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Poemas, frases e mensagens de Manito

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Manito

Quadras finais

 
O verbo em mim se esvai isso é verdade,
Desfalecido na fuligem do meu peito.
Engano ter-me crido um alvo eleito,
Sirênico sonho, ser do estro a raridade

Lança aguda – fere e fende a sanidade –
A vaidade, sutil madrinha do imperfeito,
Risonha e fácil insinuou-se em meu leito,
Vestal profana, por progênie a veleidade.

Esvai-se o vento e sem rumo meu adejo
Esvoaça ao sol, adentra a noite, ao relento,
E as certezas, a segurança e até o talento,
Já distantes, apagam os rastros de sobejo.

O silencio que me veste o verbo inteiro,
Vem sem rosto, vem sem vulto e sem matiz.
Do fracasso é talho vivo e é cicatriz
È a tristeza a libertar-me em seu viveiro

Pra que da liberdade agora ser posseiro?
Pra que asas quero longas sem ter céu?
Silencia-se bufa ópera ao meu te-déum;
Secam-se me as folhas, reaparece o canteiro!
 
Quadras finais

Vozes do silencio

 
Da manhã do tempo ouço seu clamor,
Vozes do silencio de mim desgarradas.
Ávidos lamentos do não amado amor
Escondido nos cúmulos das incertezas
Amordaçadas.

Eco longínquo de vozes sem vida
Dos rascunhos de sonhos de amores não tidos
De verbetes não lidos da estrofe perdida
Nos mananciais de princípios e dogmas
Poluídos.

Reclama das horas sepultadas em devaneios
Por não amar com o amar que o amor quis,
Quando quis do amor subjugar os anseios
Enxertados com espectrais e renitentes receios
Desde a raiz.

Róseo fulgor não havido que haveria de ser,
Nesta negra e poeirenta mina de hulha,
Ora resta lutuoso brilho do anoitecer,
Sob o olhar vago e profundo da ave penitente
Que infeliz arrulha.
 
Vozes do silencio

O Ar e o Vento

 
O vento que iça a bujarrona,
Procura do ar a pureza perdida
E açoita insurgido a água poluída
Avocando o dever de varrer a tona

Seu lamento uivando na vela afoita
Sustenta por oficio a gaivota branca;
Em solitário revoar alva pena arranca
E lhe dá por alento antes que anoita

Pranteia ao mar com descuido tanto.
Nele afoga da castidade a esperança
Sem mais da pureza azul reter lembrança...
Vencido enluta a areia pura seu pranto

Forte, impetuoso e quente agita o mar
E empurra nas velas a gente errante
Estranha gente que ainda infante
Semeia a autofagia degradando o ar.

O ar, gáudio ímpar do pulsar perene
No sorriso procriador da natureza
Agora fusco, venal, rarefeito de realeza
Infla a bujarrona com fumo de querosene.
 
O Ar e o Vento

Rosa de pano

 
Lá está, beleza postiça,
Até provoca cobiça,
Artificial rosa de pano.
Nunca foi pequena,
Sua tez não amorena,
Seu rubor é puro engano.

Mantém o porte da flor,
Tem até a sua cor,
Porém seu perfume jamais.
Nunca se viu botão,
Espera os beijos em vão,
Dos colibris nos quintais.

Mirra-te a pele? Aceita.
Toma a via estreita,
De uma vida menos ditosa.
Exigir forma perfeita?
Se flor de pano enfeita,
Dela nunca brotará outra rosa.
 
Rosa de pano

Poesia... meu consumo!

 
Venho de longe
Do berço, do peito, do sonho,
De tempo risonho
Que da luta a rudez esconde.

Cheguei há horas
Em bicas, sem ar, sem demora,
Correndo por fora,
Transformando em galhos as toras.

Trouxe comigo
Resíduos, amigos, amores,
Eminentes atores.
No cultuar das raízes prossigo.

Sigo meu rumo.
Sorrindo, voando, vou indo,
Aos poucos subindo.
O embevecer da poesia meu consumo.
 
Poesia... meu consumo!

Quase oração

 
Mandei meu coração pousar na lua;
Com ele meu olhar para aos anjos procurar.
Ou quiçá ventura maior ao meu olhar debrua
E tua face meu Deus venha-me o céu iluminar.

