Poemas, frases e mensagens de AnaMariaOliveira

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de AnaMariaOliveira

A verdade do caos

 
A verdade do caos
 
Demando a chama nas trevas
Ergo a cada queda entre o tumulto do egoísmo
Vivo no meio do caos mundano
Qual onda de espuma volúvel que na praia rebenta
Trepo ao convés de um navio que naufraga
No centro de tenebrosa tormenta

Suporto a balbúrdia de perfil erguido
Mantenho a lucidez na confusão
Navego na quietude mesmo em mar de inferno
Sulco águas poluídas com alma de mansidão
Permaneço em refúgio de silêncio rodeado de tumulto
Mesmo em torrentes exaltadas de agitação

Moro em casebre de inteligência
Numa agremiação feita imbecilidade e capricho
Gemo sob a opressão de um fardo pesado
Progrido numa transfiguração de posturas
Assimilo o evoluir consciencializando o fado
Aprendo com a desvirtude, qual visão
Transporto aos ombros as penas do presente e do passado
Sem condições de libertação dos tentáculos do pânico
Como se o futuro fosse inexistente
Construído apenas paradoxalmente num vazio vulcânico!
 
A verdade do caos

Ausência de mim

 
Morro aos poucos numa insatisfação crescente
Abotoo-me a loucuras que se desprendem
Em orbes de irracionalidade pura
Apenas quero viver... respirar
A máscara do sofrimento corrói-me o entusiasmo
Mesmo quando invento esperança
Em expectativas que se perdem no tempo
E então ressuscito com outra máscara,
Como se pedisse à existência
Uma outra oportunidade de ser feliz
Como se deixasse para trás o que fui
E outro ser renascesse de uma época sem sentido!
Numa permanente ausência de mim...

Esvoaço nos planaltos do desalento
Na desilusão pelo cinismo das pessoas
Voo na incompreensão de orgulhos sem nexo feitos
E pouso numa árvore morta
De tanto lutar contra os castradores preconceitos
Numa permanente ausência de mim...

De asas pequenas e frágeis
Refugio-me no desfiladeiro mais alto
Que der para o mar azul magnânimo
Talvez se daí desfrutar um pôr-do-sol alaranjado
Levante ala com outro ânimo
Numa permanente ausência de mim...

De que fibra é a nossa alma feita?
Que amarguras passámos
Que testes horrendos enfrentámos
Que milagre mantém a sensibilidade
Que vibração nos une!
Descanso serena…aquieto-me!
Então num artifício de pura magia
Através de ti
Retorno a mim!
 
Ausência de mim

Casulo de solidão

 
Quero desfazer-me das vestes do tempo
Quero ultrapassar desaires
Que me envolvem e me prendem em casulos vazios
Sobrevoando planícies e lagos, castelos e fortalezas
Montanhas agrestes e rios

Quero inverter os ponteiros do relógio
Até ao instante em que me tocas, em que te toco
Até à noite em que me abraças e eu te abraço
Em que os nossos pés se movem sobre a areia da praia
E me acolhes em ternura sobre o teu regaço

Recuar no tempo até ao dia em que me olhas de desejo
E eu te invado perdidamente e louca
Então planaria nos tentáculos da história que se faz vida
Seguiria a águia poderosa até ao castelo mais alto
Cicatrizava instintos e presas caçaria
Acompanhava-a em movimentos de sobrevivência
Defenderia com garras o meu território em ousadia

Mas triste realidade!
Fui eleita para amar e não ser amada
Fui feita para compreender e não ser compreendida
Nasci para beijar e não ser beijada
A minha sina faz parte do livro do esquecimento
Parece que nasci simplesmente para sofrer calada!
 
