianas pelo que passa o mundo. Todas as mentes, estão interligadas num lugar profundo, que costumam chamar de inconsciente coletivo. Mas, é esse tal "inconsciente coletivo" que chega mais perto daquilo que chamam divindade. Pois é nessa energia mental atemporal que está concentrada todas as memórias, conhecimentos, experiências e vivencia de cada ser que já passou pela terra, até a menor frase ou ruido já dito por um deles. É a fonte universal, de onde você veio, para onde você vai, e invariavelmente, de onde absorve todas as características que fazem de você quem você é. De um ponto de vista mais distante, este consciente coletivo é um único ser. Assim como você parece ser único em relação a uma única célula de seu corpo. Mas, visto de perto, como eu posso vê-lo agora, você é um número absurdo de células e moléculas, e cada uma delas tem a sua função e mesmo personalidade.
O universo é mental. Pensamento. Uma vontade de sentir com ação própria, criando o seu próprio meio. Diante disso, há universos incontáveis e inimagináveis, se você puder alcançá-los. Vai por mim, essa cadeira onde você se senta, não existe. Ela não existe por si mesma, ela precisa de você para existir, para dar sentido a ela. Sei que, no fundo, sabe do que estamos falando, pois você guarda essa informação no fundo de sua alma, num outro sentido do qual não fala muito, e que costuma chamar de intuição. Aquela voz distante, que fala do fundo de sua alma, e às vezes até grita, na esperança de você ouvi-la.
 
A Consciência Cria a Realidade

Viajamos Entre as Mentes

 
O Ser é que cria a experiência. O espaço, altura, largura, distância, paredes... Nada disso existe! São meros artifícios para a experiência. O que há, na verdade, é uma rede realmente infinita de pensamentos que se entrecruzam, cada um percebendo o seu próprio, e aquele que pode compreender.
Olhe lá fora para o seu mar... Ele foi uma criação mental um dia, de um Ser que achou interessante aquela formação. Outro Ser, então, percebeu a "imagem" criada, achou-a interessante, e a incorporou a si mesmo, passando a compartilhar com o "criador" original, aquela "imagem" marítima. Claro que ele acrescentou algumas coisas pessoais a esta imagem agora compartilhada... como nuances de verdes e azuis.
Uma outra entidade então, vendo o que as outras duas compartilharam, resolveu participar também... acrescentou marés, a sensação do molhado, o som gutural das ondas... Outras vieram, e cada uma acrescentou de si, algo que lhe agradava: peixes, algas, uma praia... E assim, dividiam entre si a experiência sensorial e mental, vibrando na mesma faixa, percebendo uma mente o que a outra percebia. Pois tudo é mental. E você mesmo se divide em dois, ou em três, às vezes, se perceber bem...
Isso foi há muito tempo, em seus termos. Tempos imemoriais demais para relatar. Essas entidades alçaram voos maiores, criaram outras realidades inexprimíveis das quais compartilham agora entre elas. Realidades impossíveis de descrever para vocês.
Mas vocês, enquanto fragmentos mentais dessas entidades ancestrais, percebem o que elas deixaram para trás. Porque vocês mesmos são partes delas. Filhos de um sonho. E aprendendo a criar ainda, um dia vocês mesmo criarão as suas próprias realidades, e encontrão aqueles que desejarão partilha-las com vocês. Até que um dia, fragmentos de seus próprios pensamentos criarão consciência, e experimentarão os sonhos que vocês mesmos deixaram para trás, ao alçarem novos voos.
E assim caminha a eternidade, em ciclos. Criadores e criaturas. Numa onda infinita, onde a única diferença é aquilo que se pode e se quer perceber.
O estado de ser, É. Ele não precisa da matéria para existir. Ele existe por que ele É. Todo o resto é derivado, porque nada existe sem uma vontade, e para ter vontade é preciso Ser.
Só alguém que É pode expressar-se. E a expressão em seu mundo traduz em som, em ondas. E o som, por sua vez, em palavras. E a alma da palavra, aquilo que a ela imprime movimento, chama-se Verbo.
Verbalizar é emitir uma vontade em ondas. E é em ondas (vibrações) que um pensamento atinge o outro. E assim que você se identifica com o outro do lado de cá.
O seu ego é só um artificio, usado pela mente para especializar a experiência. Como quando você fecha um olho para mirar melhor com o outro. Se você visse a verdadeira realidade do que te cerca, ficaria extremamente desorientado. Dia virá em que coisas serão reveladas outra vez. A humanidade partirá de novo para novas percepções. Aqueles que estiverem prontos. Mas o ego de muitos está viciado, não viveriam sem esse mundo de ilusões. Para esses, bastam que as ondas se arrebentem nas pedras, desde que sejam saciados em seus instintos básicos. Eles ficaram aqui ainda, por muito tempo em seus termos. Esse mundo como está basta a eles, chegam mesmo a se regozijarem com a violência, a ganância, a desordem. Vibram na mesma faixa.
Alguns, alçarão seus voos. Levarão daqui a experiência para fazerem coisas melhores, e não repetirem o que viram de pior aqui. Não há como descrever, numa linguagem que possam entender, a luz e a pujança que resplandece em realidades assim...
 