Por muito que daqui da terra O busque,
São tantas penumbras e luzes de difuso aspecto
- Até do solar espectro - que talvez me ofusque,
Tornando-se embuste ao desatento intelecto.

Se em vão da lua espero por Tua face amiga,
Dela não me despeço sem Te admirar, presente,
Seja no intenso brilho da supernova mais antiga,
Seja no azul utópico da Terra em que vivo gente.

Mandei meu coração pousar na lua.
Com ele meu ouvido pra no silencio escutar,
Pois na terra dos risos e dos cânticos o ressoar atua
Na ara de tantos deuses e já não Te ouço me chamar.
 
Quase oração

Minha janela

 
Abro a janela, a do meu quarto...
Ninguém a espera
Não diviso, do dia que finda, a quimera,
Nem da lua o parto.

Encontro-me aqui, atônito...
Aparvalhado com a rudeza da hora
Dos pardais o gargalhar irônico
Do reluzir do céu a demora...

Porque abro-te então, crepúsculo, a janela?
Já, os sonhos, te arranquei na aurora...
Em teu anúncio frígida cela...
Porque atrais meu olhar agora?

Não me dizes, nem o sei...
Se a esperar não há ninguém, pois,
Quiçá seja a espera dos amores que não amei,
O reencontro do que ficou pra depois...

Muitos os charques que ao sol deixei!
Tantos foram os grãos que colhi...
Revisando, porém, o que plantei,
A mirar-me em seu vão,
Alentada janela...
...não é em vão estar aqui!
 
Minha janela

Gota de orvalho

 
Descida do firmamento
Em movimento recamado,
Com suavidade e leveza,
Ao belo soma ornamento
Pelo céu estimulado.

Úmida, maternal, sem pecado,
se deita sobre arranha gatos,
Sobre ramagens e flores
E em ritmo contínuo e calado,
Transcende em altar os matos

É pérola inimitável
No seu estar passageiro,
Tal e qual o pensamento,
Que no tempo insaciável
Do presente é prisioneiro.

Viça pelas manhãs a rosa
E depõe-se no dia ao meio,
Mas, se o sol a quer enxuta,
Ao balanço da flor viçosa
Esparge sem ter receio.

Em folha seca pousada,
Brilhante qual passageira,
Úmida gota de orvalho,
Anuncia nova ramada,
Primavera alvissareira.

Ah, Déa de efêmera glória...
Celebrando seu estar solene,
O orvalho por ti se enluta
E a rosa tem na memória
O beijo que a faz perene.
 
Gota de orvalho

Vigília

 
Procura o olhar da Luz o brilho
Na cinza agonizada que esfria,
Oculta, irrefletida, sem vida, sem sentido;
Pirilampo revoado ao clarão do dia;
Candelabro à escuridão rendido.

Da mesma luz branca o coração procura
O fluente brilho, dantes denso e quente,
Para emprestar às sombras regenerada alvura
E aquecer a face fria do presente

Na cela, as paredes mudas e frias
Aprisionar decidem a solidão da hora
E as moribundas certezas em pele e pano
Revelam-se falsas pérolas, sem demora,
Na prontidão do presente soberano.

Alertados todos, auscultam os sentidos;
À soleira o inimigo espia.
É noite, noite tardia e a flacidez ausente.
O silencioso coração que por si não pulsa
Silencioso, provado, mas presente,
Dos ritos pontuais sobe à gávea e vigia
Por sobre as ondas dos desertos temporais
E franqueia ao mar aberto da solidão tardia
A alma criança que ora... E vigia... E ora mais.
 
Vigília

Como o sol

 
Como o sol que irradia sem aviso
e se avisa cabe à noite interpretar,
sem aviso a luz brotou no imenso mar
entremeando criaturas, fluidez e furor
e o céu, sem concordar nem se opor,
intérprete fez-se do amor de amar preciso.

Ao marear de sensos ao longe mergulhados,
emergem pérolas ao acaso, bordado de estrelas,
e luzem na emoção de quem da terra pode vê-las
aos clarins e harpas, as trombetas e toda banda!
Sob as rochas, se houver, restará nota nefanda
do passado que não passa e é do agora nó atado.