Casulo de solidão

Plenitude

 
Plenitude
 
Procuro-te nos passos que dou pela praia imensa
Para lá das ondas que me agitam a alma
Nas lágrimas teimosas que do meu fogo caem
Na tarde serena de chuva calma
Procuro-te no misterioso nevoeiro cerrado
Na espuma branca da água salgada
Na agitação das vagas que me alagam os pés
Na torrente de desejo desenfreada
Procuro-te por entre os meus dedos
Na fortaleza singela do meu abraço em segredo
Em cada interstício do meu corpo
No tormento atroz do meu inevitável degredo
Procuro-te insaciável nas estrelas
Na lua hipnótica que me fascina desgovernada
Na tempestade que inunda os caminhos
No palco de vida frenética inventada
Procuro-te em aconchego no meu seio
E morrerei com um grito sufocado na boca cerrada
Estigmatizada pela escrita transfigurada vicissitude
Procuro-te mas não te encontro!
Num campo verde confiança em quietude
Num céu de nuvens brancas de pureza
Minha irmã apartada beatitude
Procuro-te mas não te sinto!
Amiga companheira e glacial plenitude!
 
Plenitude

Provação

 
Provação
 
Que embaraço é este que me fere o corpo
Que desgraça estava traçada antes do meu nascimento
Infortúnio à espreita por entre nuvens negras
Onde a adversidade é gémea do meu tormento

Que desventura perpassa no meu coração
Que desdita me abafa a voz
Contratempo de um Tempo maior
Um tempo que estagna abandonando-me a sós

Que revés me amarra os membros em prisão sombria
Que vicissitude oprime o peito sem respirar
Malogro de um voo que não se projectou
Poço de frustração em que se perdeu o acto de amar

Desapontamento do espírito que vagueia perdido
Melodia do desengano num ser em surdez
Desilusão num passo de dança sem companheiro
Qual aborto expressão dolorosa da pequenez

Que cilada é esta feita de espinhos
Quem foi que me esqueceu nos confins deste universo gélido?
Tombo e ergo-me infinitamente
Mas a pujança esfuma-se neste mundo pérfido!
 
Provação

Anjo

 
Anjo
 
Pressinto um anjo que me acompanha
Nas minhas loucuras e delírios
Que me pergunta a todo o instante se estou bem
E uma energia positiva invade-me a alma e o corpo
Prosseguindo feliz a minha viagem como se isso me preenchesse!
Olho pelo espelho retrovisor e na retaguarda tudo calmo
Desfrutando a jornada como se te sentasses a meu lado
Colocasses a tua mão sobre os meus joelhos
E de novo sentisse a quentura das tuas mãos

Sorrio…
Ainda sorrio porque te sinto em mim.
E este retrocesso no tempo me basta!
Estás presente em ternuras de amante!
Afago-te a cabeça, os cabelos
Num querer íntimo fecho os olhos eternizando o instante
Consigo trazer-te de volta
Tocar-te!
E então num gesto de mágica sinto-te, cheiro-te, olho-te!
Amo-te num mundo de doçura
Mas és um anjo que não quer ser amado
Caído em amargura!

Amor é deixar ser em liberdade um coração
Porque ao contrário da postura do comum dos mortais
Amor é deixar partir por deliberação
Amor é ave que pelo céu infinito bate as asas crente
Amor é no espírito permanecer eternamente
É permutar em deslumbramento que voa
Num êxtase sublime a minha vida pela tua!
 
Anjo

Humilhação

 
Humilhação
 
Há momentos em que o cerrar de olhos
É o sentir de uma dor no coração desfigurando o rosto
Um aperto cruel na ausência de calor humano
O cansaço que anuncia a navalha afiada do desgosto
Um gesto obrigatório de altear a fronte
Explodindo no refalsamento um renascer intemporal
Hierarquia de valores num recobro de teimosia
Paradigma dum ressurgir vulcânico consumado dignidade
Porque o combate também é pelejado por quem silencia!

Algemas pesadas num estatelar moroso e aflito
Padrão de sorrisos em lágrimas que deslizam sob a pele
Qual rio subterrâneo que molda o ventre da Terra
Estigma de sulcos agonizantes na garganta do tempo
Onde a voz límpida dá lugar à rouquidão
Por ausências que ferem o alento
Por estrias gravadas com sabor a sofrimento!