Viajamos Entre as Mentes

O poeta beberrão

 
O poeta beberrão
 
Oriundo do clã dos aficionados da cachaça, Duílho nosso herói beberão protagoniza uma cena bizarra num bar de "primeira linha". Havia apostado cem "pratas" com o dono do bar, que tomaria todas e mesmo bêbado comporia um poema de amor e sairia de lá com uma "mina". Lá pelas "tantas" já inebriado vê uma loira acompanhada de um casal de amigos e não é que lá vai ele cambaleando recitar seu mais novo poema para a moça, que tomada de espanto ouve calada. Quando Duílho termina uma mão toca o seu ombro por trás, era o namorado da moça que havia retornado do banheiro, tudo indicava que o "caldo ia entornar", no entanto o rapaz levou na esportiva e ainda quando foram embora, deram uma carona ao Duílho deixando-o em sua casa. Intrigada a moça pergunta ao rapaz o motivo de tão nobre atitude, ao que ele responde, que estava a cuidar do futuro, diante a cara de espanto da namorada ele explica, que apenas repetiu o que ele viu o seu pai fazendo uma vez, diante um embriagado. Concluiu o rapaz, que havia aprendido que tudo na vida são oportunidades que a mesma nos oferece e que nossas atitudes demonstram aquilo que fazemos com elas e traçam o nosso destino.
 
O poeta beberrão

A Pena Cansada

 
A Pena Cansada
 
A Pena Cansada
by Betha M. Costa

A Pena cansada de dizer das coisas que lhe mandava mão rebelou-se:

-Não escrevo mais nada!

Entortou-se. Toda cheia de teimosia e silêncio escorregava pela mão desanimada em desenhos ininteligíveis e feios feitos hieróglifos num papiro antigo.

Adulador, o tinteiro tentava convencê-la a mergulhar na tinta azul marinho fresquinha.Falava das coisas belas que a Pena já havia escrito e todos os mares de outras idéias luminosas (ou escuras), que ela ainda poderia passar através das palavras por ela escritas para os leitores interessados em si.

O papel branco se pautou caligraficamente para o caso da geniosa senhora resolver trabalhar e assim caprichar nas letras, que se movimentado sobre as pautas ficariam mais agradáveis a leitura.

A mão acariciava a Pena como a uma filha revoltada.Dizia-lhe de seu amor por si e de quanto ela lhe era importante. Que ambas mais as letras que desenhavam palavras formavam um conjunto harmonioso, que criava histórias, poemas, e, expunha toda a sorte de pensamentos e sentimentos.

A Pena acinzentada - de tanto que já fora usada - olhou para a mão com desdém e sem dó nem piedade deitou-se sobre a escrivaninha para descansar.

Enquanto a mão, o tinteiro e o papel se distraíram em questionar os motivos que levaram a Pena a tão drástica e dramática atitude, um forte vento entrou por uma janela. Soprou ao ar a Pena que voou pela outra janela do décimo andar. Depois de muito planar, caiu na mão de uma criança, que aproveitou o que lhe restava da tinta azul para colorir o céu do seu desenho Depois a jogou no chão, onde a pobre pode enfim descansar...
 
A Pena Cansada

Recanto das Letras

 
Esse texto foi minha participação no VII Evento.
Uma brincadeira com alguns textos e discussões polémicos (já antigos).