Regenerados sonhos, imperiosa realidade!
Semente germinada ao sol e ao sabor do sal
do mar de incomum beleza que descura todo mal
n’alvura de sua espuma que a garça expõe altiva,
silente, no altar da laje, como a doar-se cativa
no mosaico recomposto do manto azul da verdade.

Como o sol que irradia sem aviso
Sem aviso, daquele mar, emerge a luz da unidade.
 
Como o sol

versos e Versos

 
Versos e Versos

La adiante, além cúmulos e montes,
Extraviado na linha turva da exceção,
Vêm-se, fixando o olhar no horizonte
Intuitivo e permeável da razão,
Com sentidos em debandada,
Os versos derreados, feridos,
Da razão própria baldarem perdidos.

Célere o esmeril da popular idade
Em limalha inservível os destina,
Cridos ébrios resolutos, à iniquidade
Da imane abjeção e chacina
No roto senso de gírias desgastadas,
E as palavras ao pó sem brilho atiradas
Rasuras fixas em páginas de ruínas.

Heroicas páginas inquiridas, reticencia
Entre o branco das poéticas emoções,
A inundação digital da ineloquência,
E as rasas e chulas interposições
Da verve das esquinas do moderno,
Que, sem culpa, sem honra ou galhardete
Nos anais montam guardas de enfeite.

La, porém, além-túmulos e fontes,
Ainda além da linha turva da exceção,
Em porfia, contumaz, no horizonte
Afortunado e permeável da razão,
Do brilho em versos a garantia ecoa
Em Florisbela e Vinicius, em Sophia,
Em Luís de Camões e Fernando Pessoa.
 
versos e Versos

Corre Coração

 
Corre no pensamento coração, corre...
Corre neste entardecer sem brilho, e exaustivo,
Arranca-me o fôlego que te manterá vivo,
Oculta-te na dor da escuridão que morre!

Avança sem tropeços no passado,
Sem descanso na guarita da saudade,
Sem guarida ao torpor que o peito invade...
Corre, não te permita entregar-me derrotado.

Incontentado, saberei manter-te o impulso
Quando o percurso do vigor dos meus desejos,
Em devaneios doridos por reprimidos beijos,
Morrer-me na esperança, e de ti ver o amor expulso.

Corre então em meu lamento coração, corre...
 
Corre Coração

O presente ...

 
Sou... Estou... Estás... São...
Preciosidade soberana, segura,
Lente diáfana da realidade em ação!
Perene morada de glória e loucura.

Não fujas do É, nem divagues.
Assim, que ao imponderável “será”,
Remorsos e quimeras não pagues.
Preserva a flama que só aquele te dá!

Porque contemplar em frincha estreita,
Se encontrarás ossada desértica e adeus?
Registro ou é história ou é colheita.
Em memória os cultue, vá lá, foram teus!

Acende teus refletores e teus gravetos;
Luz no presente, não no que vem ou foi embora.
Nele teus tesouros, ramalhetes e sonetos.
Vive intensamente a eternidade do “agora”!
 
O presente ...

O nada que me cerca

 
O “nada” que me cerca e não tem fim
Sustenta enfim ativo meus sentidos;
atrai-me, inexorável, ao limiar do infinito
e confirma, da razão que me aprisiona,
a verdade que “sou” pra ele e ele pra mim.

Do que vejo existe pois o olhar;
Do que cheiro só o cheirar existe...
Assim com o tato, paladar e audição.
Nada possuo, e é verdade que não resiste;
- a vida vivida no corpo é como ilusão.

Aqui onde todo me encontro ser,
ser sou se sou do olhar um ser cativo,
se a imagem que me vê pra me conter
inclui-me impresso nas retinas d’um amigo,
Confirmando-me na ilusão que é viver.
 
O nada que me cerca

Assim de manso ...

 
Assim de manso, bem de mansinho,
irrompe a nascente,
brota, o olho d’água, devagarzinho.

Assim de manso, devagarzinho,
o amor aporta,
invade a porta do coração.

Assim de manso o fio segue,
a libélula o toca leve,
em seu espelho, círculos sem fim.

Assim de manso, bem de mansinho,
inunda o caminho,
pavimentado pela solidão.

Assim de manso, rodeia as pedras,
picos miúdos,
de úmido chão, o verde rente rega.

Assim de manso, poli o assoalho,
remenda retalhos,
retira os tronos, remove troféus.

Assim de manso, em seu regaço,
se achegam víboras,
bebericam pássaros.

