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Ser.tão faminto

 

Eram dois olhos opacos gigantes na face magra.
Quatro galhos secos imitavam pernas e braços.
Pequeno ser cortando vento; como vulto bambo, trôpego nos passos.

- Mãe, o que tem ele? Por que só geme e não responde? Por que sua pele não tem viço...Por que anda com esse passo?

- É porque dentro dele, filho,
a fome encontrou espaço.






 
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MyrellaCasav
 
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 18/05/2018 08:14  Atualizado: 30/05/2018 12:36
Usuário desde: 06/11/2007
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 Re: Ser.tão faminto
Há quatro personagens no conto.
A que mais me impressiona é a fome.
As primeiras duas frases fazem lembrar o descrição que Ovídio faz da mesma. Devastador. No mesmo livro, Erisiction é possuido pela fome. Ela entra nele na forma de um beijo e nunca mais o larga até que este acaba por comer-se. Autofagia acho ser o nome.
A personificação da fome que fazes no fim é o elemento forte do conto.

A inocência do filho, a sapiência da Mãe dá-lhe um colorido acrescido.

O Vulto.
Não consigo descortinar bem quem seja. Sei que é um ser.tão conhecido da família quanto possível.
Mas o espectro da greve de fome também é possível.
Lembrou-me um pouco o filme "hunger" realizado por Steve McQueen em 2008. Muito mau de bom.

Bj


Enviado por Tópico
rosafogo
Publicado: 23/07/2025 17:28  Atualizado: 23/07/2025 17:28
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 Re: Ser.tão faminto
Poema bem actual no mundo d'hoje, onde tantas crianças morrem de fome, sempre houve miséria semelhante, mas as guerras vieram aumentar esta desgraça.

Apesar da nossa revolta, os donos do mundo continuam a ceifar vidas e a dormir tranquilamente.

Profundo e belo!

Bj.

Enviado por Tópico
rosafogo
Publicado: 23/07/2025 17:29  Atualizado: 23/07/2025 17:29
Usuário desde: 28/07/2009
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 Re: Ser.tão faminto
Poema bem actual no mundo d'hoje, onde tantas crianças morrem de fome, sempre houve miséria semelhante, mas as guerras vieram aumentar esta desgraça.

Apesar da nossa revolta, os donos do mundo continuam a ceifar vidas e a dormir tranquilamente.

Profundo e belo!

Bj.

Enviado por Tópico
Katz
Publicado: 23/07/2025 17:53  Atualizado: 23/07/2025 17:53
Membro de honra
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 Re: Ser.tão faminto para MyrellaCasav
Myrella,
Esse poema é um soco silencioso. Forte, cru, delicado na forma e brutal no sentido

Seu poema é dolorido e necessário. Ele diz tanto com tão pouco. A imagem do corpo como galhos secos é impossível de esquecer. E o final… é como um sussurro que cala a gente por dentro. Obrigado por dar voz ao que muita gente finge não ver.


Mil beijos

Katz