Porque há sentires que se guardam unicamente na alma
E não têm objectiva e concreta tradução
Em nenhuma linguagem e código humano
Por aviltamento e censura à comunicação
Mas por milagre e imperiosa vontade
Eis que a tenebrosa humilhação
Solta um bramido desesperado de agonia
Transfigurado em louvor de redenção
E mesmo na batalha perdida há um clamor de alívio
Como se dos grilhões que nos amarram
Renascêssemos feridos mas em estado de libertação!
 
Humilhação

Desventura

 
Perdi a conta às vezes que escorreguei
Já não sei também em vórtices de tempo
Quantas vezes desenraizada me levantei
É um ritual mecânico
Como um robot que se auto constrói
A cada batalha sangrenta
Faltam peças aqui e ali e dói
Mas rapidamente se consertam
Como se houvesse realmente
Um deus das máquinas e laboratórios
Restauram-se os corpos, os metais os fios de ligação
Aperfeiçoam-se programas e softwares
Mas haverá conserto para uma alma humana em agonia?
Haverá algum meio de ligação à alma mãe
Que nos pode dar a paz e a harmonia
Para que tudo funcione em pleno?
Um assimilar constante e tresloucado
Reflexos feitos de intuições
Uma vigia constante
É urgente que se suspendam os vendavais
Que deixem de se ouvir o ribombar dos canhões
Que as mães embarguem as lágrimas vertidas
Em dias sombrios de abandono
É premente o homem não ir em enganos
Cego de ilusão, perdido em sonhos
De gentes parasitas e pensamentos insanos!
 
Desventura

Queda inevitável

 
Queda inevitável
 
Balanço-me numa corda segura
Entre as duas margens abruptas
De um rio calmo serpenteando em bonança
De águas profundas e negras
Cunhando imperiosamente a sua presença
Em serras agrestes e majestosas

Encontro o equilíbrio momentâneo
Entre vertigens que atemorizam o meu ser
Mas a deliberação de planar permanece
Num jogo de vida sob o abismo intempestivo

Num deslize partes de mim se esfumarão
Em fracções de tempo
Se as forças me faltarem
Se as estratégias falharem
Se os meus olhos cegarem

E o tumulto das emoções
Anulará a temperança
E a razão perder-se-á na proporção
Infinita dissimulação nascida pseudo filosofia
Revogará a sensata moderação
E da mente se ausentará a harmonia
Pois a existência, como um karma
Só para alguns se torna horrenda
Porque morrer é a parte mais simples
Há quem esgotado pela amargura defenda!
 
Queda inevitável

O clamor do vento

 
Escutem o vento!
O bater de portas e janelas
Os sibilos da revolta
De quem quer sair da masmorra de mutismo
Sintam-no passar ao lado
Provocar um arrepio de frio
Estilhaçar vidros e janelas
Lançar cabelos ao vento
Derrubar árvores
Qual sopro gelado que nos rodeia e agoniza

Quero abraçar o vento!
Segui-lo até à Serra mais inóspita
Flutuar com ele e transformar-me
Em vórtices de invisibilidade.
Porque o mundo já nada me diz
Porque destruí as pontes em endiabrados
Momentos de tormento

Quero amar o vento!
Porque os silêncios são feitos de lutas
Travadas em campos sombrios,
Em que conscientemente me arrogo
Beligerante num eterno insulamento
Bem gostava de ser a pomba branca anunciadora da paz,
Mas sou apenas a ave ferida em delírio
Que teimosamente sobrevoa pela última vez,
Quem sabe, o seu último retiro!
 
O clamor do vento

Morfeu

 
Morfeu
 
Que forma tens tu divindade do submundo
Galhofas com ilusões entre os pesadelos medonhos
Metamorfoseias-te descaradamente neste e naquele
Enganas-me e aos incautos ávidos de sonhos

Filho da loucura e do sono és tu e sou eu
Omnipotente da utopia camaleonismo de falso amante
Aptidão de plagiar qualquer molde sensível
A súplica, o estilo de porte, o semblante!

