SEGUNDA-FEIRA
Lavo a cara com o primeiro café da manhã
que derrete a remela no fundo cego dos meus olhos
e me ajuda a suportar o choque oblíquo dos raios solares
que se riem, por detrás da colina, do meu rosto desbotado.
Acendo uma nuvem de fumo denso e sufocante
que me guia na orla convulsa da rebentação
e caminho encostado à cal efervescente dos muros,
com a mágoa de quem vai recomeçar tudo de novo
e uma vontade moribunda, presa por gastos arames.
Sirenes de chumbo rasgam o orvalho preguiçoso
e vêm pousar as garras nos meus ombros curvados
que arrastam o passo nas alamedas da madrugada
por entre o rumor azedo de roldanas cariadas
e o grito estéril do cristal vacilante das manhãs.
Acendendo o rastilho das horas que me vão devorar,
alumiadas pelo pasmo renitente das gambiarras do vento,
escondo o corpo nas prateleiras enferrujadas do armário
junto com a roupa que penduro em cabides de plástico,
e é já só minha sombra quem trespassa o vítreo portal
mergulhando a pique nas ravinas viciadas da semana.
manhã de segunda-feira (parte ii)
... continuação
ó como me feres
com o teu tom doirado
como é denso o amarelo
dos girassóis
ouro que derrete
na talha dos meus devaneios
tela quente onde arde
o meu corpo a chamar o teu
assim te inventei
e nesta manhã silenciosa
foste mais que miragem
foste desenho pintura paisagem
num dia de verão
em manhã de segunda-feira
continua...
Devido as imagens poderem ter conteúdos suscetíveis de ferir sensibilidades as mesmas não foram publicadas. poderá ver o poema com a respetiva imagem em http://afacedossentidos.blogspot.pt/
Segunda-feira, 26/01/2026 e até quinta 29/01/2026
Segunda-feira, 26/01/2026
Dormi como uma pedra, totalmente chapado de vodka e cerveja. Acordei ainda zureta – mas consegui fazer o que tinha programado e aqui estou no Terminal da Praia Grande com o queixo quebrado. Foi uma queda brusca, inesperada, dei uma topada com o dedão do pé esquerdo num desnível na calçada em frente a Casa das Tulhas – Feira da Praia Grande e fui literalmente a lona. Recebi o recurso na Caixa da Praça João Lisboa e vinha todo alegre, sonhando em molhar a garganta com uma boa e gelada cerveja. Mas aconteceu e o sangue tingiu de vermelho a minha barba, obrigando-me a lavar-me no banheiro da feira. Na banca de Dona Loura como de praxe comprei dois livros: “Pela mão do Anjo” a biografia ficcional do diretor de cinema, escritor poeta italiano Píer Paolo Pasolini escrito belamente pelo escritor francês Dominique Fernandez e “Contos de Manhattan” do mestre americano Louis Auchincloss.
Quarta-feira, 28
O dedão do pé esquerdo lateja, desde a topada brutal na segunda. Ainda bem que era cedo e poucos transeuntes.
Comecei a ler os livros que comprei na segunda. “Pela Mão do anjo” de Dominique Fernandez e “Contos de Manhattan” de Auchincloss. Maravilhosos, principalmente a o primeiro a biografia ficcional do grande mestre Píer Paolo Pasolini – diretor de cinema – morte dele nos anos 70 me comoveu muito e escrevi um poema “Prantos para Píer Paolo Pasolini” ao estilo do que Frederico Garcia Lorca fez para o toureiro Ignacio Sancho Mejía. Pasolini trabalhou com Maria Callas e Sophia Loren. No sábado assisti o filme português interessante – “Snu – o amor que mudou Portugal” – a historia do romance do primeiro ministro Sá Carneiro e a dinamarquesa Snu.
Quinta-feira, 29
Eles se foram – primeiro foi o Tio Vince e minutos depois no raiar do dia Tia Fleur. E eu fiquei provisoriamente como o guardião do castelo aqui no Paraiso. Preparei um sanduba e o devorei com leite. O galo cantava no quintal – Serão quatro dias de completo isolamento. Terei que ir a Vila, ou seja, a pensão para apanhar o outro caderno de capa dura amarela e o shampoo que esqueci na pressa de vim ontem a tarde, depois que Mano Vince telefonou-me pedindo meus préstimos.
As seis e meia da manhã fiz o que tinha de fazer, ou seja, retornar a pensão Vince para apanhar as tralhas – além dos pães, trouxe o poeta Caeiro/Pessoa – Agora sim, tomo posse definitivamente de guardião – uma televisão com uma tela enorme, mas sem internet. All right!
