In Extremis

 
Há inquietantes cheiros no ar, fragrâncias intensas que nem a chuva consegue levar.
Cristalizações de plasma vivaz. Que cheiro adocicado, cadaverina negra flor de lírio.

O perfume desenha a leveza do desespero, que tem o brilho,a dor, o desejo.
Dou comigo às voltas na cama. Caio no mais profundo de mim.

Hoje é dia de exorcismo.
Confesso: “ Tenho uma amante”

Tento resistir, mas não consigo, não adianta, não quero.
Só de olhar para Ela, a sentir, uma dor trespassa alma.
É linda, poderosa, deixa-me completamente indefesa.
Seu encantamento é tão grande que me apetece ser possuída, ali mesmo, a todos os instantes.
Sentir seu frio, sua pele alba, sua língua vagarosa.
Quero-a, Quero-a.

Hoje percebi, que não consigo mais esconder este meu adultério moral,
Podes julgar-me. Estou aqui.

Entendo a natureza humana como incompleta, um puzzle no qual por cada peça colocada, revela duas em falta e quanto mais amo, mais preciso amar, ser amada, tu não?
Ela ama-me. Com toda a força que não tenho, como nunca ninguém me amou.
Está comigo desde o meu primeiro momento de existência mortal, nunca me abandonou.
Conheces alguém que esteja sempre presente onde estiveres? Eu não, mas ela está.
Quero-a só para mim. tenho ciúmes. Sei que ela é me infiel, a todos seduz, a todos quer e, no final ninguém a consegue negar.
Seu nome?
Queres saber o seu nome?
Morte, conhece-la?.
 
In Extremis

As tartarugas também voam

 
Órfão milenar, a profissão a herdara dos pais,

Nela se mantinha, sem orgulho, nem credo,

Apregoando, baixinho, a exígua mercadoria.

E, assim, lá ia vendendo o seu ódio,

Quase a medo…

arfemo

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*Título de um filme escrito e realizado por Bahman Ghobad, ganhou o Prémio da Paz no Festival de Berlim, e o Golfinho de Ouro no Festróia, sobre a realidade das crianças curdas refugiadas durante a guerra, mas que se poderia aplicar, de igual modo, aos palestianos, enfim às crianças “que nunca foram, meninos”, cujo horizonte é a guerra e o ódio que ela gera, ou vice-versa.
 
As tartarugas também voam

Não sou poeta, sou sonhadora

 
Refugio a minha alma
nas palavras caladas
que tenho na mente
como búzios longe do mar
com som encantado,
derramo no branco do papel
entre linhas
sentimentos esculpidos
na ponta do lápis.

Não sou poeta, sou sonhadora
na elocução encontro flores
borboletas repletas de cores,
na ponta dos dedos
construo barcos de papel
contemplo o seu deslizar
rios de tinta, navegam nas veias
aquecem o meu corpo em utopia.
 
Não sou poeta, sou sonhadora

Como é difícil!... Como é fácil!...

 
***

Como é difícil encontrar pessoas gentis
Que libertem flores nascidas no peito!...
Como é fácil descobrir alguém que diz
Palavras que brotam de qualquer jeito!

Como é difícil harmonizar a amizade
Que habita o imaginário do poeta!...
Como é fácil de cair na vulgaridade
E perceber o quanto se pode ser pateta!

Como é difícil desfrutar doce Amor
Que provoque o êxtase dos sentidos!...
Como é fácil obter abraços sem calor
Que mal apertam e já estão consumidos!

Como é difícil navegar um oceano vasto
Que represente os sentimentos do ser!...
Como é fácil prever um futuro sem rasto
De quem parte, sem chegar a viver!

06.08.2009, Henricabilio
 
Como é difícil!... Como é fácil!...

Morro-me

 
Morre-me a alma aos pedaços!
Perdi letras do sol e da lua...
perdi letras do azul e do mar...
da primavera...
da aurora.
Morre-me a alma aos pedaços
porque tu me morres.

01-08-09
vergílio
 
Morro-me

Decifra-me

 
Que importa meu rosto
Se é nas palavras
Que me encontras?

Que importa meu corpo
Se é nos versos
Que me revelo?

Decifra-me num Poema
E encontra-me por aí...
 