Imitas exactamente a indúvia e as palavras
És actor poderoso fazedor de mundos de glória
Envias simulacros de homens em devaneios
Dominas o reino da fantasia trazido na memória.

Rei separado dos súbditos habitando nuvens de incenso
Sabedor do pretérito, da actualidade e do prometido
Vens pela noite provocando a mente humana
Senhor e navegador do universo perdido

Inteligência superior pai de um puzzle maior
Sábio enganador de convicções e esperanças
Intelecto que manobra e ordena a matéria
Confundindo no juízo animal ténues lembranças

Não me enganas Morfeu sombra perfídia
Pois se tu és o sono sonhado infiel
Eu sou a insurreição inconformada
Da vigília em dor permanente com sabor a fel!
 
Morfeu

Vulcão de fantasias

 
Invades-me descaradamente a mente
Provocas-me o corpo e os sentidos
Rodeias-me em jogos de perversidade
Tu vibras!
Eu vibro!
Estremecemos os dois em diálogos impúdicos
Assaltas-me as entranhas em colóquios afrodisíacos
Magnetizas o quarto em palestras voluptuosas
Electrizas as quatro paredes em irrupções de prosas lascivas
Fazes-me trancar janelas e portas
Porque um vulcão está prestes
A expelir lava incandescente
Que me incendeia o corpo
Que ateia o teu e o meu desassossego libidinoso
E nesta onda de vibrações desordenadas
O rádio que teima em ligar
Sem que ninguém o sintonize
Como se a força da Terra viva
Nos trespassasse os corações latejantes
E captasse as ondas energéticas do sol que beija o mar!
E o cosmos faz renascer o amor guardado
No abismo de um oceano extraviado
A luz que vence na escuridão gelada das profundezas
Como se incorporássemos harmonia universal
Numa presença para além do espaço e do tempo
Somos nós!
Sem lugar preciso, flutuando num raio dourado
Como a veemência de amor que flúi entre mãe e filho
Descendentes do deus cronos em fogo áureo
Como se um sublime pôr-do-sol nos inundasse com seu brilho!
 
Vulcão de fantasias

Escrito na alma

 
Escrito na alma
 
Leio-te as palavras
Absorvo as frases que constróis
Justificando o teu silêncio perante o que sou
A tua ausência, nos caminhos por onde vou
E não entendo a razão por que me dou
Abrindo a minha alma ao sonho
Quando sei que haverá sempre um tempo de partida
Um caminho de não retorno

Construímos tão pouco
Fizemos histórias erigidas em nuvens
Que se esfumam sem piedade
Abandonamos perdido na areia da praia um beijo
Feito de ternuras, de entregas
No selar dos lábios voámos para outra dimensão
E contigo no centro, desenhei na areia
Em euforia um coração

Ingenuidade a minha
Pensar que esta nossa amizade
Duraria para sempre
Esqueci que a vida é cruel
O deserto invade-nos sem um afago
Olvidei que por vezes se mente
E ficamos nas entranhas com sabor amargo

Inocência patética
Acreditar no abrir dos braços à verdade
Desnudar-me perante o teu olhar
Perder-me em meiguices
Emudecer desejos em gestos de criança
E afundar-me finalmente nos teus olhos cúmplices

Estava escrito nas nossas almas
Que nos inventaríamos só por lacónicos momentos
Em rituais intensos e loucos
Reunindo duas vontades numa só
Duas jornadas e um único ponto de encontro
Dois corpos e um singular querer

E agora que faço com este nó na garganta
Este pesar indeclinável
Ao contemplar-te o afastamento cada vez mais
Deixando-te de ver afável
Para sempre errante na distância!
Deus!
Que contenda é esta
E onde se escondeu a coragem?
Estou prostrada num campo de batalha!
Mas…que paz…
É hora de seguir uma nova viagem!
 