...
Estava agora completa a associação secreta de Luso-Poetas conhecidos como "Marmotas", que após expulsarem todos os demais poetas considerados por eles inferiores, os quais chamavam de "Antas", passaram a controlar todas as publicações de forma ferrenha numa busca doentia pela perfeição.
Alguns "Antas", inicialmente, não perceberam o cerco dos "Marmotas" pois estavam brigando entre si discutindo sobre estrelas e acordos ortográficos (melhor dizer, desacordo), e a desunião facilitou o ataque. Tão logo, o que se viu foi uma verdadeira caçada. Todos os "Antas" que recusaram a sair foram assassinados.
A obsessão aumentava a cada dia. No auge da loucura, os "Marmotas" decidiram que cada membro deveria cortar sua mão "inútil", a mão com a qual não escrevia, e que ela seria devorada por todos. Era o ato máximo de fidelidade à poesia, uma espécie de rito de passagem. Mas toda essa loucura estava longe de terminar, pois após devorarem a última mão "inútil", decidiram no final daquela mesma noite que se algum membro ali presente não publicasse pelo menos três poemas por semana, dentro dos padrões exigidos de criatividade e originalidade, se fosse encontrado algum erro, mesmo de digitação, perderiam a mão "útil".
Ainda naquela mesma noite, três desistiram e voltaram para o "Recanto das Letras."
 
Recanto das Letras

DO OUTRO LADO DE UMA LENDA

 
DO OUTRO LADO DE UMA LENDA
 
Aventurando-me pelos caminhos do Conto.

Primeira Parte ( de uma série de 03)

Todos os dias, pontualmente, ela visitava a Biblioteca Municipal. Entrava pela lateral e, desaparecia pelo corredor que dava acesso às dependências do salão de leitura. Isso já há alguns meses. Ele a via entrar, mas nunca a via sair. Já se posicionara nas imediações do prédio, que não era tão grande assim, de forma a não perdê-la de vista, mas nunca conseguira surpreendê-la na saída. Precisava investigar aquela moça tão estranha, pensava.

Bibliotecário responsável pela entidade, o jovem Oswaldo cumpria também a função de porteiro, já que não se encontrava candidatos para esta função, a altura de sua criteriosa seleção.

Olhar astuto e curioso, não compreendia porque aquela moça tão bonita, elegante e de ares angelicais, que nunca lhe passara despercebida, não usava a entrada principal. Muito estranho!

Certamente, que qualquer freqüentador da biblioteca poderia utilizar quaisquer das portas de acesso a que ele denominava “casa da cultura”, que contava com três, e invariavelmente, todos entravam pela porta principal. Somente aquela senhorita a qual nem sabia o nome, mas que ele havia nomeado Srta Morena Bonita, o fazia pela porta da lateral esquerda do edifício...

Maria Lucia (Centelha Luminosa)

Continuação nessa segunda feira , dia 26 de Outubro.

Com esse conto participei da Blogagem Coletiva no Blogspot, "Lendas Urbanas", criada por Christian V. Louis, e Elf Pandora,

Espero que gostem.
 
DO OUTRO LADO DE UMA LENDA

A Morte da Poesia

 
A Morte da Poesia
by Betha M. Costa

Morreu a Poesia levando ao desespero o Poema, seu mais puro e belo representante na Terra.

De luto, os ventos destelharam céus, lançaram ao mar todas as estrelas e demais astros. Fez-se grande escuridão.

Os mares revoltados quiseram subir até as mais altas montanhas, mas tanta era a tristeza, que eles escavaram com suas águas as profundezas do planeta e lá se esconderam para que ninguém mais os apreciasse.

Como efeito dominó os vegetais retornaram ao seio da terra, os animais calaram-se e se abrigaram em tocas.

Os humanos ficaram com um imenso buraco no coração. Perdidos dos seus sentimentos, não conseguiam se expressar uns com os outros, por que as palavras perderem o alinhamento e suas vozes eram incapazes de propagar sons.

A Poesia linda e pálida estava solitária no seu esquife ornado de orquídeas roxas. O Poema em prantos - por saber ter perdido para sempre sua musa inspiradora – ajoelhou-se ao seu lado cheio de lamentos de paixão. De repente escutou bocejo longo:
- Huááááááá!...Confusa a Poesia se sentou no ataúde a perguntar o que acontecera.

Sem que ninguém dissesse palavra os mares saltaram verdes e azuis das entranhas do planeta e cuspiram de volta ao céu todos os corpos celestes.

Os campos se vestiram de verde, as flores coloriram e perfuraram seus espaços, enquanto as árvores entrelaçaram suas copas e os animais se espalharam como se estivessem no Jardim do Éden.

Os homens e mulheres soltaram vozes em canções e em tantos versos, que apenas naquele instante foi escrito uma quantidade inigualável de livros.

Assustado o Poema perguntou a sua amada:
- Ó bela, não estavas morta?

E recebeu como resposta:
- A Poesia nunca morre, pode ficar sonolenta e às vezes até dormir sono profundo por muitos dias, mas sempre voltará mais forte e inspiradora que antes!
 
A Morte da Poesia