Soneto do homem só II
Chegou teu companheiro de viagem
Que sai da casa ainda adormecida
Sem nada de importante na bagagem
E volta cochilando p'la avenida.
Chegou teu companheiro de pilhagem
Que sai de casa feito uma criança
E volta carregando na roupagem
Destroços luminosos da esperança.
Um pouco de teu fôlego e lugar,
Do que sequer consigo imaginar,
Resquícios que me sobram de nós dois:
Calçadas, alamedas e desvios
Que em vão nós percorremos erradios
Sem nada o que deixarmos pra depois.
Anda
Na exaustão calo o meu cansaço
Penduro os sapatos na berma da noite
Num sorriso digo adeus à minha sombra,
deito-me na insónia que embalo
Com cantigas de silêncio.
Já não sei onde começo e me acabo
Se o tempo já não tem tempo para mim
Faço cálculos inócuos
E só me resta números primos
E dízimas infinitas periódicas de solidão
Talvez as raízes que não plantei
Abracem a incógnita deste ser que sou
E tragam euforia ao relógio
Que trago parado no meu peito.
Anda, sabes se a minha sombra já acordou?
Conceição Bernardino
In - memórias
Está na hora
O mundo é mais belo pela madrugada
Quando os pássaros já voam e o Homem ainda sonha
Quando o Sol arrependido devolve ao mundo a sua cor
Mas é breve o instante
Ao longe o caos vai trepidando
Seus passos, lentos, se apressando
Sem pressas, louco, atropelando
Com tempo, pouco, reclamando
Às portas da demora:
Está na hora...
Está na hora...
Está na...
E eu vou, já vou, só mais um pouco
O teu cheiro travestido é travesseiro
Onde encosto o meu rosto entorpecido
Onde me entrego à lembrança por inteiro
E pelos campos da lembrança vou perdido
E perdido te acho
Toco-te ao de leve a face
Fito os lábios vincados num sorriso
E me curvo em ti
Não me soltes deste abraço
Não me deixes só
Não me deixes nesta hora
Pois eu sei que está na hora
E tu bem sabes, está na hora
Que é só esta, está na hora
A nossa hora, está na hora
Agora, está na hora
Agora, está na hora
Agora, está na hora
Ago...
adormeço nos tentáculos de m’alma
à beira da praia
sinto o pensamento dos rochedos
e em meus lábios arde a flor de sal
recém-chegada da noite
escorre pela garganta seca de silêncio
a inundar o meu corpo de areia
tentando cobrir esta solidão
da sua incapacidade de expressão
e nas ondas surge um vazio
de uma concha fóssil secular
a rasar a vastidão do mar
onde ferve um tempo reprimido
entrego-me ao fundo do oceano
para encontrar outra luz outra vida
suspensa na densidade das águas
aconchego-me nos limos e nas algas
e preso na rede dos meus sonhos
adormeço nos tentáculos de m’alma
Caminhos do incerto/Dueto Rosafogo e Ana Coelho
CAMINHOS DO INCERTO
Hoje a solidão veio p'ra ficar
Esqueço tudo, nada quero saber nem ouvir
Solto-me como pássaro no meio da moita
E aguardo a tempestade prestes a surgir.
Abre as mãos eleva-as ao mais alto de ti
E a voz do silêncio cantará
Um hino de louvor à alma em clamor
A solidão cairá na intempérie de um sorriso.
Meu coração ainda se afoita!
Bailam lembranças na minha mente
Quando procuro o repouso
E surgem na minha frente
Como um Sonho prazeiroso.
Na utopia dos sentimentos
Renasce a vida em forma de herança
Nos beirais da angústia ganha forma
Um sorriso de criança que o nosso olhar alcança.
Nas lembranças me envolvo perdidamente
Elas são tudo o que é meu!
Saudade é passado e presente
E o futuro que a memória
Abriga em caminhos do incerto destino
Na estigma de ontem hoje e sempre.
Rosafogo e Ana Coelho
Neste poema o talento da ANA e o Sonho da Rosafogo
Este Sonho de poder sentir-me com emoção fazendo
um dueto com uma grande poetiza.
Para ela a minha estima e admiração e também o meu muito obrigado.
Os vazios que enchem a virgindade dos lugares
A solidão se sente em casa,
no triste peito
na felicidade de um coração cheio
no aperto
mais incomum
de um abraço…
É como o negro puro
que sustenta as estrelas no espaço
desmentido céu azul que Deus vê,
depois de acender
o lume do sol
em cada raio …
o esquecimento abre passagem
Corre o dia,
e uma luz coada entra pelas cortinas
antigas, a solidão me faz
companhia,
adensa a noite
e desarruma a minha mente
e assim a flor desfolha até às
pétalas finais, como o sol
que se apagou, derramando
um vazio que a destrói.
Transporto sonhos ante um inverno
que me espera, a solidão dói,
o esquecimento abre passagem
e cada lembrança é já indelével
imagem,
como casa desabitada, mofenta
arrasada, onde já ninguém responde
minha alma, anda não sei por onde!
Minha vontade, ainda
inventa versos como comida suculenta
que me faz bater o peito, e a saudade
traz-me de volta a menina
dizendo-me que sou a mesma d'outro tempo.
o tempo que vai e nada o pode deter
fica a palavra feita nada,
a vida voando para o poente
como a água, que não volta à nascente
natalia nuno
rosafogo
o silêncio, traz-me quase tudo
hoje observei o pôr o sol
e pensei!
- que talvez o mundo já se aquietasse,
na ramagem o vento parou,
o céu estrelou,
e a injustiça dum Deus sempre mudo
em Deus de luz despertou?!
um sonho que ouso sonhar
talvez a solidão no meu peito
a enraizar não possa voltar
vi o dia ir embora
e tudo mudou nessa hora!
na mente o recordar do outono
e agora que me chegou o inverno,
sentimentos em mim ao abandono
a minha crença quase perdida
a vida endurecida,
recolho vestígios de fé
sigo envolta em flores da melancolia
carente de acreditar
em mais um dia
que traga com ele a paz.
passa o tempo, cresce a saudade
pingam gotas do meu olhar
e é na noite que mais dói
no meio da escuridão
o sonho se foi!
já definha a minha fala
só ouço a coruja piando
perto da janela,
será a morte que virá velá-la?
à luz faiscante duma vela?
tragam Poesia,
e de Mozart uma sinfonia
na minha derradeira opacidade
levarei delas saudade.
natalia nuno
Jardim Secreto
Jardim Secreto
by Betha Mendonça
Fico sentada aqui na varanda
Olhos de ver a grama crescer
Parada diante da vida que anda
Lágrimas regam o entardecer
A noite chega nublada e branda
Ventos e chuvas de bem-querer
À terra que mui molhada manda
Ao Jardim Secreto florescer
As folhas e galhos em demanda
Pedem às flores tudo esquecer
E unidas se abracem em guirlanda
Para perfumar o anoitecer
*Imagem Google
Uma lágrima cai...
Uma lágrima cai…
Na noite silenciosa
Criada pela dor
Dessa força poderosa
Que lhe dão o nome de amor.
Uma lágrima cai…
Na fria escuridão,
Longe do teu olhar
Ela cai na solidão
Sem ninguém para a secar.
Uma lágrima cai…
Em pleno sofrimento,
Com a tua partida
Só ficou o lamento
E uma profunda ferida…
José Coimbra