Decifra-me

quem quer um docinho?

 
no meu beijo pus carinho
(todo o que sentes por mim)
e nas mãos mais um miminho
e afaguei meu bem assim

depois disse: dorme bem
e falei voz de doçura
não fosse acordar o medo
antes de vir a ternura

no calor desse teu corpo
aconcheguei meu coração
dormiste tu teu soninho
fiquei com teus sonhos então

meu anjinho tão bonito
a mãe está perto de ti
não vou deixar nenhum grito
abafar meu canto aqui

vi teus olhos tão sinceros
cheios de amor para ler
e li todos os mistérios
que só uma mãe sabe ver

descansa meu amor santo
no meu colinho deitado
enquanto eu acalanto
o amor em ti plantado
 
quem quer um docinho?

Sou o poeta...

 
Sou o poeta ...
Dos eternos DIAS frios,
das HORAS vagas e nuas,
dos MINUTOS marginais,
dos SEGUNDOS... planos existenciais,
de todos os MOMENTOS fugidios!

Sou o poeta...
Das PALAVRAS cruas,
dos VERSOS fulgurantes,
dos POEMAS elaborados,
dos SONHOS eternizados,
dos SENTIMENTOS constantes!

Sou o poeta...
Do CORAÇÃO vermelho-vida,
dos OLHOS verde-bonança,
da ALMA azul-criança
e (apesar de tanta despedida)
dos SONHOS rosa-esperança!

Sou o poeta...
Dos ACASOS e da persistência
que - da noite para o dia -
viu nascer-lhe a poesia!

Mas ACASOS - mais que coincidência -
são a LUZ que me guia!

23/05/2008, Henricabilio
http://recantodasletras.uol.com.br/poesiasdealegria/1001622
 
Sou o poeta...

A PRENDA QUE EU TOMEI! Do António Gedeão… (Para os companheiros do Luso neste Natal 2009)

 
Dispensava o autocarro e ia na companhia do seu aluno que, de tanto o dizer, o queria ser. E ele condescendia, que sim, que sim senhor, um dia haveria de ser. E assim foi, que era um homem de palavra…e esta rara nele, que não gostava de se ver retratado na rádio ou na imprensa. Assim nasceu a sua primeira grande entrevista dado a um “miúdo” ao grande jornal da época das Artes e das Letras. Boa a entrevista? Podia lá ser, quanta ingenuidade havia naquela tenra idade…mas ele não se importou e com o carinho só prodigalizado a quem gostava, ajeitava a linguagem e falava como se à sua frente estivesse alguém à sua altura. Hoje, mais perto do Natal, fui-lhe tomar emprestado – porque sei que ele mo dava!... – um poema (excerto) com que me identificava, com a saudade imensa do melhor professor que alguma vez tive e do poeta e amigo que pouco fiz por merecer.

arlindo pato mota (ARFEMO)

UMA QUALQUER PESSOA

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.

Uma qualquer pessoa que a recebesse

num jeito de tão sonâmbulo gosto

como se um grão de luz lhe percorresse

com um dedo tímido o oval do rosto.

Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse

e em silêncio dissesse: é para si.

E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,

e, sem sorrir, sorrisse,

e, sem tremer, tremesse,

tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto

como se um grão de luz lhe percorresse

com um dedo tímido o oval do rosto. (…)

ANTÓNIO GEDEÃO
(Publicado por Arfemo em 20 de Dezembro de 2009)

VOTOS de BOM NATAL
 
A PRENDA QUE EU TOMEI! Do António Gedeão… (Para os companheiros do Luso neste Natal 2009)

A despedida, é o instante derradeiro...

 
 
Há um momento
Suspenso
No vazio do tempo...

Um momento
Em que a vida nos mostra
O quão frágeis somos
E o nada em que nos tornamos

Um instante
Perturbante
E errante
Ante o pressentimento
Do inevitável

O confronto
Entre a vida
E a morte!

Escapou-me algo...
Um grito mudo
Macilento
Possante
Lancinante
E sufocante!

Agiganta-se o sentimento
Perante a imponência
E a impotência
Da perda

E do tanto que era
Ficou tão pouco...

Restaram as lembranças
Que a alma guardou
É o que tenho
Um resto de nada...

Mas é o tudo
Que acho no vazio
Em que te procuro

Ainda assim
É tanto
Que tudo é pouco
Para dizer o quanto!

Não me esqueço de ti
Pai
A saudade sabe...
 
 A despedida, é o instante derradeiro...