Escrito na alma

Para lá da pele

 
 
Atravesso a fronteira da minha pele
E oriento-me mesmo no abismo
Púrpura profundo das veias em pulsar
Rios de ondulações do ser que respira
Que faz um pacto colorido com as árvores

Permeabilizo-me envolvo-me entre átomos
Abarco o tronco onde a seiva contraria
A gravidade do corpo celeste anil ebúrneo
E num ápice sou folha verde acenando ao vento
Sou o sopro que sustém a planta
O líquido nutriente de que se alimenta
O motor que vibra em sonoridade viva
Como tambores que ecoam na selva da abundância

Ultrapasso a película da minha cútis
Plano por entre alvéolos pulmonares
Que me anunciam a poluição das criaturas
Os vícios as insanidades as loucuras
E de um ato de contrariedade alcanço
Outro ribombar outro espaço
Onde não há crivos nem dentes
Nem cruzes nem espinhos nem garras
Nem malévolas sementes
Nem sangue nem feridas nem balas
Nem matanças nem favos de decadência
Nem ovos de podridão nem crença
Nem mutilações nem doença
Para lá da minha pele
Esvaio-me em partículas de nada
Não quero saber de orientações
Permaneço incólume onde ficar
É provavelmente aí a minha essência
O meu genuíno lugar

Vídeo de José Lorvão
Poema de Maria Oliveira
 
Para lá da pele

Flutuar

 
Flutuar
 
Caminho!
E no entanto sinto-me flutuar
Que bom seria se em lugar de tocarmos no chão
Tivéssemos o poder de voar
De anular a força da gravidade
E abrindo os braços ao mundo pudéssemos planar!
Deixar-me hipnotizar e num truque mágico
Entrar num estado de lucubração e num alor pairar
Qual condor pelos planaltos imponentes
Esvoaçando sobre a densa floresta e os rios
Sobrevoando espelhos de água que alimentam os seres viventes

Caminho!
Mas quem me dera que os meus pés
Se ausentassem deste chão poluído
De desenganos, louçainha, ornamentos e ambições
Pudesse construir nas nuvens uma praça-forte de ternuras e abraços
Delineada por amplexos transformados em fortificações

Então o caminho da existência seria um jardim
Assim a vigília valeria a pena
Porque a doçura seria a soberana em redor de mim
E o bem-querer o rei
Que salutar seria a minha sorte
Mas não! A opressão acorrenta-me o corpo à terra
E assim estarei nesta inquietação até que me visite a morte!
 
Flutuar

Águas negras

 
Meus pés descalços
Percorrem a praia deserta
A areia gelada
Traz-me ao pensamento
A mulher que fui
A pessoa que sou
E as águas negras do oceano
Criam em mim vislumbres
Construídos de vultos, feitos dor
Em poços profundos de desgostos!
Num céu nocturno encoberto

Dispo-me na transição para outro dia!
Como se meu corpo
Pela meia-noite calma
Necessitasse de renovação
Que me fizesse renascer a alma!
Insurjo-me contra
Prisões de amarras emocionais galopantes
De programações do cérebro deprimentes
Costumes de chantagens asfixiantes!

Insurjo-me contra
Multidões de juízes álgidos e obcecados
Num óbice à tristeza veloz
De gestos incontidos acabrunhados!
Entro pelo mar adentro e faço ouvir minha voz

Num abraço reúno-me ao globo de vida que lateja
No abismo metamorfoseado escuridão
A fragrância das algas
O cântico das vagas
São irmãs de infortúnio
Para sempre aliadas de coração!
 
Águas negras

Ansiedade

 
Ansiedade
 
Ambiciono viandar para longe deste filme animado
Encarcero-me em manigâncias de efeitos especiais
Que me assaltam como espectadora amante
Em que as três dimensões não passam de fantasias
Arrastando-me para dentro de um ecrã gigante

Quero planar noutro tempo, noutro lugar
Para que não sinta em desconcerto
Este aperto de dor no meu peito neste mundo demente
O peso bárbaro e acutilante nas minhas costas
Uma asfixia que me trucida lentamente

Num retiro secreto e sereno de silêncios incontornáveis
A lógica anuncia-me que é em tempos de crise
Que se testam as pontes do querer
E elas tombam em confronto com fragilidades
Pois só na aparência transmitem solidez
São como as peças de dominó
Que encostadas umas às outras caem ao mínimo toque
Arrastando tudo com elas e nada restará
O senso comum é dono de uma verdade
Há que saber desfrutar o sol que faz hoje
Pois certo é que amanhã o temporal voltará!
 
