Poemas : 

Canção do Extermínio

 
Minha terra tem mangueiras
donde canta o bem-te-vi.
O pardal que aqui gorjeia
veio de longe daqui.

Minha terra brasileira
tem romãs, maçãs, caquis;
mas até a laranjeira
veio de longe daqui.

Até mesmo os coqueirais
pelas praias impolutas,
que, com juçara disputa,
vieram de outros quintais.

Quem carrega tantas mágoas?
É nativo ou do porvir,
vindo lá daquelas águas?
Creio que não são daqui.

O que trazem em suas malas?
Negros homens a luzir,
junto aos outros, de outras castas,
naves que surgem dali.

Eu me assombro até os cabelos,
se arrepia tudo em mim;
e o meu corpo – tão vermelho! –
já aguarda o nosso fim.

O que trazem? Deuses negros
ou diabos que não vi?
Serão sonhos, pesadelos
estes seres vindo ali?

Então vejo homens claros,
vestes longas, coloridas,
dando foices e machados
pelas árvores de tinta.

E a terra, muda, assiste
certos nomes que lhes dão;
uma cruz com um homem triste
morto em crucificação.

Não queremos mais espelhos!
Não queremos rum nem gim!
Nós sentimos tantos medos!
Pressentimos nosso... fim!


Gyl Ferrys

 
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Enviado por Tópico
Odairjsilva
Publicado: 06/01/2026 16:02  Atualizado: 06/01/2026 16:02
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 Re: Canção do Extermínio
Maravilha de poema meu nobre amigo. Lembrei das minhas aulas de História onde faço uma crítica a chegada dos europeus. Vou trabalhar o poema com meus alunos esse ano. Forte abraço poético.