"Nos teu dedos" Poema escrito e declamado por: Vóny Ferreira

 
 
 
"Nos teu dedos"   Poema escrito e declamado por: Vóny Ferreira

SEM ESPAÇO

 
Preenches cada célula
do meu corpo
Deslizas em cada fio
do meu cabelo
Ocupas cada poro
da minha pele
E eu, habituada
à falta de espaço,
Caminho ao meu lado
…naturalmente.
 
SEM ESPAÇO

sabe-me a sal o teu porão

 
Deixa-me descer ao teu porão,
Não quero mais ser âncora,
Quero flutuar
Pelo mar bravio do teu corpo
E afundar-me no precipício da tua intimidade.
Rasgar-te o ventre
Como quilha contra a maré,
Enfunar as velas em contra ciclo
Do vento norte.
Tomar tua boca como gomo de citrino
Que refresca e sara as feridas
Da longa viajem,
Saciar em teus seios a sede de água doce
Do teu corpo que ondula a cada vaga do desejo
Que nos assola.
No teu ventre procuro a noite
De águas plácidas em calmaria,
Lua ao largo em reflexos de prata
Que se estendem pelas praias de areia
Quente do meu corpo.
Quando entro no teu porão
Em vagas ondulantes,
Sou pirata do teu mar,
Corsário destemido
Em busca de abrigo da longa jornada
Desse mar sem fim,
Cabo das tormentas
Que vira Boa-Esperança,
No reencontro cálido
Do Atlântico com o Indico,
Do Pacifico quente na dobra da patagónia
Ao encontro do frio do pólo.
Suavizamos as marés nesse encontro,
Celebramos cada reencontro
Em investidas ondulantes
Que bebemos nos lábios,
Regatos de amor que alimentam oceanos.
Sabe-me a oceano o teu porão salgado,
Sabe-me a infinito a quilha da tua vontade.
 
sabe-me a sal o teu porão

FLOR DESEJADA

 
Nas asas do vento, criei uma flor

cercada de desejos e aguardei,

obstinado, a Primavera.

Passada a época das chuvas, liberta

a memória do silêncio das palavras, um

sorriso cúmplice, inebriante, anuncia

discretamente um novo tempo,

táctil e cálido, rodeado de aromas

inesperados.

O fogo dos sentidos, Cibele, necessita,

como o vidro, mil paixões.

arfemo

(rep.)
 
FLOR DESEJADA

Soneto do despertar

 
Soneto do despertar
 
De herança, o conhecimento colectivo,
De legado, a formação, a crença, a tradição
Ficar estagnado e agir só com a razão
Processo mental condicionado e adormecido

Romper barreiras e abrir a consciência
Reconhecer o eu profundo e se entregar
É um passo dado para o simples despertar
Quebrar sofismas para encontrar a essência

A inteligência ao serviço da loucura
Desperdiçada em paranóicas ilusões
O segredo não está nas religiões

É Deus contigo numa mesma pessoa
Tu só dependes da tua espiritualidade
Dentro de ti a luz da chave da verdade

Maria Fernanda Reis Esteves
49 anos
natural: Setúbal
 
Soneto do despertar

Procuro o significado

 
PROCURO O SIGNIFICADO

Para o passar das horas
procuro o significado
Palavras me vêem à mente
Trazendo-me sempre o mesmo recado.
Há ainda um Amor orvalhado
E uma saudade premente
Sei porque choro,
Só não sei porque me entrego
No frio dos meus dias
Nas minhas manhãs sombrias.

Ficam as palavras, que não me deixam só
São minha realidade, meu Universo
São o sabor da Vida,também a poeira o pó
Que deposito no fazer de cada verso.

Pó para onde meu corpo escorrega
Já me deixo ir,de mim faço entrega.
É esta a minha realidade.
No passar das horas, este tempo me pega
Me leva p'ra onde não há regresso
Só a saudade!
Então estrelas serão minha companhia.
A ti Vida já nada te peço
Já tão pouco te pedia?!

rosafogo
 
Procuro o significado

Memória em saudade

 
Balancei a memória do tempo
respirei o aroma de outrora
época que as tranças dançavam
no alto dos laços enrolados
pelos teus dedos firmes.

Saltava livre longe dos perigos
caia nos teus braços ternos
no regaço das tuas histórias
finalizadas por beijos suaves
escorridos pela luz do teu olhar.

Podia ter medo do escuro
onde o teu brilho me aconchegava,
sujar o vestido por ti bordado
nas noites que velavas por mim.

Aprendia a crescer segura
nos teus dedos repletos de afagos,
brincava por entre o capim
jogos inventados na imaginação.