Assim de manso, conforta fadigas,
desdenha intrigas,
embala o sono.

Assim de manso, obediente ao leito,
o caudaloso rio
deixou distante o fio

Assim de manso sigo o destino,
sem desatino,
imaginando a foz, extasiante cio.
 
Assim de manso ...

Viajante no tempo

 
Conduzir-me há no tempo o que sei e sou,
Sinfonia amalgamada do alfabeto a erudição
Fonte rutilante de aurorais memórias e gratidão,
Que no verniz de polida imagem o saber cumulou.

Conduzir-me há no tempo a luta que não findou,
Na vertente do cansaço e das derrotas do coração,
Não por frágil que fosse e sim pelos afrontados “não”
No pretérito desposar da felicidade que faltou.

Conduzir-me há no tempo os acordes da canção
Da fé desfalecida na fragilidade dos membros
E acolhida na residente têmpera do espírito,
Transudada em vigorosa couraça e proteção

Conduzir-me há no tempo a coragem restante
De voltar a crer no amor, o fiel do destino,
Que descura a glória e acura o níveo toque d’um sino,
Como esponja dos desatinos do infiel errante.

Conduzir-me há no tempo o arguto olhar d’um vigilante,
Ainda que, deste Santo tempo, o mais infiel viajante.
 
Viajante no tempo

O que atrai num poema

 
O que atrai num poema,
o que embeleza seu tema,
se sabe, em geral é a rima.
Suas palavras e versos,
com andamento ou dispersos
é o que lhe dá sentido.
Mas não é mais que cinzel,
ou do livro o papel,
instrumento ou matéria prima,
o que parece essência,
embora lhe de aparência
e até o tom pretendido!

O que é real no poema,
o coração do seu tema,
extrato do pensamento,
é bem mais do que está dito,
em seu conjunto bonito
ou nas expressões dos lábios.
É do poeta o grito,
de amor, de dor ou conflito,
do coração o sentimento!
Isso sim eterniza a escrita,
na forma em que foi dita
e na visão apurada dos sábios.

Se for o amor que o embala,
será lânguida sua fala,
romântica a sua beleza!
Do arco-íris os tons mais suaves,
bordados por vôo de aves,
tingirão os suspiros da alma!
Será porto de esperança,
enternecerá até a criança,
terá da pluma a leveza!
Não pesará sua leitura!
Declamando-o qualquer criatura,
experimentará no peito a calma.

Se versa o palco da paixão,
será maior a explosão
a ecoar em cada linha.
Expressões arrebatadas,
de ansiedades carregadas,
dilúvio de sensações.
Sensações que sem limites,
ao leitor propõe convites
a devaneios que não tinha.
Terá a força de um ciclone,
a aspirar pro próprio cone,
enxurradas de emoções.

Dilacerante ou amena,
pode a dor inspirar tema,
também fazer poetizar?
Pode em sua malvadeza,
aos versos trazer beleza,
ao poeta a sensação de criar?
Pois é a dor o elo forte,
até mesmo a dor da morte,
que liga o homem ao criador.
Portanto é essa amiga,
a aliada mais antiga,
fiel consorte de todo versejador.

Ilustres pensadores,
poetas de muitos amores,
na dor encontraram o tesouro,
o oxigênio da inspiração,
o combustível da criação,
que o talento os cumulou!
Nos mais delicados arranjos,
em revoada de arcanjos,
extraindo da pena o ouro,
quando em meio aos sofrimentos,
às angustias e tormentos,
ninguém os superou!

É a dor a noite escura,
é ausência de candura,
é do abismo o limiar.
Se presente, toma, arrebata;
ao corpo e alma maltrata,
faz sangrar o coração.
É da vida a cumeeira,
é a porta derradeira,
que tem o fim a espreitar.
A presença do seu grito,
faz do poema um rito,
confundido em oração.

O maior grito de dor,
é o que brota do amor,
dos momentos de desdita!
Assim é com o trovador,
com o poeta sonhador,
com um ser apaixonado.
Assim foi com o Salvador,
que no auge do amor,
em experiência inaudita,
entregou-se na paixão,
redimindo a criação,
com sua dor de abandonado.