Ansiedade

Alienação

 
Piso o chão sem o sentir em clamor de sobrevivência
Inspiro oxigénio sufocando por dentro sem respirar
Dou-me em orbes de calor e desejo
Em orgias sonhadas de Baco sem amar!

Mas um dia irei pintar contigo
Uma tela gigante que nos servirá de tálamo
As nossas mãos deslizarão num leito forjado
Sobre tintas policromáticas
E criaremos nela um mundo inventado!

Clamo por caminhos inabitados
Brado cansada de me dar em desamor
Sem almas humanas a quem abraçar
Contraio-me em gritos abafados de dor!

Mas um dia virás tomar um banho de mar nocturno
Sob o céu estrelado de desejos feito
Despidos de vestes e de amarguras
Recostarás então o teu semblante insurrecto no meu peito!

No entanto desconsolada constatação!
Não passo de ave tonta que vagueia em palcos de improviso
Programada para o contentamento
E sem total consciência da sua cruz feita juízo
Prisioneira em labirintos de devaneios perdidos
Necessito urgentemente
Do bálsamo de um cosmo de intelectos
No meio do caos deplorável dos sentidos!

http://paula-esperar.blogspot.com/
 
Alienação

Bússula esquecida

 
Sinto-me a perder o norte
Afundo-me em poços de apatia
Já há muito que fugiu de mim a sorte
Desesperada já não sei o que é alegria

Flutuo em montanhas de solidão
E em planícies desertas desfaleço
Prisioneira das memórias, respiro melancolia
E cada vez mais sou menos forte
Será que o meu fado é esperar
Aguardar unicamente a morte?

Percorro caminhos de instintos sem mapa ou orientação
Contemplo espelhos de água absorta e perdida
Temo fechar o meu coração
E deste modo abalroar a vida

A bússola que sempre me orientou ficou esquecida
Enterrada em florestas sombrias onde o tempo parou
Deambulo pela existência sem sentido
Respiro, vivo, mas há momentos
Em que já não sei quem fui e quem sou!
 
Bússula esquecida

Veias de sangue e tinta

 
Deambulo por noites de rituais

Construídos no véu da ilusão

Danças nuas de vestes no embalar

Em doce afagar feito perdão

Ao sabor da brisa do mar

Almas endiabradas em agitação!

Com os recontros da existência absurda

Abalroamentos de paradoxos

Máscara de rotina cega e autómata dos dias

Experimentam-se as mãos e soltam-se abraços!

Cruzam-se olhares, recolhem-se aforismos

Em redutos de telepatias consumadas

Pés descalços saltam em liturgias

De hilariantes sorrisos báquicos

Em busca incessante do humano

Contempla-se o sol que vai repousar

E estende-se o braço à lua mãe

Que nos embala o extasiado olhar

Convertido liberdade encantada

Agitando os reflexos prateados do oceano

E as crianças que constroem sereias na areia molhada

E perco-me em rios de espuma

Nas margens do meu corpo

Membros se fazem pincel

Mergulho nas águas suaves

E deixo-me cativar pelas ondas brancas de pureza

Catarses transmutadas em depuração do pretérito

Quero que as montanhas de tinta

Que despejo para a tela se materializem

E me assediem num amplexo

Quero que luas imaginárias

E deusas das profundezas e do luar me visitem

Me embalem e me hipnotizem

Não me asfixiem em técnicas canónicas!

Quero rasgar tecidos

Quero esventrar a terra com as mãos

Quero criar fios de cores em gritos

Executar tranças de árvores

Que me controlam os equívocos!
 
Veias de sangue e tinta