Subia às arvores na gargalhada
dos teus temidos avisos,
levava nas mãos as cores das borboletas
pintadas na utopia inocente.

Sentia a porta abrir a cada chegada...

Hoje a porta abre-se
nos vincos do tempo
que a memória eterniza
com as marcas no teu rosto cansado,
nas mãos o mesmo fervor de sempre.

Mas ainda assim,
a saudade espreita na memória,
contudo...
este é o maior amor
e a vida que me dês-te,
és a minha verdade!

Dedicado à minha mãe.
http://www.imeem.com/">
Vivaldi:" rel="nofollow">http://www.imeem.com/elfyie/music/KMh ... autumn/">Vivaldi: The Four Seasons--LAutunno [Autumn] - Vivaldi
 
Memória em saudade

Baloicei a cadeira .Adormeci!

 
Baloicei a cadeira .Adormeci!
 
BALOICEI A CADEIRA. ADORMECI!

Não há caminho de volta
Uma hora mais e o Sol se vai
Ao longe a lua e a minha alma se solta.
Na monotonia, já cai.
Meus pensamentos fazem a travessia
A noite vem e cai o dia.
Foi como um pássaro que voando,
este dia, que a noite traz?!
Assim me fosse deixando,
Sem descanso, de relance, fugaz.

E assim a vida é como fio de cascata
Hesitante, ora de ouro, ora de prata!
Vou-me deixando embalar...
Hoje? Meu pranto não foi além dum soluço
Com sabor a passado, fiquei a recordar.
Em mais um sonho me debruço.
Fechei os olhos, baloiçei a cadeira
Bamboleei o pensamento devagarinho, devagar.
Até que chegou o momento em que à lareira
Ao colo de minha Avó,o frio chegou a passar
Chega o eco da sua voz aos meus ouvidos
Ainda sinto o calor dos seus braços
Ritual adormecido nos meus sentidos,
Retido na escuridão do meu espaço.

Enquanto meu coração bater
Esta lembrança, vou reter!
Este caminho está sem volta!?
Minha alma já se solta.
A meninice ficou para trás.
Hoje? Passou o dia,
por cima do meu ombro, fugaz!
Me encolhi...
Baloicei a cadeira, adormeci.

rosafogo
 
Baloicei a cadeira .Adormeci!

falei com o vento

 
falei com o vento
 
falei com o vento
para me levar num sopro,
mas meus versos estão pisados
e no chão da terra ficam atolados
…eu não fui com o vento

aqui fiquei!

troquei as manhãs
nascidas rente à raiz
por um sonho escuro e infeliz
adestrado pela distância do momento
… eu não voei com o vento

aqui fiquei!

não vi o sol no horizonte
a despenhar-se nos campos
fiquei com asparas espigas de trigo vazias
a arder na tempestade de loucas utopias
… o vento ateou mais o fogo

aqui fiquei!

e queimaram-se as palavras
que falavam com o vento
entre os detritos do centeio e um grito
encarniçado na baba da destruição.
fiquei devoto a uma ilusão…
… o vento não me respondeu

e eu daqui sai…

Imagem Google
 
falei com o vento

«« Morta sem estar morta ««

 
 
Morta sem estar morta!...
Vulto negro, pouco importa
pedaço de carne que sobra
na travessa de quem come.

Roubaram-me até o nome
numa fome que consome.
Que me consome em vida
por ser uma raiz estendida.
Daquelas: que não se dobra
que incomoda.

Morta na ignorância
morta na arrogância
tantas vezes na inconstância.
Outras tantas na ganância.
Morta no desapego
que se tem no desassossego:
Do que pesa no coração.
Do que foge da nossa mão.

Ao perder a utilidade
o vaso usado se quebra.
Não nos satisfaz mais a vaidade...
Deixou de ser à nossa vontade
não mais se enche de terra.

Mataram-me com desamor!
Viraram os olhos à dor
de quem busca a sua sorte.
Como quem caminha prá morte
levada no vento norte.

Sempre igual!...
Igual no ideal
na afeição
dos que trago no coração.
Mesmo quando digo não.
Mesmo quando finjo não ver.

O vento
não se pode prender.
Muito menos, a agua a correr
numa ribeira bravia.
Igual!...
Ninguém me domina
talvez seja sorte ou sina
mas; sou eu e sou assim.

Morta…
Mas continuo aqui
na espera...
Que se lembrem de mim
no dia em que por fim morri

Antónia Ruivo
 
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