Enquanto os patos seguem pelo rio
Não me apoquentam
As essências livres e sujas que fazem plágio,
Nem as serpentes vivas
Sem garrote.
Apoquenta-me,
Isso sim!
Neste fim do mundo
Para onde partirá
Tanta gente assim,
Enfim.
Hermesetas
Das conversas prolongadas
Chegam as conclusões,
De nada vivo ilusões.
O relógio na parede
Reflete o tempo lá fora,
Quando passa não diz nada
Rasgo da alma
Que chora.
Uma velhinha sentada
Ali contando as suas histórias
Fala muito mais das dos outros
Que das suas perdeu as memórias.
Uma caneta apontada
Para a caixa de medicamento,
Hermesetas e tantas tretas.
Hermenêutica
Para o ceguinho que se perdeu
Num concurso de performance
De ciúmes, de queixumes, de juízos
e de vergonhas.
Padres nossos
Dos enterros
Dos pecados e das glórias.
Coisas minhas
Esqueço-me tanta vez de mim
Talvez já nem me queira recordar,
Do sangue que tinha nas mãos
Dos lábios que deixei
Das noites que não passei,
Talvez, nunca me vá perdoar.
Venho aqui dar-te razão,
Sempre a quiseste tomar.
Apenas há um senão
Nesta noite onde ainda mora a recordação
Que me embalou ao luar.
Quem eras tu,...
Que perguntavas por mim,
O que aconteceu ao olhar...
Que não quis o arraial
Nem os pratos para lavar?
Quem eras tu,...
Naquela altura
Que de ti pouco me quiseste contar.
Quem éramos nós sem falar!
Como vais?
Hieróglifos
Aquele meu medo de gatos enrolados ao pescoço, enquanto tu ias atrás de gatas.
Pobres animais,
A água sempre foi a sua sentença,
Todos os gatos são pardos.
Predadores
Hórus do horizonte em nossos olhos
Egípcios.
Como as cobras que se enrolavam
Pela cama. .
Nos hieróglifos que nos ficaram tatuados,
Hoje já escritos em livros de luz
Esqueci
Pedido de desculpas
Que nome é este tão estranho em mim
Se ainda me recordo,...
Do bom,…
e do mau,…
Quando me esqueço,
Ainda me atemorizo
E volto a recordar,...
Mas, a essa fragilidade
Não me quero agarrar,
Porque se bem me recordo
Há coisas que não entendo
Embora não vá nelas repisar
Por isso;
Deixo aqui um pedido de desculpas
Autografado pelas insónias
Que me fizeram passar
Selado com um beijo
Num envelope de desejo
Carimbado de perdão
Por neste sobrado andar,
Se um pombo o quiser levar
Pelo céu a voar.
Esqueci
Poema antigo
Faz de mim os farrapos da tua história
Os quiosques, as verrugas,
Inventa-me como quiseres
Impele-me para fora da tua boca
em desejo,...
Escreve-me como delito
Afoga-te de mim num grito.
Despede-te
e volta,...
Com a revolta.
Manda-me embora
de raiva
Não me respondas,
Fala sozinho
e grava
Depois, empurra-me a ir para não ir,...
Afoga o teu choro senil
Entre o ficar e o partir
O amar e o ferir
E paga a tua conta.
Farta
Esqueci
Arrumo a casa como gostas
Enquanto tu maquilhas o poema
Eu arrumo a casa como gostas,
Fujo às obrigações mais chatas.
Já ninguém reclama!
Aqui instalou-se a monotonia há muito
E nada é como se possa imaginar .
Embora a perseguição em algumas coisas seja obsessiva…
O inconformismo obedece em cada canto a outras dores…
Respondo à tua ironia
Abstraída de tudo
E vou ficando…
Na utopia da escrita
Que não lês
E onde ainda te encontro.
Pedra de luz
O que é uma pedra
Com uma mão
E uma fisgada?
O que é uma pedra
Ali ao fundo
Parada?
Uma pedra, pode ser uma palavra,
Ora escrita, ora falada.
Uma pedra lapidada,
Diamante,
Ou pedra de água.
Com o toque torneada
Coberta de terra disfarçada…
Pedra de luz
E Fogo
Se friccionada.
Nos meus cadernos
Nos meus cadernos
O meu maior poema era o teu nome,
Grafitei-o como as luas em tamanhos,
Com a bic fiz castelos e dragões, estrelas e flores
e tantas coisas,...
Nos intervalos, por entre o giz e o apagador
e as gargalhadas,
de uma laracha que alguém me dava com humor,
Cresciam as paredes
Lá me sentia um gnomo cheio de calor.
Desenhei o teu rosto e fui gozada,
Escrevi nele as minhas frases meio maradas
Colei-o ao lado da minha cama sem corretor,...
Sonhei-te meio doida e meio calada
Assustava quem me queria com desamor.
Quando te via lá ficava atrapalhada
Fugia, e até escondia os meus calores
Do resto tu já sabes, falam as escadas,
Os brincos que perdi
Os medos ofegantes e os glamoures
As músicas
As danças
As pastilhas e os cigarros
Os ciúmes, os beijos dados,
Nas ruas estreitas, nos cantos mais apertados dos amores.
Numa terra em ebulição
Encontro-me nos escombros das palavras, aqui o silêncio é de horrores,
este mundo cheira a mortes e a dores.
A loucura é o meu porto favorito, o meu barco uma caixa sem ter remos, levando uma mulher que não
chega ao cais,
sufocando hipocondríaca por entre as fissuras das dores carnais, também estas sem
guerras...que supostamente são por
causas naturais.