É a dor a noite densa,
ela abala nossa crença;
as trevas vêm nos visitar.
Mas sem ela faltaria,
o esplendor da luz do dia,
que à noite vem render.
Quando chega a alvorada,
toda dor vem transformada,
ao amor revigorar.
É no altar da oferenda,
é na cruz e não na lenda,
que acontece o renascer.

O que é real no poema,
o que atrai em seu tema,
é o coração do criador!
É de sua alma o grito,
de luta, entrega ou conflito;
é dor, é paixão, é amor!
 
O que atrai num poema

Luz da inspiração!

 
A Lua bordando o poente em prata
Cor dos sonhos que sonho em vão
Desperta os pardais, desperta a mata
Pós noites frias de cálido verão

Sua ausência derrama-se em cascata
Num vale incerto nominado solidão
E nesse coração que não é de lata
Dilata a mesma voz sem compaixão:

Saudade... Saudade... Saudade...
Persistente não cala, não fala, só mata
No regaço vazio, prístina verdade,
Voz do passado que ao presente arrebata

Nem mais identificar-te posso,
Como ao rumor de finda calmaria
Troa longínquo tudo o que foi nosso
Apagam-se me os sorrisos da fronte fria.

Descubro-me nada, alma vazia
Ausência do que tenho e do que falta
Identidade lá se vai mais que tardia
Procuro-te, oculta estrela, em noite alta.

Declina o sol e não te vais, te avivas;
Aviva-te banhada de lua, bela e nua
Nas lembranças que te são cativas
Herdade da poesia sempre sua
 
Luz da inspiração!

Dentro de mim mora um menino...

 
Dentro de mim mora um menino...
Franzino, delgado, que sonha crescer...
Ouve distante um sino, de toque fino!
Encantado, o som lhe bebe até o esmaecer.

Poesias em cachos o bronze lhe soa
Lhe entoa toadas em ondas e vagas
Em fantasias se toma por douta pessoa
A traduzir tal encanto em mantras e sagas

Dentro de mim mora um menino...
Vestido de vestes maior que seu porte
Não é que me importe, ainda é pequenino.
Deixa que sonhe, que ria, que fie na sorte...

Deixa que beba do sino, do seu tilintar...
Que aura, desse idílico sonhar, as benesses
Até que o espelho se lhe ponha a gritar
E por este insípido prosaico se curve em preces
 
Dentro de mim mora um menino...

Acaso amas?

 
Vindo por essa trilha
trilhando o mesmo caminho
avistei um passarinho
preso numa armadilha.

A pena se me abateu!
Cuidei-lhes as feridas
em meio a penas partidas,
dialogando, ele e eu.

Já estando por ir embora,
disse-lhe que por tal maldade,
pelo privar da liberdade,
até o ser humano chora.

Fitou-me com caridade,
mas também com altivez,
indagou-me se o homem, talvez,
sabe o que é liberdade.

Sim, respondi de pronto,
com o melhor sorriso que tive,
- É assim que o homem vive,
livre como me encontro.

Ai veio seu argumento,
em suave tom sibiloso
com seu olhar amoroso,
e eu ouvindo atento:

“Pode o homem pensar,
pode sorrir,
pode até sentir.
e também sonhar!”

“Porem de tudo que sente,
dos seus sonhos e seu pensar,
pode livremente falar,
ou tem vezes que mente?”

“Como livre ele se enxerga,
quando dele brota cobiça,
e o paladar o eriça,
e o possuir o cega?”

“Preso está a cordas tensas,
das soberba e vaidade,
do sexo e da iniquidade,
e diz-se livre!... Pensas!... “

“È assim a liberdade?
Um cálice de crenças,
um feixe de diferenças,
uma trouxa de saudade?”

“Sentem-se livres por ir e vir
por comer e beber,
por dormir até o sol nascer,
mas serão livres pra servir?”

“Pois afirmo sem enganos
Pra conhecer a liberdade
Só resgatando a idade
da soma de todos os anos.”

“Está no supremo penhor,
de Deus quando tudo criou,
que por nós de ser livre deixou,
E Se fez Prisioneiro do Amor”

Então a mim me perguntou,
firme mas com meiguice,
e antes que perplexo eu partisse,
bateu asas e voou:

“Livre, pois, porque te chamas?
Acaso em alvas nuvens fluís?
Por ventura sempre ris?
Acaso amas?”
 
Acaso amas?