Ainda é cedo, oito e dezessete. Levei as verduras, legumes e o feijão cozido para a cozinha. Antes de sair, joguei o milho para o astucioso galo e um pombo empoleirado no muro lateral o observava. Assistindo o migueloso apostolo milagroso Valdemiro Santiago, o líder da Igreja Mundial do Poder de Deus. Chi, esqueci a pomada das frieiras.
09:11 – O almoço pronto – um bom almoço vitaminado -repolho e feijão cozido que tia Fleur fez ontem a noite – um guisadinho de linguiça, repolho e ovos.
10:05 – Um pouco da filosofia oriental do escritor persa Ibn Al-Mukafa em “Calila e Dimna”. Morreu aos 35 anos, queimado aos pedaços no forno de um inimigo.
11:51 – O dedão do pé esquerdo voltou a latejar. Ontem a noite Mano Vince deu-me um comprimido de Infralax. As crianças brincam nas quitinetes do lado e do outro um pedreiro assenta uns tijolos batendo com a colher para fixa-los.
Meio-dia – Encantado com a prosa de Dominique Fernandez encarnando o mestre Pasolini – este livro ganhou o Premio Goncourt, importante premio literário francês.
O dedão arroxeado, acende o sinal de alerta, o medo de gangrenar. Foi assim que amputaram o dedo do comandante Lasierra. Chuvisca sobre o Paraiso. Os bombeiros da Defesa Civil vistoriam os casarões do centro que correm o risco desabarem, assim como a oficina do Sr. Con.
13:03 – A chuva volta, lavei o cabelo e a barba com shampoo e esfreguei-me com a palha. Depois de enxuga-las coloquei nas frieiras um remédio que encontrei sobre a cômoda do quarto que me alojei – um tal de “Colpadok -Nitrato de MIcanazol”.
Tarde – emocionado com a homenagem da Unidos da Tijuca para a grande mestre da nossa amada literatura Carolina Maria de Jesus – sou seu fã, a li uns quarenta anos atrás, comprei o livro icônico “Quarto de Despejo” fiado na banca do Irmão na Avenida Magalhães de Almeida. Perdi ou me furtaram nessas mudanças. Juvan tem um exemplar que o instiguei a comprar.
A merenda das três foi um copo de leite com bolacha. Ainda tem um pouco do almoço pra o jantar. Jogo milho para o galo – é final de tarde. A geladeira com mau cheiro.
18:00 – Hora do Angelus e assisto a missa da basílica histórica de Nossa Senhora Aparecida.
A distribuição da hóstia, levantei para acender a lâmpada da sala de jantar, o interruptor fica dentro do banheiro e segui para cozinha, fechar a porta do quintal, lavei as colheres e o prato voltei.
Ergo-me novamente para acender a lâmpada desta sala de estar e voltei ao banheiro para apagar a luz da sala de jantar, entro no quarto onde me alojei para fechar a janela.
O canto de encerramento e pedimos a benção a mãe Aparecida.
Em Brasília, 19 horas – A Voz do Brasil no Canal Gov.
19:32 – barriga cheia e o cricrilar dos grilos amorosos.
“Mãos Talentosas” a história do neuro cirurgião Bem Carson. O dedão do pé lesionado continua arroxeado, mas sem dor. Um copo de leite e outro sanduba. Uma cirurgia de 22 horas para separar os gêmeos craniópagos feita por uma equipe medica comandada pelo DR. Carson. O velho seriado “O Rei dos ladrões! Com Robert Wagner na Rede Brasil – um enlatado americano dos anos 70.
Mas um sanduba, enchi o litro de agua. Outro seriado e sono bate em minha porta.
à segunda-feira enterra o domingo
à segunda-feira enterra o domingo. manhã cedo apanha um molho de hortênsias em lágrimas e enfeita uma jarra de porcelana fina para colocar do lado esquerdo da lápide aqui jaz o domingo.
Segunda-feira
vocês, humanos
plebeus! agindo como moleques
crianças altas
inventando nome para todos os alpes
os vales, incontáveis
depressões, castigo de Deus pelos murros
arrumem esse planeta destrambelhado
que abriga outros seres mais sociáveis
hipócritas por natureza
porque cada um mente como pode
não se trata de pecado (será?)
mas de peça de teatro
micro expressões de felicidade
nos mendigos da cidade
se entretém com putas
entregando doses de cicuta
e depois arrumam tanta confusão
quebram um bar inteiro
o feitiço do feiticeiro
finalmente entrou em ação
Escrito por mim no dia 29/07/2026 em Brasília-DF.